31/10/2016 07h55

Crônicas de uma Alma Solta

Sintomas de Saudade


Por Luiz Peixoto

 

Saudade é um sentimento estranho. Difícil de definir, mas muito fácil de sentir. O grande Chico Buarque, na música "Pedaço de mim", define "que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Penso bem assim, saudade é curtir aquilo que já foi e que não pode voltar. Sentir saudade é diferente de ter desejo ou vontade de viver algo de novo. Saudade se aplica ao que não pode mais ser vivido...

Tenho saudade da minha infância, do tempo que não haviam preocupações, além de definir qual a próxima brincadeira, ou de tentar acertar o taco na bola no jogo de bets. Infância simples, mas vivida. Mas não tenho desejo de voltar a ser criança. Fui. Plenamente. E aquela criança que viveu tudo na sua intensidade deu espaço ao que sou hoje. Tenho saudade, mas já foi, não viverei isso de novo!

Tenho saudade da minha adolescência. Fase de conflitos e descobertas. Primeiras ações públicas de inserção social, primeiras experiências afetivas e amorosas, primeiras brigas. Ser adolescente é descobrir o mundo e eu o fiz com muita gana, com muita paixão pelas coisas. Como não lembrar com carinho dos primeiros livros devorados, dos primeiros beijos desajeitados, da primeira vez que os pais deixaram sair à noite, do primeiro porre, das primeiras bagunças na escola..., mas não tenho desejo de voltar a ser adolescente. As aventuras da adolescência moldaram o que sou hoje, com erros e acertos. Tenho saudade, mas já foi, não viverei isso de novo!

Tenho saudade da minha juventude. Foi nessa época que conheci boa parte do Brasil. Andei muito por aí, conheci muita gente boa. Fiz muita palestra e reunião em vários cantos. Morei em várias cidades. Aventurei-me pelas artes do conhecimento. Saudade de algumas pessoas que já se foram, de outras o desejo de rever. Tenho saudade, mas já foi, não viverei isso de novo! Não serei de novo jovem, mesmo mantendo-me jovial. Essa fase foi fundamental para definir meus rumos ideológicos e meus valores de vida.

Tenho saudade da sensação da primeira viagem para Roma. Aquele frio na barriga de chegar em uma terra estranha, com idioma que nunca dominei, sozinho, sem saber nem como ir do aeroporto até o hotel onde seria a reunião. Não tenho saudade de Roma, não da cidade, tenho sim desejo de voltar a andar pela Via Sistina, de sentar para ler em um café ao lado da Piazza Navona, de passar um dia dentro do Panteão, de jogar uma moeda na Fontana de Trevi, etc., mas isso ainda farei, não é motivo para saudade, mas sim para planejamento.

Tenho saudade da emoção da primeira vez que vi o mar lá no Espirito Santo, da primeira vez que entrei dentro de um avião, da primeira vez que vi a floresta amazônica de cima... não é saudade da praia, ao avião ou da floresta, isso posso ver assim que quiser e puder pagar a viagem, mas sim da emoção, da sensação de novidade.

Poderia seguir dizendo coisas que tenho saudades e outras que tenho desejo de rever. Mas creio que os exemplos bastam. Saudade é um sentimento que só tem quem já viveu. Só quem viveu muito sente muito. Saudade é um sentimento bom. Afinal ele é prova que as coisas vividas ficaram marcadas no coração e na memória. Só o que o coração amou, fica eterno, já disse Rubem Alves, e eu concordo plenamente. Eternizei na memória e na saudade as muitas vivências e as muitas pessoas que passaram pela minha história. A saudade é construtora de lembranças. As lembranças nos fazem ter desejo de fazer de novo, de reviver, de reencontrar. E esse desejo nos motiva a seguir sonhando, a seguir sendo, a seguir...

Estou com sintomas de saudade. Saudade de um disco inédito do Legião Urbana ou do Cazuza, de um livro inédito do Jorge Amado ou do Sidney Sheldon, de uma palestra com Paulo Freire ou com o Rosalvo, de uma crônica do dia de Rubem Alves, de uma conversa com meu pai, de um tereré com o Elton e outros egresso que já se foram... sei lá, saudade é um sentimento estranho!


O autor é filósofo e escreve semanalmente nesta coluna

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