12/06/2018 02h31

Haverá protestos contra Putin na abertura da Copa?

Pesquisa demonstra que 88% dos russos não estão dispostos a participar de manifestações com demandas políticas


Fonte: Poliana Dallabrida e Daniel Giovanaz/Brasil de Fato |Sochi (Rússia)

 
Vladimir Putin (esq.) apoia o presidente sírio Bashar al-Assad e exerce contraponto à hegemonia estadunidense na geopolítica internacional / Divulgação Kremli Vladimir Putin (esq.) apoia o presidente sírio Bashar al-Assad e exerce contraponto à hegemonia estadunidense na geopolítica internacional / Divulgação Kremli

Políticos impopulares ou que enfrentam os privilégios de determinados setores da população são alvos fáceis durante a realização de grandes eventos. Com os olhos do mundo voltados para si, as cerimônias de abertura e encerramento da Copa costumam servir de palco para que a insatisfação de cidadãos locais seja expressa e divulgada internacionalmente.

Na Rússia, protestos e manifestações – aos moldes a que estamos acostumados no Brasil – são improváveis. Em meio ao quarto mandato presidencial, após ser reeleito este ano com 76,6% dos votos, o presidente Vladimir Putin goza de alta popularidade e confiança da população russa.

Segundo a pesquisa mais recente do Instituto Levada, o nível de aprovação supera os 79%. A taxa de desemprego é estável, cerca de 5%, e a economia voltou a crescer, ainda que lentamente, após recessão econômica de 2014 e 2015, que atingiu em cheio os países emergentes.

– Vovó, o Lênin ganhou alguma guerra?

– Não.

– E o Stálin?

– O Stálin, sim.

– E o Medvedev [ex-presidente e atual primeiro-ministro]?

– Não.

– E o Putin?

– O Putin ganha uma guerra por dia.

Diálogo testemunhado pelos repórteres em um trem de terceira classe entre Tula e Voronej, ao sul de Moscou, em maio de 2018. O apoio ao presidente também é expresso numa infinidade de souvenirs disponíveis para compra em lojas ou bancas de revista de todo o país. O rosto de um Putin sério e confiante estampa camisetas, imãs de geladeira, canecas, capas de celular e calendários. Ele também aparece em montagens, seja "cavalgando" um urso, seja segurando um bebê com o rosto de Donald Trump nos braços.

Putin tem o respaldo de setores conservadores da sociedade russa, como a Igreja Ortodoxa. Para manter essa relação de confiança, tomou atitudes que repercutiram de forma negativa no Ocidente, como a proibição da chamada "propaganda gay". Aqueles que estão à esquerda no espectro político o admiram por outro motivo: o fortalecimento das empresas estatais. Nas mãos dele, a Gazprom, criada em 1989, tornou-se a maior companhia energética do mundo.

Mesmo entre os críticos mais ferrenhos, não há dúvidas de que o presidente representa um contraponto à hegemonia estadunidense na geopolítica internacional. O apoio incondicional ao presidente sírio Bashar al-Assad, por exemplo, é uma pedra no sapato das potências ocidentais, que tentam derrubá-lo desde 2011. A hipótese de que Putin tenha exercido alguma influência na eleição de Trump evoca as memórias da Guerra Fria e mexe com os sentimentos daqueles que sonham com uma Rússia protagonista – a exemplo do que um dia foi a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Oposição

A confiança e a admiração conquistadas junto a eleitores de perfis tão diferentes não significa que haja unanimidade. Afinal, trata-se do maior país do mundo, e nem todos se sentem representados pelo "fenômeno Putin". Uma parcela minoritária da população russa o considera um líder autoritário e corrupto, com base em denúncias de nepotismo nas estatais e no alto comando do governo. Alguns o chamam de "tsar", nome dado os imperadores despóticos que dominavam a Rússia antes da Revolução de Outubro 1917. Os principais opositores de Putin são a lenda do xadrez Garry Kasparov e o ativista político Alexei Navalny. Ambos são liberais, do ponto de vista econômico, e tem relações estreitas com os Estados Unidos.

Alexei Navalny é o rosto que mais cativa os russos que desejam a queda de Putin e uma aproximação liberal com o Ocidente Kasparov afirma que Vladimir Putin usa da intimidação, da propaganda estatal e de prisões arbitrárias, inclusive da eliminação de opositores, "para se perpetuar ditatorialmente no poder". O enxadrista compara Putin ao mafioso Don Corleone e diz que o presidente russo impede que a democracia e os valores do capitalismo sobrevivam na Rússia.

Em 2013, após ser preso por duas vezes durante protestos em frente ao Kremlin de Moscou, Garry Kasparov passou a morar em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Lá encontrou terreno fértil para dar entrevistas e fazer palestras sobre a "ameaça ao mundo ocidental que Putin representa". Além de coordenar a Human Rights Foundation, uma ONG para promoção da democracia liberal, Kasparov ajuda o governo estadunidense a recrutar e treinar jovens promessas do xadrez.

Alexei Navalny é bolsista da Yale World Fellow Program, programa de financiamento da Universidade de Yale para profissionais que "tragam inovações e promovam mudanças para o bem", e recebe doações do Fundo Nacional para a Democracia (FND), órgão da Casa Branca que ajuda membros da sociedade civil a promoverem mudanças de regimes nos governos não-alinhados aos Estados Unidos.

