18/04/2017 13h07

Crônicas de uma Alma Solta

Mudar é difícil, mas é necessário


Por Luiz Peixoto

"Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião..."
(Raul Seixas)

 

Essa semana, andando na rua para encaminhar questões práticas, uma pessoa conhecida me parou para cumprimentar, coisa eu gosto muito, e me disse a frase "Nossa, como o senhor mudou, nem fala mais de polêmicas, nem discute mais com a gente os temas do dia a dia, nas redes sociais". Confesso que fiquei meio que sem resposta. Primeiro porque o senhor não se aplica a mim. Por mais que tenhamos formulado culturalmente que o uso do senhor denota respeito, discordo por princípio. Tem pessoas que me chamam de você ou pelo meu nome e sei que me respeitam, tem pessoas que me chamam pelo título de senhor ou de professor e não sei se me respeitam. Respeito não vem de uma denominação, mas sim de um conjunto de atitudes, de ações concretas. Segundo, eu mudei mesmo, aliás, eu mudo todo tempo. Não sou poste para ser estático, sou humano (ou tento ser) e aprendo coisas novas o tempo todo, e a aprendizagem deve, necessariamente, levar à mudanças de atitudes e de posturas. De fato, não me envolvi mais em embates públicos sobre temas da conjuntura, creio que tenho aprendido e mudado, deixo os temas para minhas aulas de tópicos especiais em política na universidade. Quem quiser participar dos debates, sinta-se convidado, afinal a UEMS é universidade pública, aberta a comunidade, só não pode ir para a aula sem ter lido os textos, sem ter fundamentado o discurso em teóricos relevantes e, pasmem, eles não têm redes sociais, não postam textos no facebook.

Ao longo da minha vida eu mudei muito. Já fui ligado à igreja católica, articulando a juventude, hoje não participo de nenhuma igreja, mantenho a fé, mas não a atuação eclesial. Já fui militante partidário, hoje não sou, me desliguei, mantenho a postura ética e a consciência de classe, mas perdi a disposição para os embates internos que, na minha avaliação, não contribuem para o fortalecimento da luta popular. Já fui festeiro, baladeiro, não sou mais, não curto a barulheira da noite, mantenho a alegria aprendida, mas prefiro meus livros e meus filmes para me divertir, virei um cara caseiro.

Mudei atitudes, mantive o que chamo de valores. Esses são imutáveis, é o que me torna o que sou, é o que me define. Valores são inegociáveis, imutáveis. Pois são a base daquilo que me forma. Ao longo da vida tive diversos embates em torno dos meus valores, e ainda terei. Acredito piamente em debater aquilo que me incomoda, em colocar as questões à mesa, de forma honesta, olho no olho. Em uma sociedade acostumada a maquiar discursos, isso incomoda, mas sinceramente, prefiro incomodar que passar por mais um no jogo da vida.

E eu estou mudando de novo. Dessa vez de cidade. Depois de 4 anos de Amambai, preciso de novos ares, preciso tirar minha mãe do conjunto de lembranças que 48 anos de convivência com pai acumulou. Libertar a memória e refazer a história sempre é dolorido, porém dessa vez é ação necessária.

Amambai será sempre minha terra, meu chão, o lugar onde meu cordão umbilical está enterrado. Voltarei toda semana. Mão não terei mais atuação direta na cidade. Afinal, como dizia uma pichação antiga aqui na cidade "fazer opção é sempre deixar algo de lado", e eu estou optando pela saúde física e mental da minha mãe, e minha também. Os amigos feitos nesse tempo, ficarão sempre pertos da memória, afinal o que a memória amou, fica eterno. Quem sabe um dia volto. Nunca fui poste, nunca fui fixo, e a vida é um rio que corre, sempre em frente, sempre vencendo limites e rompendo limites, rumo ao mar, ao oceano que se chama liberdade. Seguimos!!!


 

O autor é filósofo e escreve semanalmente nesta coluna

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