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sábado, 22 de agosto de 2026

Ana Moser: “O Brasil ainda não é um país olímpico”

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16/10/2011 07h30 – Atualizado em 16/10/2011 07h30

Brasil 247

De perto, ela parece bem menor do que na tevê, mas mesmo assim é uma gigante. Lá de cima, quer dizer, do alto dos seus um metro e oitenta e tantos centímetros, a ex-jogadora de volêi da seleção brasileira Ana Moser faz o estilo atleta mesmo depois de ter deixado as quadras. Ela é objetiva, sucinta, focada em metas e resultados. Sem muita frescura, Ana vai direto ao ponto e fala sem rodeios sobre quase tudo: vida de atleta, Olimpíadas no Brasil, relação com o técnico Bernardinho, dores, passado, presente e futuro.

De passagem em Salvador para gerir projetos sociais em parceria com a Petrobras, ela declara amor pela Bahia, mas diz temer a violência. A ex-atacante também não se preocupa em criticar a ausência de uma política bem estruturada de Esportes no país, apesar de admitir ter assistido a muitas melhorias nas últimas décadas. Não perca a viagem e confira abaixo a entrevista que ela concedeu em visita à redação do Bahia 247:

Bahia 247 – Do que você sente mais falta nas quadras?
Ana Moser – O que eu sinto mais falta é a rotina de prática física. O restante eu já vivi bastante: competição, rotina… Aproveito bastante em minhas outras atividades, carrego uma história que me ajuda a abrir portas, as pessoas param para ouvir, então, eu sou muito bem resolvida quanto a estar longe das quadras. Mas, poder ter tempo para fazer atividade física, eu sinto muita falta.

Bahia 247 – Você se preparou psicologicamente pra parar de jogar?
AM – Acho que isso é coisa de formação. Eu sempre tive a consciência, meus pais me educaram assim: de ter discernimento das coisas, de saber o que é real, ter o pé no chão. Na verdade, sempre soube que isso era uma fase, que ia acabar um dia, sempre tive meu olhar voltado para as outras coisas da vida: especialmente estudo e formação. Enquanto jogava não tinha tempo, nem de estudar, até cheguei a fazer dois anos de administração, mas não deu pra conciliar porque a gente passava o ano letivo com a seleção, era difícil e é um erro não priorizar o outro lado. O atleta para e não está preparado para a vida! Eu parei com 31 anos porque o joelho pifou.

Bahia 247 – Você passou por diversas cirurgias no joelho, chegou a jogar sentindo dores?
AM – Bastante, especialmente nos últimos cinco anos. Eu tomava 100mg de antiiflamatório por dia, todos os dias durante cinco anos.

Bahia 247 – O que leva o atleta a se sacrificar dessa maneira?
AM – É difícil. Primeiro que mesmo sentindo dores a gente tem condições de praticar o esporte, por isso que nos transformamos em atletas de alto nível. O atleta não tem pessoas normais como referência. Tem muito a coisa do até onde a gente pode ir, da superação, de querer continuar escrevendo a história, de não deixá-la inacabada. Na Olimpíada de 1996, por exemplo, eu tinha que continuar jogando, que encerrar aquela história. Mas, no fundo, a gente sabe que tá prejudicando uma ou outra parte: eu parei de jogar há quase doze anos e tenho cuidado para ter uma vida tranquila e não ter que fazer uma prótese de joelho, de quadril…

Bahia 247 – Hoje em dia você não joga vôlei nem de brincadeira?
AM – Não! Eu não posso nem correr, só posso fazer coisas na água, por isso aprendi a surfar. Não posso fazer nada demais que desgaste o joelho porque tenho artrose, então é um corpinho de 40 e um joelho de 70 (risos).

Bahia 247 – Você foi uma líder dentro das quadras. Sempre se posicionou assim ou isso foi surgindo com o tempo, pela sua personalidade?
AM – Isso não é uma coisa que se faz conscientemente. O esporte é interessante porque ele mostra realmente o que você é, em todos os níveis, até em pelada de final de semana você sabe quem é quem: o individualista, o que joga para o grupo… Eu sempre fui assim na escola, tive essa visão de liderança, de ter um pouco menos de ego, porque pra liderar se precisa disso. Aí fui…

AM – Queria falar um pouco da Caravana…

Bahia 247 – Então, vamos lá!

