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domingo, 14 de junho de 2026

Educação financeira não é só coisa de gente grande

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20/09/2011 11h03 – Atualizado em 20/09/2011 11h03

Brasil 247

“Você não sabe o valor do dinheiro”, diziam os pais da geração baby-boomer, em tom de severa censura, diante das incessantes demandas dos filhos por mais e mais brinquedos, doces e diversões. E muitas dessas crianças, da chamada geração X, tornaram-se adultos tateando na penumbra quando o assunto é finanças. Poucos foram educados em casa sobre o valor do dinheiro e o custo de realizar desejos. O cenário econômico de quem cresceu nos anos 80, com inflação galopante, desvalorização diária da moeda, especulação e até escassez de bens, foi totalmente desfavorável às intenções dessa geração de se educar no trato com seu dinheiro. Esse aprendizado foi conquistado tardiamente, a passos lentos. E a disciplina financeira é, em grande medida, mais recente ainda, um exercício diário.

Mas as crianças e adolescentes de hoje, da geração Y, têm a chance de reverter esse quadro desfavorável que perdura há décadas no Brasil. Plugados na internet, eles querem tudo: do último gadget às grifes mais quentes do momento, dos brinquedos mais modernos à viagem dos sonhos para a Disney. Pode parecer, aos pais, que a lista de prioridades desses meninos e meninas é simplesmente sem fim. Mas ambos têm em mãos uma ferramenta poderosa para administrar todos esses desejos: educação financeira. E ela pode ser tão simples quanto enviar seus filhos para se divertir num acampamento durante as férias escolares ou aproveitar as oportunidades — “Pai, compra, compra, compra! — para ensinar, desde cedo, o valor do dinheiro.

Para além dos números e dos livros, o aprendizado vivencial e familiar fica para a vida toda. Pesquisas mostram que crianças que aprendem a lidar com seus desejos de consumo e a administrar seu dinheirinho desde cedo estão mais propensas a se tornarem adultos disciplinados com suas finanças pessoais e mais preparados para investir no futuro, fazendo escolhas inteligentes e trocas vantajosas.

Ensinar através do aprendizado vivencial, de forma leve e divertida, é a proposta de Silvia Alambert, licenciadora oficial e diretora-executiva do programa The Money Camp no Brasil. A criação americana, que já beneficia crianças e jovens em dez países, foi “totalmente tropicalizada” por Silvia para se adaptar ao contexto das crianças brasileiras. O Money Camp pode ser levado a qualquer sala de aula e também conta com um acampamento em Atibaia, onde gincanas e jogos ao ar livre estimulam as crianças a pensar financeiramente, mas sem a complicação de fórmulas ou teorias que elas não podem compreender. Aliás, não há ensino teórico e nem livros na metodologia do Money Camp. “Não dá para abrir uma fórmula de juros compostos para uma criança, mas ela aprende através de dinâmicas e brincadeiras”, diz Silvia. “Há um único livro de atividades que a criança pode abrir, em casa, para recordar o que aprendeu, mas só se ela tiver vontade”, acrescenta a diretora do Money Camp, assinalando que, geralmente, as próprias situações que se apresentam posteriormente, no dia-a-dia normal das crianças, acabam trazendo à tona as memórias e lições do aprendizado vivencial que tiveram.

Segundo Silvia, geralmente as crianças chegam meio desconfiadas ao acampamento quando se fala em educação financeira. “Elas acham que vão ficar trancafiadas”, brinca a educadora. “Mas quebra-se o gelo já dentro do ônibus, quando as crianças recebem um dinheiro de mentirinha”, conta Silvia. O dinheiro serve para as crianças se manterem no acampamento.

A metodologia inovadora do Money Camp, vivencial e lúdica, foi o que mais estimulou Silvia a licenciar o programa por aqui. Em meio a seus pares, sem os pais por perto e com muita diversão, as crianças brincam de ser investidores, empreendedores, aprendem o valor do dinheiro e até os juros compostos do cartão de crédito. “Elas chegam ao acampamento achando que o cartão de crédito é simplesmente um cartão mágico, porque a mãe entra na loja com o cartão e sai com um monte de compras”, comenta Silvia, bem-humorada.

A interação com as crianças rende à educadora vários momentos engraçados e de satisfação pessoal ao ver que as crianças realmente voltam para casa diferentes. “Teve uma mãe que veio me contar que tomou bronca do filho porque estava usando o cartão de crédito sem ter pago a fatura integral”, relembra Silvia. “É um aprendizado pela brincadeira e não pela dor, como foi com a geração anterior”, salienta, referindo-se aos brasileiros endividados que só começaram a aprender como equilibrar suas finanças pessoais depois de ter ficado sem crédito, nas listas de mau pagadores.

“As pessoas acham que educação financeira é só falar de investimento e dinheiro”, comenta Silvia. “Na verdade, é bem mais que isso, diz respeito à maneira como as pessoas se comportam com o dinheiro e isso envolve todos os hábitos e crenças adquiridos ao longo da vida”, ressalta a educadora e membro da International Association for Citizenship, Social & Economics Education, com sede na Inlgaterra. Formada em secretariado bilíngue, Silvia se dedicava à área de treinamento e desenvolvimento empresarial e ao ensino de inglês antes de ir aos Estados Unidos para conhecer a criadora do Money Camp, Elisabeth Donati, e, assim, poder trazer o inovador programa ao Brasil.

Desde 2007, mais de 2.200 crianças já passaram pelo acampamento e cerca de mil vivenciaram o programa inovador em sala de aula. Duas escolas incorporaram a metologia lúdica do Money Camp ao seu currículo, entre elas o Colégio Castelo Branco, na capital paulista.

São números pouco representativos para um país das dimensões continentais do Brasil — mais ainda considerando-se o fato de que, até recentemente, não se aprendia educação financeira nas escolas públicas e nem nas particulares, com raras exceções. Segundo Silvia, vários fatores alimentam essa realidade, entre eles o atraso da própria escola brasileira e também um certo preconceito com a idéia de ensinar nossas crianças a terem inteligência financeira desde cedo. “Por incrível que pareça, algumas pessoas temem que os filhos se tornem pessoas ganaciosas”, comenta a diretora-executiva do Money Camp, assinalando que este tipo de temor não poderia ser mais injustificado, já que vivemos na era da informação. “A geração do século 21 quer coisas consistentes com a vida deles, porque eles têm toda a informação disponível, enquanto que a escola está no século 19”, critica a educadora.

Neste sentido, o projeto-piloto de educação financeira do Ministério da Educação, em andamento em mais de 900 escolas, já é um passo adiante. Mas a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) é direcionada, pelo menos por enquanto, apenas ao ensino médio. A iniciativa de incluir as crianças, continua sendo, portanto, uma prerrogativa dos pais.

Mas como educá-los? “Educação financeira se faz o tempo todo”, indica Silvia. “Nossos filhos são ótimos vendedores, nos convencem a comprar tudo”, brinca a educadora. “São nesses momentos que os pais devem aproveitar a oportunidade e iniciar uma outra conversa, que desperte o interesse da criança”, orienta. Algumas boas estratégias são fazê-la pensar em algo melhor ou oferecer escolhas atraentes. Veja mais dicas da diretora-executiva do Money Camp, especialmente para “Seu Dinheiro”, no texto abaixo. “Os melhores modelos estão dentro de casa”, diz Silvia. “Seria muito importante que os pais conversassem com os filhos sobre dinheiro, poupar e investir, porque a escola, sozinha, não consegue”, assinala a educadora. “O ideal seria que houvesse um trabalho conjunto entre pais, educadores e crianças”, conclui.

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