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sábado, 25 de julho de 2026

Divisionismo: concepções sobre a construção de Mato Grosso do Sul

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10/10/2012 16h25 – Atualizado em 10/10/2012 16h25

Wilson Serejo *

Em 11 de outubro de 1977, o Presidente da República Ernesto Geisel aprovou o Decreto-Lei de número 31 que oficializava o desmembramento da porção sul do estado de Mato Grosso, gerando uma nova unidade federativa: o estado de Mato Grosso do Sul. O ideal divisionista que se evidenciava acerca de muitos anos – desde a década de 1930 no Governo Vargas – conseguiu sedimentar- se orquestrado entre divergências geopolíticas e econômicas.

Trinta e cinco anos após a divisão, muitos aspectos tornaram-se centro de abordagens e serviram de objeto para diversos estudos, vários temas foram visitados resultando em interessantes trabalhos em nível de mestrado e doutorado. No conjunto de pesquisas que se debruçam sobre a temática podemos encontrar análises de Marisa Bittar, Osvaldo Zorzato, Paulo Roberto Cimó Queiroz, Lylia Galetti, José Carlos Ziliani, Carlos Magno Mieres Amarilha, entre outros. Por essa razão é pertinente privilegiar algumas questões que estão longe do olhar do grande público, muitas vezes, distante de textos desse caráter.

Em síntese, no que se refere à divisão de Mato Grosso, entende-se que foi motivada por impasses agrários, comerciais e intelectuais entre as partes norte e sul do Estado. As manifestações que surgiram no antigo sul-de-matogrosso fomentaram os ideais separatistas, mais intensamente a partir da segunda metade do século XX que culminou com a divisão do estado, cuja porção meridional passou a ser denominada de Mato Grosso do Sul. Com isso, Campo Grande tornou-se a capital da nova unidade federativa por conta de sua projeção comercial e a sua ligação com grandes centros urbanos como a cidade de São Paulo. A partir de então, foi necessária a criação de simbologias para definir a identidade campo-grandense e também sul-mato-grossense. Entende-se que a congregação de vários elementos como o clima ameno, os córregos, as praças, as feiras, a culinária, possibilitou criar uma relação de peculiaridades para caracterizar os habitantes da capital.

Detentora de um agrupamento humano diversificado, Campo Grande se caracteriza como polo econômico do Estado que possui a segunda maior população indígena do país. No decorrer dos seus 113 anos de emancipação, é uma cidade que congregou distintos elementos culturais e formou um painel étnico, fruto da diversidade dos grupos sociais que moldaram sua paisagem. Essa característica rendeu-lhe, inclusive, a alcunha de Cidade Morena por conta da miscigenação entre seus habitantes.

O perfil populacional do município permitiu-lhe protagonizar um núcleo de debates voltados para a questão da pluralidade cultural e os reflexos dessa diversidade para a prática cidadã de seus habitantes. O historiador José Carlos Ziliani, ao estudar o processo de construção das identidades de Mato Grosso do Sul, ressaltou que o município de Campo Grande se identifica amplamente por congregar elementos que tentam reproduzir símbolos definidores de uma identidade para o sul-mato-grossense, sobretudo a partir do divisionismo efetivado em 1977, onde a necessidade de laços comuns entre os distintos povos passou a ser fator essencial para a consolidação do estado.

Nesse cotexto, compreende-se que as múltiplas culturas que desenham os logradouros, praças e avenidas da capital têm sido objeto de pesquisas acadêmicas que tentam compreender como se dá, em meio a uma grande diversidade étnica e social, a construção da cidadania e a formação de uma identidade para além dos limites territoriais do município. Posto isso, é preciso compreender, com maior profundidade, a dimensão que os símbolos delineados na capital influenciam a construção das bases de uma identidade desdobrada para o restante do Estado.

Campo Grande concentrou em sua trajetória características culturais que a tornaram centro hegemônico do sul do estado de Mato Grosso, mesmo antes da divisão deste. Contudo, é complexo definir uma identidade própria para o cidadão campo-grandense, pois, o município possui um aparato cultural diversificado, apontado por especialistas como um verdadeiro mosaico.

Mato Grosso do Sul, formado a partir da congregação de diversos estratos culturais, é caracterizado por não possuir uma identidade sólida, definida. Porém, em contraposição a esses argumentos, Ziliani alerta que Mato Grosso do Sul “tem uma história e, apesar de novo, possui uma tradição de pensamento sobre ele e um conjunto de imagens que o identificam.”

Ao analisar as obras de cunho literário e memorialístico, como também as abordagens historiográficas sobre o estado de Mato Grosso do Sul, é possível observar que mesmo antes da divisão a busca por imagens que representassem a região sul já era almejada por grupos políticos hegemônicos e seus representantes.