AM – Dia 19 de outubro teremos a Caravana do Programa Petrobras Esporte e Cidadania aqui em Salvador, no Hotel Fiesta, quando serão oferecidas oficinas gratuitas para as pessoas e instituições se informarem sobre a seleção pública de projetos de esporte educacional, que está aberta desde agosto deste ano e vai até março do ano que vem. Ainda há algumas vagas disponíveis. As instituições podem se preparar e formatar projetos, apresentar na lei de incentivo e se inscrever no edital e na seleção pública da Petrobras. Aí a Petrobras vai financiar projetos em todo o Brasil utilizando uma verba de até R$ 1,2 milhão por projeto, totalizando R$ 30 milhões de investimento nos próximos dois anos. O esporte educacional é diferente do esporte que eu pratiquei: ele tem como característica e objetivo educar e desenvolver, para isso o trabalho todo é realizado em cima da inclusão. As pessoas precisam entender que não é só timinho da escola, o grande diferencial é desenvolver a integração, a convivência entre os diferentes, integrar meninos e meninas.

Bahia 247 – Seu projeto funciona aqui na Bahia também, né?
AM – Nossa sede é em São Paulo, mas temos núcleos em vários estados, inclusive aqui na Bahia. Aqui, o projeto funciona por meio de uma aliança com a Universidade Federal do Recôncavo (UFRB) em sete municípios: Cruz das Almas, Cachoeira, São Félix, Santo Antônio de Jesus, Maragogipe, Muritiba e Governador Mangabeira. A gente tá transferindo tecnologia do IEE de 10 anos para a Universidade Federal e, junto com eles, vamos trabalhar durante dois anos com estes sete municípios.

Bahia 247 – O que te levou a querer trabalhar com a parte social do esporte, com o esporte educacional?
AM – Não sei! (risos) Comecei quando ainda estava jogando e os projetos foram crescendo. Vi muita desigualdade no Brasil e no exterior, e isso foi me chocando cada vez mais. A isso se somou o engajamento no Conselho Nacional do Esporte, do qual eu faço parte (do Ministério do Esporte).

Bahia 247 – As coisas mudaram muito desde que você começou no esporte?
AM – Sem dúvida, a coisa avançou muito! Antigamente quando eu comecei a relação com o ministério era ridícula, era só de ocasião: levavam a gente pra lá pra tirar foto, faziam um teatrinho, eram só falácias. Eles avançaram muito no futebol, Copa do Mundo, Olimpíada… Existem coisas andando.

Bahia 247 – O que falta avançar?
AM – Ainda não há políticas estruturadas, só programas. Só se faz política setorizada por meio de convênios, não se tem uma visão do todo.

Bahia 247 – E em outros países a coisa é mais evoluída? Em Cuba, por exemplo?
AM – Cuba sim, mas Cuba é uma ilha, é muito pequena. Existem referências de modelo italiano, inglês, francês, alemão…

Bahia 247 – E o dos países emergentes, nós estamos à frente?
AM – O Brasil está à frente em maturidade social.

Bahia 247 – Com a chegada de outros desportistas ao Congresso Nacional (como Romário e Popó), essa questão pode melhorar?
AM – Com certeza! Existem ainda poucos representantes. O secretário Nacional de Políticas Educacionais considerou “uma pena” que o Esporte para Todos não seja tema de interesse do Congresso, então, falta realmente quem defenda.

Bahia 247 – Você não tem vontade de se candidatar, de seguir na carreira política?
AM – Não. Acho que é muito amarrado, eu já pensei nisso, mas…

Bahia 247 – Muito amarrado como?
AM – Fora dos cargos públicos, eu tenho uma condição muito maior de atuação efetiva. Dá pra fazer a diferença, movimentar mais recursos, mobilizar mais pessoas. Quem sabe mais pra frente!

