12/12/2016 08h08

Por Luiz Peixoto

Morar sozinho e lavar roupas


Por Luiz Peixoto

 

Desde que saí de casa, há cerca de 30 anos, tentando estudar, coisa que aqui não era possível na época, morei quase sempre sozinho.

Morar sozinho, para quem nunca o fez, é idealizado. As pessoas acreditam que terão liberdade de fazer o que quiserem, de comer o que e quando quiserem (em vários sentidos), de sair e chegar quando der vontade. É tudo isso mesmo, porém não dá tempo. Para morar só a gente tem que dar conta de se manter, de manter a casa, de arrumar as coisas, de lavar roupa, louça, a menos que sejamos filhos de ricos que nos sustentem e que nos arrumem empregadas para cuidar das nossas coisas, mas aí não é morar só, é apenas morar em outra casa, como se fosse a dos pais.

Morar só é assumir responsabilidades. É assumir suas coisas e resolvê-las. Muita gente sofre nesse processo. Eu não. Fui educado pela minha família para ser independente, afinal filho de pobre não tem muita opção a não ser se virar por conta própria.

Quando voltei para Amambai, morar com pai e mãe, ouvi de algumas pessoas que ia entrar em modo de vida mais fácil, afinal teria comida pronta, casa limpa, roupa lavada. Essas falas sempre me incomodaram, afinal a pessoas estava, indiretamente, me chamando de inútil.

Até hoje, depois de três anos de volta à minha terra, tem pessoas que se espantam quando chegam em casa e eu estou colocando roupa na máquina, ou no varal. O espanto ainda é maior quando perguntam e a mãe responde que não deixo ela lavar minha roupa. Até duvidam que eu consiga manter camisetas brancas sem aquele tom amarelo de roupa velha.

Sim, eu lavo minha roupa. Afinal sou eu que sujo. E lavo bem. Está certo que hoje em dia, como qualquer pessoa que tem um salário e compra parcelado, tenho uma máquina que faz tudo, mas passei uns bons 15 anos lavando na mão mesmo, deixando de molho, quarando roupa, torcendo jeans, como qualquer pessoa normal.

Eu também sei cozinhar. E, sem falsa modéstia, cozinho muito bem. Adoro brincar com temperos, com sabores, com cores. Acredito que cozinhar é um ato de amor, de entrega, damos nosso melhor para alimentar a nós e aos que amamos, entregamo-nos. Eu também lavo louça. Odeio. Mas lavo. Afinal eu sujo. Eu também limpo casa. Odeio. Mas limpo. Afinal eu sujo.

Esse discurso de espanto ao ver um homem limpar, lavar, cozinhar, passar roupa, ou seja, fazer os serviços domésticos, só demonstra nosso grau de machismo instituído na sociedade. Homem não ajuda em casa, ele tem a obrigação de dividir, de ser parte dos trabalhos, afinal ele mora ali também. Sempre digo aos amigos, ou você faz metade do serviço, ou paga alguém para fazer. Simples assim.

A primeira pessoa que me questionou do por que eu não deixo para a mãe o serviço foi uma parente, que criou quatro filhos e que nunca ensinou a eles a divisão do trabalho. Como eu nunca fui dos mais educados, apenas respondi para ela não me confundir com os filhos dela, que se tem uma coisa que eu me orgulho é de ser dono da vida, de ter autonomia.

Bem, vou ali tirar umas roupas do varal, dobrar e guardar. Afinal elas não se guardam sozinhas. Ainda!


 

O autor é filósofo e escreve semanalmente nesta coluna

(2) Comentários

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Lendo esse texto,me parece que foi escrito sobre medida a minha pessoa,o que dizer,só tenho agradecer,muito obrigado precisa ler algo assim.


 
Tom Wilcla em 12 de dezembro de 2016 às 21:21

Te admiro muito em certos aspectos e essa de ser "filho" vc da de dez a zero em cima de muitos, to contigo e não abro

 
Helena em 12 de dezembro de 2016 às 12:12