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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Butantan cobra verbas e diz que em três anos pode ter vacina contra zika

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04/02/2016 16h10 – Atualizado em 04/02/2016 16h10

Fonte: BBC

Sob pressão da sociedade brasileira e diante de uma missão crucial em meio à epidemia de zika vírus, Jorge Kalil, presidente do Instituto Butantan, um dos principais centros que buscam a vacina contra o vírus, diz que até agora não recebeu recursos do Ministério da Saúde para bancar o projeto.

Segundo o imunologista seriam necessários R$ 30 milhões para esta fase inicial do trabalho que poderia ser concluído em até três anos, mas apesar dos anúncios feitos no dia 15 de janeiro, quando o laboratório recebeu a visita do ministro da Saúde, Marcelo Castro, até agora não houve repasses.

“O início do projeto é bem mais barato. Ele começa a ficar caro bem mais tarde. No começo, com R$ 30 milhões já avançaríamos muito. Isso não é nada. Tem compras que o Governo Federal faz de anticorpos no valor de R$ 1 bilhão”, explica.

Na noite de quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff relembrou, em pronunciamento nacional, que ainda não existe vacina contra o zika vírus, e exortou a população a aderir ao que classificou como uma “luta urgente” contra o Aedes aegypti, mosquito transmissor dos vírus da dengue, zika e chikungunya.

Para Kalil, é necessário que a retórica se transforme em ações concretas. “Eu acho que no Brasil se fala muito se faz pouco. Eu acho que tinham que arrumar o dinheiro e deixar os cientistas trabalharem”, diz, acrescentando que também há atraso no recebimento de R$ 300 milhões referentes à última fase de testes da vacina contra a dengue.

As verbas da vacina da dengue são compartilhadas pelo governo do Estado de São Paulo e o Governo Federal.

Consultado pela BBC Brasil, o Ministério da Saúde disse, por meio de nota, que o pré-projeto da vacina contra o zika vírus só foi enviado pelo laboratório após reunião realizada no dia 15 de janeiro.

“Todo esse processo está sendo acompanhado pela direção do Instituto Butantan e o documento vai prever ainda recursos para a fase final da vacina contra a dengue”, acrescenta a nota, destacando que o órgão repassa ao instituto o equivalente a R$ 1 bilhão por ano para aquisição de vacinas e soros, além dos valores de investimentos em tecnologia.

Quanto ao valor de R$ 30 milhões citado por Kalil, o Ministério da Saúde disse que “qualquer investimento público em tecnologia deve seguir um trâmite e isso está sendo feito com muita agilidade, devido à prioridade do tema, mas que os valores só poderão ser divulgados na conclusão do projeto”.

Já o governo do Estado de São Paulo informou à BBC Brasil, também por meio de nota, que não faltarão recursos estaduais para os testes clínicos e demais etapas de desenvolvimento da vacina da dengue.

“Tanto que, no primeiro semestre de 2015, o governo paulista encaminhou à Anvisa pedido para antecipar a fase 3 dos testes clínicos, visando acelerar o processo e disponibilizar a vacina para campanhas de imunização em massa no Brasil o quanto antes. Entretanto o órgão federal somente aprovou esta solicitação em dezembro”, acrescenta a nota.

BBC Brasil – Em que estágio se encontra a busca pela vacina contra o zika vírus no Instituto Butantan? Há parcerias com outras instituições?

Jorge Kalil – O trabalho se encontra em estágio inicial. Trabalhamos há muitos anos com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), e com o Instituto Pasteur, de Paris, e para algumas coisas que eu quero fazer nós também vamos colaborar com o Laboratório Federal de Los Alamos, que fica nos EUA. Existem várias linhas de atuação que nós queremos trabalhar. Uma é a vacina, que tem várias maneiras de fazer, a segunda é a produção de anticorpos, que podem servir tanto para tratamento quanto para diagnóstico. Também atuamos na busca por um teste sorológico, e uma quarta linha de atuação, com a George Washington University, também dos EUA, trabalha na história natural da doença.

Esta última frente busca responder perguntas importantes. Temos que saber como esse vírus chega e desperta uma resposta imune, e sabemos que tem pouco vírus no sangue, e por pouco tempo. E depois? O vírus ainda fica no corpo da pessoa? No caso das mulheres, como é que transmite para a placenta? Quanto tempo o vírus fica no corpo até ser completamente eliminado? Várias perguntas que temos que fazer e que não vão resultar num produto imediato mas vão guiar os produtos que nós temos que fazer.
BBC Brasil – O Instituto Butantan está ligado ao Estado de São Paulo. Mas quais são as fontes de financiamento para os projetos? O senhor já recebeu recursos do Ministério da Saúde para acelerar a vacina contra o zika vírus?

Kalil – Na verdade recebemos muito pouco recurso do Estado de São Paulo. Nos inscrevemos em financiamentos de pesquisa, sejam da Fapesp, BNDES, Finep, e agora o Ministério da Saúde prometeu que vai dar recursos diretamente para o Butantan para desenvolver muitos desses projetos contra o zika, e o ministro Marcelo Castro me prometeu que não faltarão recursos para que a gente faça essas pesquisas, mas por enquanto ainda não chegaram. Em relação aos recursos para a fase 3 da vacina de dengue, que inclui testar a vacina em 17 mil pessoas em 14 centros espalhados pelo país, no valor de R$ 300 milhões, por enquanto também não tenho nada, por enquanto só tenho promessas.

Kalil – Cada um está trabalhando no seu projeto, eles estão fazendo coisas semelhantes, mas vamos ver quem chega primeiro. São abordagens diferentes, mas colaboramos sim. É algo concomitante, estamos todos tentando chegar na vacina, e temos que nos ajudar para que isso ocorra o mais rápido possível.
BBC Brasil – Como tem visto a maneira como as autoridades têm gerido a crise trazida pela epidemia de zika vírus e os casos de microcefalia? Houve críticas, por exemplo, a declarações do ministro da Saúde, quando se referiu que o Brasil estava “perdendo a luta contra o Aedes aegypti”.

Kalil – Eu acho que no Brasil se fala muito e se faz pouco. Eu acho que tinham que arrumar o dinheiro e deixar os cientistas trabalharem. Sobre o que o ministro disse, que reclamaram muito, eu acho que ele tem razão em dizer isso. Por que cientista diz a verdade e político tem que mentir? Eu acho que ele foi criticado muito mais por conta de interesses políticos.

Butantan cobra verbas e diz que em três anos pode ter vacina contra zika

BBC Brasil – Há uma grande cobrança da sociedade brasileira sobre a busca pela vacina contra o zika, e o mundo está em alerta. Na sua opinião, o que emperra a liberação dos recursos necessários, apesar da situação emergencial?

BBC Brasil – Na corrida pela vacina, o Ministério da Saúde anunciou dias atrás que o trabalho ocorre em três instituições brasileiras: Instituto Butantan, em São Paulo, Instituto Evandro Chagas, no Pará, e na Bio-Manguinhos, que pertence ao sistema Fiocruz, no Rio de Janeiro. Os grupos trabalham em conjunto ou cada um desenvolve sua própria vacina?

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