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06/06/2014 18h19 – Atualizado em 07/06/2014 00h19

Por Heron da Rosa Brum Filho

A motivação para escrever este pequeno artigo veio de outro publicado há alguns dias atrás neste jornal de autoria do Dr. Luiz Carlos Saldanha com o título “Bernal, chame o Crespo”. Nele, foi feita referência ao ex-prefeito de Amambaí, HERON DA ROSA BRUM.

Assim, quero antes me dirigir ao Luiz Carlos (sem DR para diminuir a formalidade) para manifestar, em meu nome e dos meus irmãos, nosso agrado pelas palavras simpáticas com que se referiu ao nosso pai HERON, por duas vezes prefeito de Amambaí. A opinião de quem viveu nessa época e tem a formação e credibilidade do Luiz Carlos, para nós, é de grande importância, uma vez que temos convicção da seriedade e qualidade dos serviços prestados por ele enquanto prefeito, e achamos importante e justo esse reconhecimento.

Mas, com a permissão dos leitores, esta também é uma oportunidade para nós, filhos, declararmos publicamente o respeito que temos por alguém que veio e foi e não deixou sua passagem por aqui ficar em branco. Ele soube, no seu tempo, conquistar bons amigos que o consideravam pelo caráter, espírito solidário e conduta retilínea na função pública. Aos filhos, uma dedicação incondicional, no limite da sua capacidade, para a formação escolar que entendia ser a única porta para o futuro. No cotidiano, atitudes que deixavam evidentes seus princípios morais e o apreço pelo CORRETO. Isso era percebido pelos que o conheciam e, mais fortemente, pelos filhos. Temos orgulho do homem que foi.

Em seu artigo, Luiz Carlos o coloca como EXEMPLO DE ADMINISTRADOR MUNICIPAL e gostaria de, apesar de que a condição de filho não me favoreça, achar que não há exagero nisso, pois sua trajetória o habilita a ser considerado dessa forma. Foi prefeito numa época difícil. É fundamental que se lembre das circunstâncias econômico/financeiras e o “por fazer” naqueles tempos e então avaliar o que foi deixado por ele como legado para toda a região. Município com grande extensão territorial (compreendia os atuais municípios de Sete Quedas, Paranhos, Coronel Sapucaia, Tacuru, Iguatemi, Eldorado e Mundo Novo), muito pobre, baixa arrecadação, poucos recursos externos e muito carente em infraestruturas. Comparado aos dias de hoje, um município muito mais pobre em um estado e país também muito mais pobres. Recursos para obras – uma luta! Nesse cenário Heron assumiu a administração do município em duas oportunidades, adotando uma estratégia de trabalho voltada, dentre outras, a aumentar a oferta e melhoria de escolas, melhorar as condições de pontes e estradas e dotar a própria sede de equipamentos urbanos mais adequados. Acho oportuno relembrar, rapidamente, apenas três iniciativas da sua administração que já o tornam merecedor do elogio. Naturalmente não se limitaram a isso, mas elas retratam a visão crítica que tinha das necessidades locais e a determinação na implementação de soluções.

Escolas sempre fizeram parte da agenda dos prefeitos e ainda que tenha também se dedicado a elas, penso serem o forte de sua administração as obras de infraestruturas rodoviárias que facilitassem a comunicação com os distritos e outras iniciativas de modernização da cidade, já necessárias ao estágio de urbanização em que se encontrava.

Como dito, sua gestão foi caracterizada por grandes esforços na manutenção e construção de estradas e pontes, em todas as direções do município. Dentre as quais, vale destacar a estrada de que vai de Amambaí ao porto de Morumbi devido a sua importância estratégica e extensão. Com aproximadamente 200 km essa estrada foi praticamente rasgada na mata virgem. Para avaliar corretamente a grandiosidade e os desafios impostos temos que levar em conta que os recursos financeiros eram limitados, e executados integralmente pela própria prefeitura com seus poucos equipamentos e poucos funcionários. Naquela época as dificuldades operacionais eram imensas e não é difícil imaginar a “peleja” quando quebrava um equipamento na frente de trabalho. Mas tinha que ser feito e o resultado desse esforço era a ligação do Município (e do Estado) com o Paraná, portanto, de significativa importância para a região.

Outro “fato ocorrido” que é lembrado com certo humor, mas que necessitou um posicionamento firme do prefeito foi relativo ao gado nas ruas da cidade. Para os que não viveram naquela época pode parecer um tanto surreal, mas era comum o trânsito de gado dentro da cidade pelos mais diversos motivos, dentre eles, a insistência de alguns cidadãos fazendeiros em circular com gado leiteiro utilizados na produção de leite para posterior venda na comunidade. Provocava a indignação da maioria das pessoas e o prefeito então comprou uma briga “das grandes” para impedir essa prática. De início, com a declaração de proibição. Não surtindo efeito, mandou cercar o redor da cidade com arame para impedir a entrada dos animais, que também não deu resultado. Após instituir multa o problema foi resolvido. Às vezes uma tropa inteira passava pelo centro da cidade quando tinha que ir de uma fazenda para outra. A partir dessa determinação os proprietários eram obrigados a desviar a área urbana. Pode parecer de pouco vulto esse ato administrativo, mas o que estava em jogo era uma mudança de cultura, de hábitos de parcela da sociedade. Sob protestos, era necessário impor a obediência a uma determinação da autoridade pública, que estava na defesa do interesse coletivo.

