17/03/2017 22h50

Trabalhadores da Educação de Amambai mantêm greve e fazem carreata no domingo (19)

Em Amambai, o movimento iniciou forte. Trabalhadores da Educação – professores e administrativos, alunos e seus pais, agentes penitenciários, trabalhadores rurais, cooperativados, vereadores, lideranças políticas, sindicalistas, índios Guarani Kaiowá das aldeias Limão Verde e Amambai e comunidade em geral estiveram presentes na manifestação que aconteceu no primeiro dia (15).


Fonte: Redação

 

“Eu não tenho perspectiva nenhuma de me aposentar se essa proposta da reforma da previdência passar, porque seria uma pessoa que não conseguiria ir até os 65 anos na sala de aula, impossível para mim (...) a gente fica pensando sobre as pessoas que não estão com a gente , a população ainda não entendeu; porque essa não é uma questão só da educação, mas de todos os brasileiros, a reforma da previdência vai mexer com todos, com o direito de todos, tem muita gente tranquilo, trabalhando, fazendo sua parte, mas se não estiver aqui lutando, a gente pode até perder, mas todo mundo vai perder junto. Tem que ter essa conscientização que a reforma vai prejudicar todos e vai tirar direitos sim.”

— Sidneia dos Santos Dalastra, há 20 anos na educação

 

O trabalhadores da Educação de Amambai – professores e servidores administrativos, das redes municipal e estadual de ensino, mantêm-se firmes no propósito de lutar contra a reforma da previdência.

Eles estão com suas atividades paralisadas e as escolas estão fechadas desde a última quarta-feira (15). O retorno às aulas não tem data prevista. "Resistiremos enquanto houver possibilidade de retrocesso da proposta, enquanto existir um deputado ou um senador com chance de ser sensibilizado a nosso favor", falam eles.

A informação é que todas as unidades escolares públicas de Amambai, incluindo as indígenas, localizadas nas aldeias, exceto a municipal Mitã Rory, vinculada a uma instituição religiosa, estão fechadas. São mais de 8.500 alunos sem aula, segundo o censo de 2015 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

“Com essa proposta do governo está difícil de aposentar, porque a gente não tem perspectiva nenhuma, não sabe o que vai acontecer, mudaram os planos aprovados há muitos anos, essa proposta vem de camarote e nós, aqui embaixo, temos que aceitar. Ficar quieto? Não, temos que lutar contra isso, porque não estamos pensando só em nós que já temos tempo de serviço, mas nos jovens que estão vindo aí.”

— Zenilda de Souza Martins, 22 anos de trabalho na rede estadual de ensino

 

Desde o início do Movimento Nacional contra a Reforma da Previdência, realizado em todo o país, os trabalhadores mantêm-se reunidos em concentração na praça Cel. Valêncio de Brum e em atividades visando a sensibilização da população e da classe política.

Continuidade do movimento exige determinação e organização

Enquanto uns fazem panfleteações e adesivagem, outros produzem cartazes e faixas, e outros ainda recolhem assinaturas de cidadãos em abaixo-assinado contra a reforma da previdência. Esta tarefa já resultou em mais de 5.000 assinaturas. O trabalho é árduo e exige determinação. Até porque os dias parados serão repostos em sábados letivos.

Para organizar o movimento, que é coordenado pelo Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação Básica de Amambai (Simted), foram escolhidos cinco professores para compor a comissão de greve - César Augusto Guidotti (coordenador), Katy Mary Lemes Escobar, Rosana Fernandes, Ramona Cleide Martins Dutra e Addison Ricardo Fischer.

Os Simteds demonstram a força da união dos(as) trabalhadores(as) em educação. Nos municípios organizam atos, protestos, carreatas, passeatas e envolvem a comunidade extrapolando a categoria da Educação. Isso demonstra o quanto os sindicatos afiliados à Fetems estão inseridos no cotidiano das cidades e sua importância no debate politico de temas pertinentes às suas comunidades.

