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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cultura e Fronteira – Identidade Histórica

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21/08/2011 11h24 – Atualizado em 21/08/2011 11h24

Na fronteira de MS com a Bolívia e o Paraguai, uma cultura múltipla e vigorosa revela séculos de história e integração. Nela se fundem línguas, valores, crenças e costumes que se sobrepõem a quaisquer conflitos inerentes às regiões fronteiriças.

Fábio Pellegrini / Revista Cultura em MS

“Si a ti te gusta, a mi me encanta!” Com este bordão, o locutor ponta-poranense Luís de La Puente atende às solicitações dos ouvintes de seu programa dominical Música & Sabor na rádio Amambay FM, sediada em Pedro Juan Caballero, município paraguaio vizinho ao sul-mato-grossense Ponta Porã. No programa, Luís se comunica em três idiomas: português, espanhol e guarani – estas últimas, línguas oficiais dos vizinhos- irmãos paraguaios –, compartilhando uma programação rica em guarânias, polcas paraguaias e chamamés, além de receitas de pratos típicos da região, como mondongo, bori bori, chipa guasú e, as mais populares, chipa e sopa paraguaia.

Enquanto isso, na mesma manhã de agosto, na terra natal de Ney Matogrosso, Bela Vista, o paraguaio Leonardo Baez, residente no município, recebe os amigos Gustavito (paraguaio da cidade vizinha de Bella Vista Norte) e Leopoldo (brasileiro, residente em Miranda) em sua casa, onde mantém uma oficina de artesanato em couro há 50 anos, para juntos, cada um com seu instrumento, tocarem e cantarem músicas que relembram seus passados.

No mesmo horário, em Campo Grande, Marco Antonio Gandarillas, boliviano nascido em Santa Cruz de La Sierra, prepara-se para mais uma apresentação de danças na Praça Bolívia. Ele e mais 11 pessoas formam o grupo de danças folclóricas T’ikay (“florescer” na língua quéchua). Com trajes multicoloridos, o grupo, criado em 2009 por imigrantes e descendentes moradores de Campo Grande, realiza apresentações das danças cueca, huayño, taquirari, tinkus, tobas, llamerada e caporales todo segundo domingo de cada mês.

Une-se ao T’ikay o grupo musical Masis Brasil – criado pelos brasileiros Miska e Heitor Correa Lopes e pelo boliviano Edgar Mancilla. Juntos, em ato de integração voluntária e sem fins lucrativos, promovem a integração dos povos Colla e Camba com os sul-mato-grossenses, de forma a resgatar suas riquezas
culturais e difundi-las. No local, o público pode também deliciar-se com salteñas e empanadas e comprar artesanato regional.

No Mercado Municipal de Campo Grande , o comerciante Jaime Negreti, de 69 anos, filho de bolivianos, nascido em Corumbá, mantém uma banca de produtos alimentícios – como guaraná ralado e licor de pequi – e lembranças típicas dos países vizinhos – como bolsas de lã de carneiro, alpaca e lhama –, além de chapéus, cintos, faixas, bolsas, botinas e bombas de tereré.

Esses personagens, reais, integram um universo estimado em pouco mais de 1,1 milhão de pessoas que vivem na faixa de fronteira entre Mato Grosso do Sul, Bolívia e Paraguai, segundo dados preliminares do Censo 2010. Do lado brasileiro, a oeste, apenas o município de Corumbá faz divisa com a Bolívia, enquanto outros 11 municípios, ao sul, fazem divisa com cidades paraguaias. Há ainda 32 municípios sul-matogrossenses que, apesar de não estarem fisicamente ligados aos vizinhos estrangeiros, integram tal faixa. Campo Grande não pertence a essa faixa, mas recebe suas influências, através de franjas demográficas.

Dados do Zoneamento Ecológico-Econômico do estado de Mato Grosso do Sul indicam 1.520,3 km de fronteiras internacionais em seu território. Com o Paraguai, são 1.128 km, sendo 432,5 km secos; enquanto que a Bolívia é lindeira de Mato Grosso do Sul em 392,5 km no total, dos quais pouco mais de 74% em terra. Nessa área ocorrem as conurbações internacionais, ou cidades-gêmeas, cujos limites geográficos se fundem, fazendo com que seus habitantes tenham como palco de seu cotidiano um espaço comum, o que aumenta a relação comercial entre as partes envolvidas e facilita a passagem de pessoas e produtos.É o que ocorre em Mundo Novo e Salto Del Guaira, Sete Quedas e o município homônimo paraguaio, Paranhos e Ypehu, Coronel Sapucaia e Capitán Bado, Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, Bela Vista e Bella Vista Norte, Porto Murtinho e Carmelo Peralta, Corumbá e Puerto Suarez.