Outra iniciativa de grande repercussão e que já naquela época mostrava sua preocupação com questões relacionadas à higiene e saúde pública a prefeitura construiu um matadouro com condições sanitárias adequadas e condicionou que todo gado a ser comercializado nos açougues da cidade teria que ser abatido nele. A exigência se estendia aos açougues que a partir daí eram obrigados a revestir de azulejos os balcões e paredes. Apenas para ilustrar, em 1992 morei em São Mateus-ES (cortada pela BR-101, 70.000 habitantes) praticamente no centro da cidade e um dos meus vizinhos era um açougue em que as paredes estavam pintadas com tinta comum, balcão de madeira maciça e um toco no meio, creio que para desossa. Era o que havia. Foi inevitável lembrar que há 30 anos atrás em Amambaí, interior do interior, fronteira com o Paraguai isso já era assunto resolvido.

Mas, penso que a obra mais associada a ele seja a praça Coronel Valêncio de Brum. A cidade era carente de um local público de uso comum para lazer. Com projeto do Sr. Antonio Delgado e construída pelo Sr. Aparício, a praça cumpriu com esse papel. Bem projetada, ficou bonita e recebia muitos eventos, à noite era local de encontro das famílias, e da minha parte e de toda a criançada, muita bicicleta. Sempre houve grande identificação da população com ela, certo orgulho e de alguma forma sempre contribuiu positivamente para a autoestima do amambaiense. Não há dúvidas, faz parte da memória afetiva de todos nós.

Também foi Heron quem iniciou a colocação de meio-fio nas ruas disciplinando a construção das calçadas e dando um aspecto mais organizado para a cidade. O pontapé inicial para a construção do novo prédio da prefeitura também foi dele que encomendou o projeto ao Sr. Antonio Delgado. Não houve tempo hábil para a construção, o que se deu na administração do Sr. Alcyr Manvailer.

Qualquer passeio pela história do município certamente vai colocá-lo em destaque na galeria dos ex-prefeitos. Não fez sozinho, tinha equipe boa trabalhando com ele, na administração e em campo, alguns desses colaboradores lembrados no referido artigo aos quais eu acrescento o David Alvarenga, o próprio Luiz Carlos e tantos outros que seria difícil relacionar aqui, aos quais antecipadamente me desculpo.

Outro aspecto interessante e que não pode ser esquecido é que naqueles dias os prefeitos e vereadores não recebiam salário, o que implicava em grande sacrifício de suas atividades particulares. No caso do prefeito (honesto, naturalmente!), a dedicação integral significava, via de regra, sair mais pobre do que entrou e que, aliás, é o caso dele. Também era comum pela função que exercia, acomodar em sua própria residência pessoas menos favorecidas que vinham do interior do município em busca de serviços médicos ou outros só obtidos na sede. Em sua residência dava pouso e comida. Prevalecia nessa época e comparando-se com os dias de hoje faz pensar, um ESPIRITO CÍVICO autêntico, onde o desenvolvimento, o progresso do município falava mais alto que interesses pessoais. Exemplo disso e digno de admiração, foi a vez em que o prefeito Heron necessitava comprar um trator Caterpillar para a prefeitura, mas era exigido avalista. Seu adversário político, mas amigo, Hury Souza se prontificou e foi o avalista. Vejam, um cidadão (da oposição) sendo avalista na compra de um bem para um Órgão Público! Interessante, não?

Indo um pouquinho além do objetivo inicial, quero dizer que já tivemos em Amambaí grandes homens e grandes mulheres, ligados ou não à política local, que contribuíram decisivamente para a construção do que é a cidade hoje. E também que uma sociedade deve conhecer sua própria história, seus antepassados e não pode perder a memória dos que tiveram atuação relevante nesse processo. A exemplo do Sr. Inocêncio e do professor Miro, com uma boa garimpagem, mais publicações também poderiam surgir trazendo novos olhares para a nossa história, algo que fugisse da descrição fria dos fatos, mas que viessem acompanhadas de análise crítica séria e isenta. Aliás, no que diz respeito à política, é quando haveria a oportunidade de, a partir de um bom trabalho de pesquisa, fazer justiça aos bons administradores distinguindo-os daqueles que não fizeram bem a tarefa, seja por incompetência, má fé ou porque estavam atendendo apenas a uma vaidade pessoal. Mais ainda, estudos e publicações dessa natureza teriam um caráter pedagógico para os novos políticos uma vez que saberiam que suas performances (boas ou ruins) não cairiam no esquecimento.

Valendo também para nosso pai, o fato é que eu gostaria muito que pessoas que tiveram influência na vida da cidade ao longo dos anos tivessem seus nomes perpetuados entre as novas gerações. Arrisco dizer que isso deveria fazer parte do programa do ensino fundamental. Vejo meio sem sentido uma criança estudar e conhecer plenamente a História do Brasil e não saber nada da história do seu município. Precisam saber quem foi e o que fizeram Sidney Batista, Cel. Valêncio, Dr. Ernesto Vargas, Hury Souza, Alcyr Manvailer, Walmir Peixoto, profª. Nadyr Rodrigues,.Antonio Delgado, ……

Para concluir, volto ao Luiz Carlos apenas para atualizá-lo. Ele sugere que o prefeito Heron da Rosa Brum merecia ser homenageado colocando seu nome em uma das rodovias que construiu. Parece que essa homenagem já foi feita. Há muito não vou a Amambaí, mas fui informado de que foi dado seu nome a uma importante via pública da cidade.

Heron da Rosa Brum Filho
(67) 8418-5458
[email protected]

Praça Cel. Valêncio de Brum, obra construída na gestão do prefeito Heron da Rosa Brum.

Heron da Rosa Brum

Abrindo estradas em Amambai durante gestão do ex-prefeito Heron da Rosa Brum.

Amambai

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