Segundo estudiosos, o conceito de região não está limitado ao seu aspecto físico, pois as fronteiras são simbolicamente construídas. Sendo assim, as fronteiras possuem caráter fluido, uma região só existe porque em algum lugar há outra região onde são estabelecidas novas simbologias. As representações acerca de determinado espaço social conduzem à construção de identidades específicas que, por sua vez, delimitam e conferem sentido à fronteira.

Mato Grosso do Sul teve que forjar suas relações de identidade em relação ao seu oposto: o estado de Mato Grosso. Para que efetivamente se constituísse uma identidade para a porção sul, foi preciso estabelecer diferenças em relação ao norte, uma vez que por meio de elementos simbólicos é possível caracterizar significados resultantes de um conjunto de representações individuais e coletivas.

Entre diversos fatores, Lylia Galetti afirma que a articulação das identidades mato-grossenses partiu da ação de intelectuais cuiabanos com a criação do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHG-MT), em 1919. Aos moldes do IHGB, pode-se inferir que a fundação do IHG-MT surgiu com o intento de designar símbolos que alicerçassem a construção de uma identidade mato-grossense. Diante desse quadro, a elite letrada de Cuiabá buscou sedimentar bases que propusessem símbolos e emblemas (como os hinos, as bandeiras e os brasões) destinados a representar a essência do seu povo.

Os intelectuais, denominados “homens das letras”, buscaram definir a “cuiabanidade” como denominador comum das culturas que estabeleciam o tecido social da cidade.

As obras literárias que elucidaram os modos de vida dos desbravadores da região ao criar heróis para representar uma tradição cultural, e que articularam histórias folclóricas para sua gente. Isso demonstra que as disputas territoriais entre o norte e o sul não se deram apenas por meio da força das armas, mas, sobretudo, pela ação das letras, da cultura elaborada.

O grande anseio de definir uma identidade para o sul ficou nítido quando se observa que um ano após o divisionismo foi criado o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHG-MS). Nesse instituto, fundado em 1978, os intelectuais sul-mato-grossenses produziram obras destinadas a contemplar os aspectos econômicos e culturais da nova unidade federativa.

José Carlos Ziliani aponta que a tentativa de criação de um alicerce identitário para Mato Grosso do Sul através dos trabalhos de intelectuais do IHG-MS e a importância exercida pela cidade de Campo Grande nesse contexto, são elementos importantes para que se compreenda a necessidade de criação de laços sólidos de identidade para legitimar a emancipação do estado e promover uma relação entre as diversas culturas existentes, ou até mesmo no sentido de enaltecer essa diversidade como uma característica peculiar. Por meio desse processo, cabe notar que Campo Grande ocupa lugar de espaço hegemônico na construção das identidades sul-mato-grossenses, porque passou a investir na produção local com a fundação de centros culturais destinados para esse fim específico como, por exemplo, a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Feitas essas considerações, é pertinente visualizar a percepção que os moradores da cidade de Campo Grande possuem acerca da identidade sul-mato-grossense para além das letras, isto é, analisar como as pessoas comuns pertencentes ao cotidiano assimilam ou até mesmo formulam sua maneira de identificar-se como Estado. Dessa forma, contemplar um espaço de debates em que vários cidadãos, apontem caminhos de construção identitária para os agentes sociais formadores do cenário urbano e rural é de extrema importância para compreender como a questão da identidade é tratada além dos centros intelectuais e órgãos destinados a desenvolver a cultura local e/ou regional.

A partir das expressões sociais e históricas dos diferentes grupos que habitam Campo Grande, é possível desvencilhar aspectos inerentes ao que se denomina de cidadão “campo-grandense”, com suas perspectivas próprias, seus anseios, suas maneiras de se relacionar e organizar a sociedade em que vivem em meio a diversidade de posturas e aspectos individuais de cada segmento. Em função da pluralidade cultural, o “mosaico” de elementos sociais depositados na sociedade carreiam frequentes debates acerca da identidade campo-grandense que, por sua vez, é discutida no seio de órgãos governamentais, organizações públicas, e por meio de variadas instituições que visam democratizar o espaço para a concretização da cidadania e a troca de elementos culturais que moldam a identidade local.

Por essas características, a cidade de Campo Grande torna-se um local privilegiado para o estudo sobre o exercício da cidadania, a inclusão social e a alteridade, pois as diferentes constituições étnicas e, por conseguinte, diferentes culturas, estão cotidianamente relacionando-se nas igrejas, nos clubes, nas praças, nas feiras, nos comércios, entre outros locais. Nesse contexto, as instituições educacionais são de extrema importância, pois apresentam relações culturais distintas que desafiam o convívio harmonioso até mesmo das crianças, uma vez que é na escola que vão se encontrar adolescentes negro(a)s, índio(a)s, branco(a)s, japonese(a)s, paraguaio(a)s, entre tantas outras expressões que dão sentido à multiculturalidade.

Mestre em História pela Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD. Professor da Faculdade de Amambai – FIAMA e do Colégio CELQ.

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