19/12/2016 07h37

Crônicas de uma Alma Solta

Cada qual com sua fé


Fonte: Redação

 

Admiro muito pessoas que tem fé. Sem ironia, admiro e invejo. E nem vou dizer que é uma invejazinha, uma coisa leve, é inveja mesmo.

Afinal ter fé é uma coisa muito difícil. Participar de igreja é fácil. Já a fé é outro papo. Ter fé é entregar na mão de outro ser, geralmente invisível, os rumos do seu futuro. Isso é extraordinário, místico, magnifico. Ter fé é confiar que uma oração, ou reza, depende da fé, mudará sua vida, curará uma doença, reestabelecerá a paz na família. É muito doido isso. Tem que ter muita coragem para ter fé. Eu não tenho, nem fé, nem coragem.

Já tentei. Não deu muito certo. Afinal se eu quero mudar minha vida, eu mudo, não sou árvore que está fixa, sou gente, que toma decisões e que paga o preço de cada uma delas. Quando estou doente, ou tenho alguém doente próximo, procuro ajuda médica e sigo a prescrições corretamente. Quando quero reestabelecer a paz, seja na família ou entre amigos, promovo uma roda de conversa, coloco as coisas à clara, cuido de resolver os problemas e está feito, seguimos a vida.

Culpo meu racionalismo por isso. Não consigo deixar decisões e ações da minha vida nas mãos de ninguém. Admiro que o faz.

Muitas pessoas tentam me rotular como ateu. Não o sou. Creio que Deus existe, aliás, Deuses existem, só não tenho fé neles. Até queria ter, mas vendo o mundo, só me restam duas opções, ou ele não está nem ai para a humanidade, e por isso não é bondoso, ou ele não pode intervir, e por isso não é poderoso. Simples assim. Alguns da área da fé, me dirão que isso chama-se livre arbítrio. Mas, meus caros, que livre arbítrio deixa uma criança morrer de fome, ou sofrer violência sexual dentro de casa? Ou permite uma mulher ser estuprada por um grupo de caras sem mandar um raio, um anjo, um qualquer para defende-la?

Odeio o proselitismo. Respeito quem tem sua fé, mas me irrita profundamente tentarem me converter a essa ou aquela prática de fé. Fé é algo pessoal. Se você tem, que bom, siga tendo. Se não tem, que bom, siga não tendo. Só, por favor, não tente converter ninguém, nem à sua fé, nem à sua falta de fé.


 

O autor é filósofo e escreve semanalmente nesta coluna

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