Bahia 247 – As broncas de Bernardinho (ex-técnico da seleção feminina de vôlei e atual técnico da masculina) já te fizeram chorar?
AM – Não! A gente não batia de frente, eu encontrei nele um cara muito companheiro, porque com ele eu me machuquei muito, então, eu tinha que ter um sistema especial de treinamento, não treinava como as outras: não que eu treinasse menos, mas eu treinava na água! Eu tinha no Bernardinho um cúmplice… Eu dizia: “Minha condição é essa, mas eu quero jogar”. Aí ele respondia: “Ok, então vamos ver o que dá pra fazer”! Esse era nosso acordo… Lógico que tinha vezes que ele baixava a orelha, porque tinha de baixar, como tinha vezes que eu falava e ele não gostava. Ele é um cara que tira o melhor das pessoas.

Bahia 247 – Você transportou muito dessa insistência para o trabalho social?
AM – Sim. Você vai, vai, vai e não tem limites, eu sou assim!

Bahia 247 – Você para às vezes, Ana (risos)?
AM – No final do ano eu paro! Eu fico um mês surfando todo dia!

Bahia 247 – Então não para…

(Risos coletivos)

Bahia 247 – Por que quando Bernardinho chegou à Seleção Masculina ganhou mais títulos importantes?
AM – Acho que é uma questão de geração. O vôlei feminino teve que se reconstruir, o Bernardinho mudou naquela época porque ele viu duas gerações passarem e no masculino viu duas gerações de ouro. Ele fez com os caras verdadeiras experiências de laboratório: no primeiro ano ele treinava às 9h, no segundo as 8h, no terceiro as 7h e no quarto ano as 6h da manhã. Tudo isso para tirar os caras da zona de conforto. Ele tira o máximo das pessoas. O José Roberto Guimarães (técnico da Seleção Feminina de Vôlei) já é mais humano. Na verdade, são estilos diferentes, mas o feminino também tem evoluído bastante, em técnica, em estrutura.

Bahia 247 – Há uma escassez de técnicos no mercado brasileiro?
AM – O vôlei é o segundo esporte do Brasil, mas ele movimenta no alto nível, umas 500 pessoas no país, é um mundinho perto do futebol. Tem pouco campo de trabalho, porque são poucos lugares, tem pouca gente atuando. Mas, o Brasil é feito de superação, construíram um vôlei muito organizado, em alguns lugares a coisa desenvolveu, em outros não!

Bahia 247 – Parece que há mais investimento no vôlei atualmente, isso é verdade?
AM – O Brasil tem crescido na economia de uma maneira geral, então isso se reflete no vôlei também. Na minha época, o que eu ganhava em dólar, hoje equivale a cinco vezes mais. Mas ainda há muito a melhorar.

Bahia 247 – Qual o Brasil dos seus sonhos?
AM – (Risos) Aff! Vou dar uma resposta de miss a essa pergunta: “a paz mundial”. (Mais risos). Acho que um Brasil com menos desigualdades regionais. Mais desenvolvimento aqui pro Nordeste e pro Norte, através do esporte também. Daqui a uns dez, quinze anos de trabalho intenso a gente consegue.

Bahia 247 – Você ganhou a medalha de bronze nas Olimpíadas de Atlanta em 1996. Não ter ganhado o ouro não te frustrou?
AM – Acho que seria bom demais ter ganhado o ouro, porque ouro é o máximo e ponto final! Mas, pra minha história e pra aquele momento, não teve a mínima frustração, muito pelo contrário – eu tenho é muita alegria! Quando me perguntam qual foi a minha maior conquista, eu respondo: foi a medalha de bronze!

Bahia 247 – O Brasil está preparado para receber as Olimpíadas?
AM – Como país sede, sem dúvida! Acho que não vai ter problema, vão fazer direitinho! O pessoal tá muito profissionalizado e tem dinheiro pra caramba, não falta recurso. Mas o Brasil ainda não é um país Olímpico. Tem muita se gente movimentando pra que isso aconteça, mas não os governos.

Bahia 247 – Mas o que seria esse Brasil olímpico?
AM – Na associação Atletas pela Cidadania, da qual faço parte (junto a Kaká, Magic Paula, Hortência, Gustavo Borges, Joaquim Cruz e outros), a gente tem uma luta estabelecida: na nossa visão, até 2022 todas as escolas do Brasil têm que ter esporte educacional, e nós temos que ter o dobro da população praticando esporte. Esse é o caminho!

Ana Moser: "O Brasil ainda não é um país olímpico"

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