30/11/2016 08h40

Por Luiz Peixoto

O mundo descartável


Por Luiz Peixoto

 

Sou de uma geração que guardava as coisas. Aprendi isso em casa. Não se jogava quase nada fora. Afinal era frase dita pelo meu pai "quem guarda o que não quer sempre tem o que precisa". Tenho guardado vários livros do tempo de juventude, mesmo me desapegando de alguns ao longo da vida, uns continuam aqui. Tenho guardado uma série de CDs, mesmo com todas as músicas já digitalizadas, eles são meio místico, lembram uma época diferente, todo um ritual de escolher o CD, colocar no aparelho e torcer para ele tocar.

Existe um ritual pós-morte muito difícil. Que é o de separar as coisas da pessoa que morreu. É um ritual de despedida, maior que o velório. Velório é público, as pessoas que aparecem vão ser solidárias, dar seu abraço. Separar as coisas é privado. É uma ação solitária e doída. Aqui em casa existe uma peça no fundo, fechada, onde se guardam as ferramentas e outras bugigangas que eram do pai. Mexendo lá, encontrei meu primeiro martelo, pequeno, de criança, mas de criança que com 9 anos ajudava o pai, carpinteiro, a trabalhar. Esse virou relíquia.

Fiquei matutando sobre o tanto de coisas que jogamos fora ultimamente. Celular fica um ano no máximo, torna-se obsoleto, vira lixo. Computador logo está superado, vira lixo. Quando eu era criança, o brinquedo tinha que durar, a gente cuidava dele, pois não iríamos ganhar outro tão fácil e era apenas um ou dois brinquedos. Hoje vejo crianças com caixas e mais caixas de brinquedo, mas que não sabem mais usa-los. Sempre que chega o final do ano, faço uma seleção de roupas para doação, uma sessão desapego. Afinal tenho uma regra, sempre que uma camiseta nova entra no guarda-roupa uma deve ser retirada. Deixo isso sempre para o final do ano. Essa semana fui olhar minhas calças jeans, que é meio uniforme obrigatória na minha vida. Percebi que não tenho nenhuma calça nova, todas tem alguns anos de uso. Afinal é um tecido resistente. Percebi também que não tenho nenhuma calça da moda. Afinal nunca segui modismo.

A moda nos leva a descartarmos coisas muito depressa. A roupa de 2010 não serve para 2016. A minha serve, afinal não engordei tanto assim. Uns ajustes aqui, outros ali, e todas ainda me vestem.

O mundo que vivemos tornou tudo descartável. Roupa, brinquedos, aparelhos eletrônicos, pessoas. Sou do tempo que a gente mandava consertar coisas que estragavam. Existiam sapatarias em vários pontos da cidade, hoje quase não existe mais. Existam costureiras especializadas em reforma de roupa, hoje quase não existem mais.

Hoje descartei uma mala velha, de zíper quebrado, ai lembrei que havia um tempo que a gente mandava trocar zíper. A mala velha foi comprada em 1998. Acho que já cumpriu seu papel.

Vou ali, rever a pilha de coisas para doação. Afinal não quero descartar algumas lembranças que as peças me trazem...


 

O autor é filósofo e escreve semanalmente nesta coluna

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