Advogado, Navalny concentra esforços para um suposto combate à corrupção em estatais russas, e tem atuado em casos de desvios de fundos dessas empresas por funcionários públicos. Em 2013, se candidatou a prefeitura de Moscou e conseguiu 27% dos votos. Ficou atrás de Serguei Sobianin, candidato apoiado pelo presidente Vladimir Putin e vencedor daquela eleição com 51% dos votos.

Apesar de não estar filiado a nenhum partido político e de não ter vencido nenhuma eleição que disputou, Alexei Navalny é o rosto que mais cativa os russos que desejam a queda de Putin e uma aproximação liberal com o Ocidente. Em seu canal no Youtube, Navalny fala dos "caminhos para a Rússia do futuro" e da repressão policial dos protestos contra Putin.

Demandas

As pautas que estão jogo nessas manifestações são a liberdade de expressão dos homossexuais, o combate à corrupção, o fim da ocupação russa na Ucrânia, a soltura de presos políticos, e a reversão da anexação da Crimeia. Esta última demanda sobrevive mesmo após o referendo de 2014, no qual a maioria optou pela união da região autônoma com a Rússia.

O caso mais emblemático de prisão política é a do cineasta ucraniano Oleg Sentsov. Contrário à anexação da Crimeia pela Rússia, Sentsov foi condenado a 20 anos de reclusão por terrorismo e tráfico de armas. Em reclusão numa penitenciária no Norte da Rússia, o cineasta está em greve de fome desde 14 de maio. No domingo (10), quatro dias antes do início do Mundial de Futebol, manifestantes se reuniram nas ruas de Moscou para pedir a libertação de Sentsov.

Os manifestantes não são uma massa homogênea. Mesmo nos protestos convocados por Alexei Navalny, há quem avalie como positiva a atuação de Putin nas relações com os Estados Unidos, mas questione, por exemplo, a perseguição aos homossexuais em determinadas regiões do país. Outros são a favor do fortalecimento do papel do Estado na economia, mas entendem que deve haver mais mecanismos de combate à corrupção.

A estudante brasileira Clarissa Levy acompanhou, como espectadora, a maior manifestação ocorrida este ano na Rússia. Navalny convocou seus seguidores a protestar contra Putin no dia em que o presidente tomaria posse pela quarta vez como presidente. "Era o principal opositor convocando, muitas pautas polêmicas reunidas, a Rússia é um país gigante, mas mesmo assim o protesto não tinha mais que 20 mil pessoas", lembra.

Manifestações esvaziadas

Uma pesquisa de maio deste ano do Instituto Levada perguntou se os entrevistados participariam de protestos contra o governo para exigir melhor qualidade de vida, e 86% responderam que provavelmente não iriam. Se os protestos fossem em relação a demandas políticas, 88% não participariam. Esse número se mantém estável desde 2010, ano em que o instituto começou a fazer esse tipo de levantamento. Apenas 4% dos entrevistados souberam, através de mídias locais, que ocorreram manifestações em suas regiões. O número de pessoas que souberam da realização de protestos através das redes sociais, algo comum no Brasil, é de apenas 2% de acordo com a pesquisa.

No protesto testemunhado pela estudante brasileira, realizado no primeiro domingo de maio, 1,6 mil pessoas foram presas. "Era um protesto tranquilo comparado com os do Brasil, mas a polícia simplesmente olhava para algumas pessoas no meio da multidão e os levava presos". Na Rússia, manifestações só podem ocorrer com a autorização da polícia. Navalny foi um dos detidos. Liberado no dia seguinte, ele foi processado por organizar uma manifestação sem autorização.

Não é a primeira vez que Alexei Navalny é processado. Ele foi impedido de disputar a eleição presidencial deste ano por uma condenação por desvio de dinheiro de uma empresa pública de exploração florestal em 2013, enquanto era consultor do governo regional de Kirov, a 956 km de Moscou.

A Comissão Central Eleitoral russa foi unânime ao rejeitar a candidatura de Navalny à presidência. O opositor classificou a decisão como "retribuição política" e pediu um boicote da população ao processo eleitoral que resultou na reeleição de Putin. A comparecimento às urnas foi de 67,7%. Na Rússia, o voto não é obrigatório.

A mídia estadunidense logo partiu para o ataque, afirmando que a impossibilidade de Navalny disputar eleições coloca em xeque a democracia russa. "Ninguém gosta que outros interfiram nas relações políticas do seu próprio país", defendeu Putin, em um pronunciamento a jornalistas logo após o anúncio da impugnação de Navalny para a disputa das eleições. "Nós percebemos a reação agressiva deles mesmo tendo acesso a informações imprecisas. (…) Eles não gostam que ninguém interfira nos negócios deles, mas ficam felizes em se intrometerem nos dos outros", completou.

A desinformação da população russa sobre possíveis protestos e a segurança reforçada no entorno dos estádios dão a entender que, se houver manifestações contra o governo na abertura da Copa, será de grupos minoritários ou longe dos holofotes.

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