12/12/2011 18h17 – Atualizado em 12/12/2011 18h17
Festival do Folclore Toro Candil: “Vai ver é justamente da terra e do pisar forte nesse planalto é que ressurge a nossa cultura”
Por Viviane Viaut Moreira
Mais de 400 pessoas tiveram a oportunidade de assistir à apresentações esplendorosas de dança e de músicas, a maioria delas da cultura sul-mato-grossense.
Primeiro houve a Orquestra de Violas: 20 violeiros mostraram o melhor da música da cultura transfronteira, como a especialista em cultura popular, Marlei Sigrist, designa a cultura da região de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Gente daqui, com uma viola grudada no peito que dava gosto de ver.
Eu, a viola e Deus e Vide Vida Marvada, de Rolando Boldrin; Brasil Poeira, de Almir Sater e Renato Teixeira; Raízes, de Renato Teixeira; Invernada, de Guilherme Rondon; Chalana, de Mario Zan; Comitiva Esperança, de Paulinho Simões, e Caçador, de Carreirinho e Tião Carrero, foram as músicas interpretadas pelos violeiros.
Depois foi a vez do Pájaro Campana, orquestra de violões e harpas. Ah, Melissa, você é tudo de bom, fica aqui com a gente sempre. O grupo, acompanhado pelo professor Fábio, fez um Pot-pourri de músicas infantis, mas teve também Almir Sater (Tocando em Frente) e Grupo Acaba (Vazante Correntino), entre outras.
Teve também o harpista de Iguatemi, Isac Garcia, acompanhado por Fábio Arruda, do Pájaro Campana.
O Grupo da Dança Regional Infanto-Juvenil não fez menos grandioso que os músicos. Cerca de 15 pares bailaram no melhor estilo sul-mato-grossense o chamamé da Dança das Fitas, o xote inglês e o chupim. Gente pequena ainda, mas grande no desempenho.
Para finalizar, o ponto máximo da noite, o violonista paraguaio Juan Câncio Barreto e grupo. Há quem disse: “Eu ficaria aqui a noite toda ouvindo música como essa”. Eu também. Quem nunca sentiu o arrepio de se emocionar com uma música bonita como a de Juan Câncio Barreto, precisa ir a Assunção. É de lá que ele veio para nos brindar neste final de 2011.
A programação foi do 4º Encontro de Folclore Toro Candil. A iniciativa é da Associação Cultural Amambaiense. Sobraram emoções, transbordaram sentimentos.
Faltaram os representantes governamentais. Com exceção da presidente da Fundesc de Amambai, Jaqueline Casagrande, nenhum outro representante dos poderes executivo, legislativo e judiciário de Amambai se fez presente.
Quem esteve lá conferiu de perto como se faz um trabalho digno, sem apadrinhamento político, longe de interesses pessoais, perto do compromisso coletivo com a cultura.
A Associação é formada por voluntários. Uma equipe de Sanchos Panças liderados por um Dom Quixote de la Mancha que de insano tem somente sua determinação em fazer cultura numa terra de muito boi, muito pasto e muita soja. Vai ver é justamente da terra e do pisar forte dos animais e do homem do campo nesse planalto é que ressurge a nossa cultura. E vem com força, sem ervas daninhas, livre de pesticidas. Produzindo e multiplicando conceitos de um fazer cultura com integridade, sem vida fácil como estamos acostumando a ver em cada esquina uma nova dupla sertaneja.
Se fosse só pela programação da noite de sexta-feira (9), na AABB de Amambai, já estaríamos mais do que satisfeitos. Mas teve mais.
No sábado (10), sob o sol que a guavira precisa para desabrochar em flor e fruto, na chácara do seu Dorival Antunes Vieira, aconteceu a Sortija, uma festa que mistura competição esportiva e cultura. O objetivo da Associação foi o resgate dessa manifestação e a retomada dela para os dias atuais.
Para mostrar à geração atual, foi preciso das gerações anteriores. Eles estavam lá. “Os novos precisam saber como era antes”, explica “seu” Dorival com seu jeito simples, mas não menos inteligente. Os 20 cavaleiros presentes na Sortija, sob a benção de Nossa Senhora de Caacupé, se divertiram e encantaram os presentes.
Para ver de perto a Sortija, vieram a presidente da Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore e secretária MS da ONG Internacional de Folclore e Artes Populares (IOV), Marlei Sigrist, e a ex-superintendente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Margareth Ribas Lima. Jaqueline estava lá novamente.
Ufa! Não, não estamos sós. Ainda não estamos subjugados à cultura comercial que interessa apenas, e somente apenas, aos empresários e que atende unicamente a interesses financeiros. Há gente decidida a mostrar que o Mato Grosso do Sul tem mais do que do que boi, pasto e soja. Não, não é menosprezo, é apenas indignação que mais pessoas não se juntam nessa luta e façam dela uma batalha em prol da cultura transfronteira.
Para finalizar, as palavras de Marlei Sigrist: “Esse movimento reforça a identidade da fronteira, que é uma identidade híbrida; com esse bombardeio todo da cultura contemporânea a cultura mais artesanal fica de lado; o Encontro do Folclore Toro Candil reforça a identidade local, regional, transfronteira”.
E viva a fronteira do Brasil com Paraguai! Viva quem vive e valoriza essa cultura!
A autora é jornalista e professora em Amambai.
Veja fotos do Encontro do Folcore Toro Candil aqui e da Sortija aqui.






