15/08/2012 15h01 - Atualizado em 15/08/2012 15h01

Continuamos desiguais

 
  • Artigo de Marcus Eduardo de Oliveira
 
Marcus Eduardo de Oliveira é especialista em Política Internacional
(Universidad de La Habana - Cuba) Foto: Arquivo pessoal.
Marcus Eduardo de Oliveira é especialista em Política Internacional
(Universidad de La Habana - Cuba) Foto: Arquivo pessoal.

O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é uma medida resumida para avaliar o progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão decente de vida. Medido pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o (IDH) do Brasil avançou de 0,715 em 2010 para 0,718 em 2011, e fez o país subir uma posição no ranking global do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH).

Dessa forma, o Brasil permanece no grupo dos países considerados como de (ADH) Alto Desenvolvimento Humano. A série histórica do (IDH) para o Brasil revela uma retrospectiva positiva também a médio e a longo prazos. Entre 1980 e 2011, o valor do IDH subiu 31%, saltando de 0,549 para 0,718. Este desempenho foi puxado pelo aumento na expectativa de vida no país (11 anos no período), pela melhora na média de anos de escolaridade (4,6 anos a mais) e pelo crescimento também da Renda Nacional Bruta (RNB) per capita (quase 40% entre 1980 e 2011).

Pois bem. Diante desses dados uma questão se impõe como pertinente: o crescimento econômico em si não resolve a questão da desigualdade social. Crescer economicamente não significa (e nunca significou) que a vida das pessoas mais necessitadas irá melhorar, embora seja o crescimento da economia um fator benéfico no conjunto das opções a favor da busca de bem-estar. Lembremos, nesse pormenor, que de 1870 a 1980, o PIB brasileiro cresceu mais de 150 vezes; no entanto, nesse mesmo período de tempo, excluídos os contratempos e sobressaltos políticos e econômicos, a vida dos brasileiros, em termos de melhoria substancial na qualidade de vida, não acompanhou esse forte crescimento do produto.

Ademais, ainda que a renda per capita dos brasileiros mais pobres, de 2000 a 2008, tenha crescido mais de 70%, o IDH, na verdade nos revela a incômoda posição de sermos muito desiguais, o que ressalta, grosso modo, a relação conflituosa entre os campos econômico e social, contribuindo para a latente desigualdade histórica da economia brasileira.

Contudo, cabe a pergunta: Por que somos desiguais? Somos desiguais basicamente pela deficiência de ajustar o crescimento da economia em termos de distribuição equitativa da renda, e de nos negarmos a enfrentar o desafio de conjugar mercado e virtudes civis, visando construir uma economia com eficiência, de característica tipicamente solidária. Somos desiguais, pois não aproveitamos a potencialidade econômica de um país dono da quinta maior extensão territorial do mundo em favor de um programa de produção de alimentos para o consumo doméstico; ao contrário: preferimos a exportação de alimentos e vitaminas. Continuamos desiguais, pois não criamos ainda uma cultura de subordinar a economia aos objetivos sociais. Somos desiguais em mais de 500 anos de história econômica e política, pois nossas políticas econômicas são “desenhadas” apenas para fazer a riqueza subir, e não para eliminar os focos de pobreza.

É por isso que ainda somos um país paradoxal: um país rico com uma triste e dramática pobreza vinculada a um elevado grau de desigualdade. O IDH apenas reforça esse nosso lado paradoxal quando nos aponta como sendo uma nação de Alto Desenvolvimento Humano. Ora, definitivamente, só vamos diminuir essa desigualdade e eliminar os focos de pobreza quando a economia for direcionada para produzir aquilo tudo que elimina o estado de pobreza, ou seja, escola pública de qualidade, saúde pública confiável, saneamento básico, água potável, cultivar a terra e eliminar o latifúndio, coletar o lixo das ruas, e permitir com que cada brasileiro carente tenha possibilidade de comprar arroz, feijão e o bife para o fim de semana. Quando isso acontecer, aí sim poderemos nos considerar um país de Alto Desenvolvimento Humano.

  • Marcus Eduardo de Oliveira é especialista em Política Internacional (Universidad de La Habana - Cuba)

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