— Fetems - Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul

 

Avaliação

A presidente do Simted, professora Olga Tobias Mariano, faz avaliação positiva do movimento. Segundo ela, os trabalhadores de Amambai estão entendendo os motivos das manifestações e demonstrando revolta com as medidas que estão sendo propostas pelo governo federal. "A participação de trabalhadores de vários segmentos na paralisação é uma demonstração de que a nossa reivindicação visa garantir qualidade de vida para a maioria da população", destaca Olga.

 
Ao centro, em pronunciamento na quarta-feira (15), a presidente do Simted, professora Olga Tobias Mariano. Ao centro, em pronunciamento na quarta-feira (15), a presidente do Simted, professora Olga Tobias Mariano.

“Se for passar essa reforma, eu acredito que devo morrer antes de me aposentar, pois, com a idade certa, seriam 49 anos de contribuição integral (...) então eu teria 72 anos de idade. Essa reforma não vai só afetar o servidor público, professor ou agente penitenciário, ela vai acarretar todos os trabalhadores (...) aqueles trabalhadores que estão lá na roça, aquela pessoa que trabalha na cana de açúcar, que fica erguendo peso nas costas. Um homem que fica carregando peso vai aguentar ficar a vida inteira fazendo isso? Não vai. (...) a gente clama para que os políticos vejam o que está acontecendo, que olhem para o povo brasileiro (...) a população brasileira não merece este tipo de aposentadoria, porque quem paga nossa aposentadoria somos nós mesmos, nós pagamos impostos (...) a folha do governo federal tá cheia por quê? Porque é muito benefício, muito assistencialismo, é muito político corrupto pegando dinheiro do povo e recebendo benefício para tudo, para carro, para viagem, para moradia, enquanto o trabalhador nem uma casa tem as vezes para morar.”

— Naura Jane Pacheco, 25 anos, há 6 anos trabalha como professora

 

Movimento iniciou forte

Em Amambai, o movimento iniciou forte. Trabalhadores da Educação – professores e administrativos, alunos e seus pais, agentes penitenciários, trabalhadores rurais, cooperativados, vereadores, lideranças políticas, sindicalistas, índios Guarani Kaiowá das aldeias Limão Verde e Amambai e comunidade em geral estiveram presentes na manifestação que aconteceu no primeiro dia (15).

Foram mais de 1.000 pessoas que inicialmente se concentraram na praça Cel. Valêncio de Brum e depois percorreram a avenida Pedro Manvailer gritando palavras de ordem, reagindo contra a reforma e sensibilizando quem assistia a passeata.

“Nós estamos apoiando a contra reforma da previdência. A preocupação da minha comunidade indígena é que o governo está traindo a nossa confiança, porque, na hora da política, nós votamos porque haveria melhoria para a população e hoje nós vemos a traição dos governos contra o direito dos trabalhadores honestos.”

— Sônia Pavão, 38 anos, coordenadora da escola indígena Tupã Y Ñandeva, na aldeia Limão Verde

 

Entidades unidas

Em todo o Brasil, o movimento é coordenado por diversas entidades classistas e sindicais. Entre elas, a CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação, Fetems – Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul, CUT – Central Única dos Trabalhadores, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Frente Brasil Popular, Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra) e Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (Proifes).

“É um absurdo essa proposta, acho que até as pessoas que menos entendem de lei estão todas mobilizados, tentando reverter esta situação. Vamos analisar os professores: uma sala de aula com 30 alunos que vão ser alfabetizados. Um professor com 80 anos vai ter condições física e emocional para alfabetizar essa sala? Não vai ter condições. Um senhor que trabalha de pedreiro vai conseguir carregar massa e tijolos com 80 anos? Isso é loucura. E para aquelas pessoas que estão alienadas da situação do Brasil, ou outras que dizem que já estão aposentadas, pergunto: e o futuro dos filhos, dos netos, vocês não pensam neles?”

— Ângela Vargas da Silva, 40 anos, professora desde 2008 na rede estadual de ensino

 

Comunidades Indígenas

As comunidades indígenas das aldeias Amambai e Limão Verde também aderiram ao movimento. Na quarta-feira (15), representantes das duas áreas indígenas bloquearam as rodovias que dão acessos as suas casas.