De acordo com a pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Aparecida Negri Isquerdo, parte dos 78 municípios do estado tem em seus topônimos aspectos da influência de contatos interétnicos, como Laguna Carapã e Naviraí, dentre outros. Percebe-se, então, que em toda essa extensa área e ainda mais adentro das terras brasileiras, há uma intrigante e fantástica fusão de elementos culturais. Mas o que, afinal, torna a fronteira sul-mato-grossense diferente das demais?

Segundo o arqueólogo Gilson Rodolfo Martins, do Museu de Arqueologia da UFMS, o português Aleixo Garcia foi o primeiro homem branco a pisar em terras hoje pertencentes ao território sul-mato-grossense, por volta de 1524, movido pela ganância em encontrar o Eldorado do novo continente. Em companhia de outros três europeus e cerca de três mil indígenas da costa catarinense, Garcia atingiu as fronteiras orientais do Império Inca através de rotas milenares de intercâmbio utilizadas pelos nativos latino-americanos, os chamados peabirus. “Pode-se afirmar que ele foi fundamental no processo de ocupação do atual território sul-mato-grossense”, enfatiza Gilson.

Após o precursor, vieram muitos outros que encontraram centenas de milhares de índios portadores de sistemas culturais ricamente diferenciados. Isso fez com que a área fosse apontada como estratégica no contexto econômico do sistema colonial, apesar da longínqua distância dos centros mercantilistas na América do Sul, pois oferecia uma mercadoria vital para o funcionamento desse modelo: a mão-de-obra compulsória, chamada de encomienda, que consistia no aprisionamento de indígenas para aplicação em serviços pesados sob sistema escravagista.

Desde então, o território era disputado por espanhóis, a oeste, que já fundavam vilas e cidades ao longo da bacia hidrográfica do Prata, como Buenos Aires (1536), na Argentina, e Asunción (1537), no Paraguai. No século seguinte, os bandeirantes luso-brasileiros realizaram as mesmas investidas a leste, visando a mão-de-obra indígena e a descoberta de metais preciosos e diamantes. Nesse ínterim, jesuítas espanhóis fundavam vilarejos chamados “reduções jesuíticas”, como Itatim, ao sul da Província de Matto Grosso, e Santiago de Xerez, a sudoeste, às margens do rio Aquidauana, destruídas pelas bandeiras do Brasil colonial, pondo fim a um possível domínio hispânico no território.

Após o início do ciclo do ouro em Cuiabá, a partir de 1719, ocorreu a instalação de fortes, colônias e destacamentos militares por parte do Império Brasileiro, no sentido de demarcar território. O fato intensificou as disputas territoriais com a República do Paraguai, entre as quais destaca-se a Guerra da Tríplice Aliança, entre 1864 e 1870 (chamada pelos brasileiros de “Guerra do Paraguai” e pelos paraguaios de “Grande Guerra”).

Com a bancarrota do Paraguai, que teve sua população masculina exterminada quase em sua totalidade, grande contingente daquele país instalou-se no sul do Mato Grosso uno buscando oportunidades e segurança. Vieram então o ciclo da erva-mate, a navegação do rio Paraguai, a indústria do charque e a exportação de peles e plumas de animais silvestres e de madeira, o que consequentemente desenvolveu núcleos populacionais que mais tarde tornaram-se as cidades de Ponta Porã, Bela Vista e Porto Murtinho, além de incrementar a população de Corumbá, que já havia sido invadida pelos paraguaios na guerra e retomada pelos brasileiros.

Tais acontecimentos tiveram papel fundamental no dinamismo econômico e na integração regional, já que grande parte da mão de obra disponível na região era nativa do Paraguai. A Guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia, nos anos 1930, também exerceu influência no contexto demográfico, assim como a guerra civil de 1947, já que mais paraguaios migraram para estas bandas, fugidos de perseguições políticas e buscando estabilidade econômica. Em 1943 o governo brasileiro criou o Território Federal de Ponta Porã, formado por Porto Murtinho, Miranda, Nioaque, Bela Vista, Ponta Porã, Dourados, Maracaju, Bonito e a Colônia Agrícola de Dourados, visando garantir um local estratégico de fronteira e estimular o desenvolvimento com a colonização de vazios demográficos e a expansão de fronteiras agrícolas. Três anos mais tarde foi extinto por ter cumprido sua função estratégicomilitar.

Em 1956 o ramal ferroviário de Ponta Porã, ligado a Campo Grande, contribuiu imensamente para as políticas desenvolvimentistas da região. Contudo, este intrínseco e longo processo pelo qual passou o território do atual estado de Mato Grosso do Sul fez com que essa zona de litígio fronteiriço se transformasse numa área de confluência que, somando elementos nativos, estrangeiros e migrantes de outras regiões do Brasil, formou uma diversidade cultural fantástica e surpreendente, que conferiu uma identidade cultural sui generis à região.

Publicado originalmente em Dezembro/2010

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