09/01/2014 15h23 – Atualizado em 09/01/2014 15h23
Fonte: Carta Capital
Oh, ser um liberal nos Estados Unidos hoje! Na cidade de Nova York, um democrata finalmente foi eleito prefeito depois de uma ausência de 24 anos da prefeitura – e é um liberal empedernido. O casamento gay é permitido em 18 estados, incluindo, bizarramente, Utah, um dos mais conservadores. O salário mínimo está subindo em todo o país e você pode até fumar um baseado no Colorado. O Obamacare, apesar de todos os seus tropeços nas últimas semanas, é a lei da terra; o bloqueio do Senado apenas levou um grande golpe (e junto com ele o obstrucionismo republicano); um acordo nuclear com o Irã está em discussão e até Obama fala sobre o flagelo da desigualdade de renda.
Tudo está ficando cor de rosa, ao que parece. Mas, antes que os progressistas comecem a usar suas camisetas de Che Guevara e a estourar suas rolhas de champanhe artesanal, o momento liberal está enfrentando uma difícil realidade: os conservadores não vão perder sem lutar.
Na verdade, pouco mais de um ano depois que o presidente foi reeleito e o país parecia caminhar em uma direção mais progressista, os republicanos boicotaram grande parte de sua agenda, e 2014 (assim como 2015 e 2016) promete mais do mesmo.
A reforma da imigração, que esteve em primeiro plano na campanha para a reeleição de Obama, está entubada; o controle de armas foi bloqueado no Senado (e jamais teria passado pela Câmara de qualquer modo). Os duros cortes de orçamento continuam amplamente intactos, enquanto o gasto do governo cresce em índices anêmicos.
Nos estados, a história não é muito melhor. Vinte e três dos estados republicanos rejeitaram a expansão do Medicaid, o que está deixando mais de 5 milhões de americanos do lado de fora, olhando para o Obamacare. Reforçados pela decisão da Suprema Corte de derrubar um dispositivo chave da Lei de Direitos Eleitorais, estados de todo o país estão aprovando novas e onerosas restrições ao voto; talvez o pior de tudo seja que 2013 foi o cume de um período de três anos em que se aprovaram mais restrições estaduais ao aborto do que em toda a década anterior.
Muito simplesmente, enquanto o país deu um passo gigante à frente em diversos objetivos progressistas, também deu um grande passo atrás. De fato, em aspectos chaves, enquanto o Obamacare representa uma enorme vitória dos progressistas americanos e talvez seja a mais importante peça de política social em mais de quatro décadas, muitas prioridades liberais continuam incumpridas. E em nenhum lugar isso é mais verdadeiro que na política fiscal. Enquanto os democratas finalmente conseguiram espremer aumentos de impostos do Partido Republicano, eles não conseguiram fazer os conservadores concordarem com o tipo de gastos do governo que são chaves não apenas para a recuperação econômica do país, mas para a criação de novos empregos e a redução da desigualdade de renda.
Enquanto o novo prefeito da cidade de Nova York, Bill de Blasio, disputou com uma plataforma de escola maternal para todos, o plano do presidente nesse sentido morreu ao chegar ao Congresso. O mesmo vale provavelmente para sua proposta de 50 bilhões de dólares em gastos de infraestrutura. No final de dezembro, expirou o seguro-desemprego de mais de 1 milhão de americanos, e parece haver pouco ímpeto no Congresso para restaurar as verbas. Isto ocorre poucos meses depois de os republicanos cortarem impiedosamente os benefícios de cupons de alimentação para os americanos pobres.
O motivo disso não é surpreendente, nem novo. Desde que Obama assumiu o cargo, em 2009, os republicanos adotaram como meta número 1 obstruir praticamente qualquer legislação que o presidente e os apoiadores de seu partido defendem. Com os republicanos no controle da Câmara dos Deputados este ano – e em um futuro previsível –, é improvável que isso mude tão cedo.
Isto fala sobre um desafio maior da democracia americana: ela foi construída para ser um baluarte contra o progresso. Sejam os três poderes do governo americano, os órgãos legislativos separados, os 50 governos estaduais ou um sistema de tribunais com poder para derrubar leis, o número de obstáculos no sistema político americano é muito maior que o número de pontos de planagem. Isto sempre deu aos conservadores uma vantagem política – é muito mais fácil deter uma reforma (ou diluí-la) do que aprovar novas leis. De qualquer modo, o momento liberal pode encontrar suas maiores oportunidades nos mesmos lugares em que o fez durante a era dos direitos civis – no sistema de tribunais (como foi o caso na questão do casamento gay). Mas mesmo aqui talvez seja necessário esperar que o presidente Obama faça o Senado aprovar suas escolhas de juízes antes que um progresso significativo possa ocorrer.
Por sua vez, os liberais não devem perder toda a esperança. Em diversos temas, os objetivos progressistas nunca foram tão aprovados pela população americana. Desde o casamento gay à legalização da maconha, ao aumento do salário mínimo, a reforma da imigração, a verificação de antecedentes para compradores de armas e até as especificidades dos gastos do governo, a opinião pública está fortemente a favor deles. Os americanos apoiam mais o governo ativista, a política populista e as políticas socialmente liberais do que em qualquer momento na memória recente. Além disso, os milenares (pessoas na faixa dos 20 anos e início dos 30) são decididamente liberais, chegando a preferir o socialismo ao capitalismo em uma pesquisa recente.
O fracasso do liberalismo em aprovar o tipo de reformas que são essenciais para sua visão dos Estados Unidos não vem de uma incapacidade de movimentar a opinião pública a seu favor – vem de seu fracasso em encontrar uma maneira de contornar o rejeicionismo conservador. Mas enquanto os republicanos assumiam posições cada vez mais radicais em uma série de temas – do aborto aos impostos e, de modo mais prejudicial, a imigração –, eles se marginalizaram e diminuíram o apelo do conservadorismo, especialmente para jovens americanos, mulheres e hispânicos (o grupo demográfico de crescimento mais rápido no país).
De fato, o sucesso dos republicanos em bloquear a reforma é mais uma ação de retaguarda desesperada para deter o progresso do que um indício de sucesso conservador ou mesmo de ascendência política. Em todo caso, está tornando muito mais provável a percepção do momento liberal ao tornar o conservadorismo igualmente menos popular.
O problema é que isso não é muito bom para a mulher que hoje busca um aborto em um estado republicano, ou a pessoa que procura um emprego e está prestes a perder seus benefícios de desempregado, ou a próxima vítima da violência das armas.
Em curto prazo, a política americana provavelmente parecerá uma versão radical do impasse e da disfunção a que os americanos se habituaram demais. A pergunta, então, não é se os liberais terão seu momento ao sol – é quando. Infelizmente para eles – e os eleitores que os apoiam –, 2014 provavelmente não será o ano em que isso acontecerá.