Na MS 386, Amambai/Ponta Porã, índios Guarani Kaiowá da aldeia Amambai bloquearam a rodovia no período da manhã, liberando o tráfego de veículos a cada meia hora.

Na MS 156, Amambai/Tacuru, a rodovia também ficou bloqueada pela comunidade da aldeia Limão Verde. Das 8 às 11 horas, o tráfego foi interrompido e dezenas de veículos tiveram que aguardar o final da manifestação para seguirem viagem. Neste local, os índios reclamaram que um veículo do exército quase atropelou uma criança quando não concordou em parar e seguiu seu trajeto de forma violenta

"Todo mundo sabe que esta reforma não vem para o povo progredir em termos de necessidade, esta reforma é um retrocesso por parte do governo que atinge a população menos favorecida em cheio; de maneira nenhuma nós vamos aceitar porque sabemos que quem vai sofrer a consequência somos nós, principalmente o pessoal que trabalha na educação e quem não está contribuindo com o governo; a gente está aqui neste movimento para receber algumas condições por parte do governo e queremos ouvir que o governo volte atrás, porque não vamos aceitar (...) desde a criança até os idosos estão apoiando o movimento."

— Oriel Benites, 32 anos, professor na escola indígena Tupã Y Ñandeva, na aldeia Limão Verde, e representante no Aty Guassu Internacional

 

Veja outros depoimentos de trabalhadores da Educação de Amambai

“Sou contra a reforma da previdência porque não acho justo que sempre os trabalhadores arquem com as grandes despesas. Por exemplo, dizem que há um rombo na previdência, quando alguns especialistas e estudiosos do assunto dizem que não há rombo e sim um superávit. Somos contra a reforma do jeito que ela está, mexendo nos direitos dos trabalhadores, tirando direitos, de uma forma vergonhosa. Há que ter uma reforma? Converse com a comunidade, ouça as pessoas, não fazer de cima para baixo como está sendo feito, às pressas, esse é um assunto complicado para resolver nessa pressa toda.”

— Vânia Márcia Corrêa da Mota, professora da rede municipal e de ensino superior

 

“O movimento contra a reforma da previdência é uma causa nacional, uma causa dos trabalhadores. Depois da Constituição de 1998, nós não temos mais o Instituto de Previdência Social, temos um Instituto de Seguridade Social, que é um instituto que encampou três áreas: a da saúde, da assistência social e da previdência social. A soma delas chega a R$ 700 bilhões a receita de arrecadação. Então, nós não temos déficit da previdência, temos superávit do Instituto Nacional de Seguridade Social. O que dizem os apoiadores desta reforma é uma falácia, ou seja, a intenção é você privatizar a previdência no futuro, você sucateia a previdência no momento e, no futuro, você privatiza, é um modelo neoliberal do senhor Temer.”

— Sivaldo Macedo Michenco, 36 anos, professor na rede estadual de ensino há 15 anos

 

“Acredito que toda política social, de inclusão, surge da reivindicação da sociedade organizada. Este movimento nada mais é do que isso. Uma reivindicação justa em busca de direitos. As pessoas de bem têm que ter coragem de lutar em busca de benefícios para si e para a sociedade em geral. Tem gente que acaba se acovardando e acaba não lutando pelo bem que acredita.”

— Leonice Sesnick de Oliveira, 50 anos, há 27 anos na educação em Amambai, redes estadual e municipal de ensino

 

“Com relação à reforma da previdência o que a gente ouve dizer é tem que fazer a reforma, mas ninguém explica porque é necessária. Então eu penso que já que há muito tempo as pessoas falam desta reforma, as autoridades governamentais deveriam dizer, nos provar a necessidade da reforma e porque a previdência se encontra nesta situação e assim, depois, população e governantes escolherem a melhor maneira de resolver o problema.”

— José Luiz Karasek, 58 anos, professor há 30 anos na Educação

 

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