21/11/2016 09h57

Crônicas de uma Alma Solta

O mundo anda mais chato?


Por Luiz Peixoto

 

Tenho ouvido de várias pessoas que o mundo anda mais chato, que não se pode mais fazer piadas que as pessoas se ofendem. Não consigo entender essas pessoas, assim como nunca entendi ou ri de suas piadas.

Se por chatice se entende que as pessoas agora estão reagindo aos preconceitos do dia a dia, espero que ela continue, e que se intensifique.

Um certo dia, no ano de 2008, eu estava em um ponto de ônibus, na W3 Sul, em Brasília, lá pelas 23h, voltando para casa depois do trabalho, no meu estilo de sempre (bermuda, camiseta e chinelo), comigo no ponto só havia um outro cara, de terno e gravata, um homem negro elegante e com uma pasta executiva. Uma senhora, pelos trajes saindo do shopping que fica em frente do ponto, vem também esperar o ônibus. Ela fica em pé, perto de mim e olhando sempre para mim e para o outro cara. O ônibus dele chega, ele embarca e sai. Ela me olha e sorri, e me diz "estamos com medo já de ser assaltada! ". Eu demorei uns dois segundos para entender e, um das poucas vezes na vida, fiquei sem resposta, fiquei mudo, mas minha cara deve ter revelado o que senti, pois ela se afastou e foi para o outro lado do ponto. Peguei meu ônibus e fui para casa matutando. Na Capital da República brasileira, cidade moderna e antenada, o racismo ainda se revela do nada, num ponto de ônibus. Se responde a isso é chatice, seguimos chatos!

Semana passada, aqui em Amambai, um senhor foi assassinado covardemente por alguns rapazes, parece-me que 4. Crime bárbaro, chocou quem soube, causou indignação. Quando fui ler a matéria de um jornal o título era revelador do pensamento amambaiense "índios matam homem com facadas". Na mesma semana em Campo Grande, um homem de 30 anos estuprou e torturou a mãe idosa de 64 anos. O título da matéria não era "Branco estupra e tortura mãe", mas um "homem estupra e tortura sua mãe". Parece-me que só entre iguais se releva a origem étnica. Quando o crime for cometido por outra etnia, apontamos logo a origem como causa da criminalidade. A nossa xenofobia e nosso racismo se revela nas pequenas coisas, para muitos imperceptíveis. Se responde a isso é chatice, seguimos chatos!

O mundo não ficou chato. A gente aprendeu a reagir. E não calaremos.

Seguimos. Sempre chatos.


O autor é filósofo e escreve semanalmente nesta coluna

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