23/09/2016 08h00

Crônicas de uma Alma Solta

O que queremos mesmo da Educação Brasileira nesse tempo Temeroso?


Por Luiz Peixoto

"A arte existe para que a verdade não nos destrua"
Nietzsche

Eu sou professor! Assim me identificam. Assim me chamam nas ruas da cidade. Não tenho mais nome próprio, passei a ser identificado pela minha profissão. Ser professor é sim profissão, mesmo que uns ainda achem que é vocação. Todo professor é um profissional em educação.

E como tal estou pasmo, perplexo, com as notícias da reforma educação do (des)governo Temer. Pus-me a pensar em qual é a intenção mesmo dessa medida provisória. Acredito sim que uma reforma do Ensino no Brasil seja necessária, e ela está em curso com o Plano Nacional de Educação, com os Planos Estaduais e os Planos Municipais. O ministro da educação, Mendonça Filho, por ser administrador de formação, talvez não os conheça ou ainda não entenda mesmo o que os especialistas em educação de diversas áreas escreveram, de forma coletiva e debatida, no Plano Nacional. Uma pena. Talvez se tivéssemos um professor ou professora no gabinete, fosse diferente.

Quando começaram a circular as primeiras notícias da reforma, feita de forma autoritária, sem ouvir os envolvidos, e sem levar em conta o que já foi construído, ouvi muitos dizerem que eram boatos dos petistas revoltados. Agora se configura!

Faço minhas aqui as palavras do roqueiro Tico santa Cruz, compartilhado na Rede Social Facebook: "Qual o objetivo por trás da retirada de artes, sociologia, filosofia do currículo das escolas no ensino médio? Simples: tirar o senso crítico e a capacidade dos alunos de pensar a sociedade, a própria educação, a política e a cidadania. "

Seguindo ainda as ideias do Tico e complementando, afinal as Artes estimulam a imaginação e a criatividade. Para que queremos jovens com imaginação e criativos? Se imaginarem podem combater o sonho padronizado de uma sociedade de consumo e de efemeridade. Melhor lhes entregar tudo formatado e padronizado.

Já a Sociologia ensina os jovens a pensar e entender as relações sociais, políticas, religiosas e econômicas em uma sociedade multifacetada. Contextualizar causas e efeitos de acontecimentos históricos, buscar alternativas para relações de todos os tipos presentes na sociedade.

A Filosofia apresenta ao aluno e à aluna os mais diversos tipos de manifestações do pensamento humano. São séculos de abordagens de todas as linhas. Oferece ao indivíduo a possibilidade de ver a existência humana por diversos ângulos. Entrega ferramentas para o desenvolvimento de uma percepção mais profunda do passado, presente para se construir o futuro. Oferece conhecimentos de ética, tão rara hoje em dia, de estética, de civilidade, de prazer e assim por diante. Temas que incomodam que assume o poder de forma ilegítima.

Vejo-me de volta há mais de 40 anos na história do Brasil. Estou assustado com o retrocesso de tudo o que fizemos e construímos. Jogaram no lixo todo o acúmulo pedagógico. E mais pasmo ainda vejo que professores poderão ser convocados sem formação especifica na área. Fiquei imaginando-me dando uma aula de química... nem queiram ver!

Em tempos temerosos, de debate de escola sem partido (mas de um partido único), de debate do fim de toda discussão de gênero e sexualidade em sala de aula, achei que nada mais me surpreenderia. Estava enganado. O que estão fazendo é uma tentativa descarada de criar uma geração de jovens que apenas reproduzirão conteúdos, sem senso crítico algum. Não querem pensadores e pensadoras, querem reprodutores de ideias, autômatos, que não questionarão nada!

Protesto aqui veementemente contra essa MP, contra essa ação retrógada e conservadora. E espero mesmo que muitos professores também se manifestem. O aumento da carga horária é uma coisa boa, se for bem estudado, afinal com a carga de hoje, o índice de evasão dos jovens trabalhadores já é alto, com uma carga horária de 7h aula por dia, implica na impossibilidade de trabalhadores cursarem o ensino médio. Mas uma vez na história deixaremos que os filhos das elites pensem esse país?

Eu quero, e tenho construído, uma educação libertadora, emancipadora, que permita aos jovens pensarem, elaborarem possibilidades de vida e de futuro, disso não abrirei mão. E alguns idiotas que falam que as escolas fazem doutrinação marxista, deveriam estudar Marx e entender que se fizéssemos os estudantes saberiam o que é mais-valia, o que é exploração da mão-de-obra, o que é alienação. Não teríamos uma geração tão confusa ideologicamente. Ou não fazemos, ou somos tão ruins como profissionais que não damos conta.

E cuidado! Depois da arte, da educação física, da filosofia e da sociologia, virão cortes em história, em geografia. Afinal a tendência percebida é de uma educação tecnicista e a serviço do mercado e não da formação de cidadãos e cidadãs. Reajamos!

O autor é filósofo e escreve semanalmente nesta coluna

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