09/11/2019 19h30
Programa de extensão da UEMS de Amambai publica livro sobre direitos das mulheres indígenas
O livro Kunha Remopu’á reúne textos produzidos a partir de conversas gravadas nos Kuñangue Aty Guasu – assembleias de mulheres kaiowá e guarani, bem como de reflexões e depoimentos produzidos pelas mulheres kaiowá e guarani e por mulheres não indígenas que com elas convivem.
Fonte: Redação, com informações da UEMS
No início de outubro, foi publicado o livro Kunha Remopu’á, organizado pelas professoras Célia Maria Foster Silvestre, Veronice Lovato Rossato e Lauriene Seraguza. Foram impressos 2.500 exemplares, com o objetivo de distribuição para as escolas indígenas.
A publicação da obra faz parte de um conjunto de ações desenvolvidas pelo Programa de Extensão “Ojapo Tape Oguata Hina: se faz caminho ao andar”, vinculado à UEMS, Unidade de Amambai, e contemplado com recursos do convênio PROEXT/MEC/UEMS 2015. O programa contou com a contribuição de muitas pessoas vinculadas a várias instituições e coletivos, entre os quais, a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), representantes da Kuñangue Aty Guasu (movimento de mulheres kaiowá e guarani) e do Movimento de Professores Guarani e Kaiowá e Coordenadoria de Políticas Públicas para Mulheres do Município de Amambai.
A concepção do Programa de Extensão aconteceu em 2013, motivada pela existência de uma linha de financiamento para ações de extensão na Universidade, edital PROEXT/MEC. O objetivo principal era obter recursos para ações desenvolvidas com estudantes kaiowá e guarani na universidade e nas aldeias, promovendo um conjunto de ações voltadas para as temáticas de gênero, direitos e superação das violências contra as mulheres.
As professoras organizadoras da obra ressaltam que na época em que as ações foram imaginadas a discussão a respeito da violência contra as mulheres indígenas ainda tinha pouca repercussão. Ganhava ressonância a discussão a respeito da demarcação de terras, vista como um direito primordial, ou seja, como um direito a partir do qual os demais acontecem. As mulheres, nos últimos anos, juntam suas vozes para reivindicar o direito aos seus territórios, mas também denunciam as violências de vários tipos que sofrem, dentro e fora dos territórios.
A Kuñangue Aty Guasu, grande assembleia de mulheres kaiowá e guarani, tem se dedicado a esse tema como uma das grandes pautas que fazem parte de suas preocupações. É a partir da Kuñangue Aty Guasu, 2017 e 2018, e da convivência com as mulheres kaiowá e guarani nestes anos, que surgem os textos presentes no livro, produzidos a partir de conversas gravadas nestas assembleias, bem como de reflexões e depoimentos produzidos pelas mulheres kaiowá e guarani e por mulheres não indígenas que com elas convivem.
Estas reflexões estão prenhes da luta das mulheres por direitos. Uma das características da atuação política das mulheres kaiowá e guarani é que falam em termos de coletivo, para além do individual. Suas pautas dizem respeito a todo o contexto político que envolve seu povo, o contexto histórico de expropriação e passam pela temática da educação, da saúde, do território, do ambiente, da formação das e dos jovens, pela violência que vem de fora e aquela que está dentro também. Os direitos humanos das mulheres estão relacionados ao todo da vida humana.
A respeito dessas mulheres e da forma como se colocam no espaço político, Lauriene Seraguza diz: “As suas lutas são acompanhadas pelas rezas e cantos que são entoados numa negociação cósmica, visam a alegria e estão conectadas com o teko porã, o bom modo de ser kaiowá e guarani, que depende exclusivamente de poder viver em suas terras ancestrais com a parentela”. Ou seja, tudo faz parte do mesmo complexo semântico do teko katu (modo de ser verdadeiro): a vida, o belo, o bom, a saúde, as lutas, o caminho, as belas palavras, as rezas e os cantos sagrados, as festas, os seres divinos, o cosmos, o território, o espaço habitável, a parentela, todos os seres humanos e não humanos – tudo regado à alegria, o que torna a vida mais leve, mais serena e equilibrada. Veronice Lovato Rossato afirma: “A alegria é a manifestação poética da alma guarani. Aliás, ter paciência, tolerância, serenidade, não se irar e saber rir das circunstâncias (…) compõem as condições para desenvolver esta característica do modo de ser kaiowá/guarani: ser alegre, leve e aberto e dizer palavras bonitas”, necessário para alcançar o aguyje (estado de perfeição).
Da mesma forma, elas reconhecem a importância do masculino para a existência do teko porã. Pode-se ver essa perspectiva nas palavras de Janete Alegre, presente no livro, explicando o que é ser mulher kaiowá e guarani: “Ser mulher Kaiowá e Guarani é ser tudo. A gente abrange tudo. Não tem como ser uma parte, só. Ela, a mulher, resiste, sofre; ela passa por vários processos. É como se fosse a terra, a natureza.”
As palavras de Janete Alegre, liderança kaiowá e guarani, expressam a ecologia de saberes própria de seu povo, que esperam ver considerada no âmbito das políticas públicas que os atendam e ou afetem.
A professora Célia Maria Foster Silvestre organizou a obra no período de junho a outubro de 2019, estando em Coimbra, Portugal, onde se encontra desde junho realizando estágio pós-doutoral, junto ao Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra. O estágio pós-doutoral da professora é supervisionado pelo Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos e tem o objetivo de aproximar a percepção e experiências de luta por direitos dos Kaiowá e Guarani das Epistemologias do Sul, área teórica desse sociólogo reconhecido mundialmente.
“Veronice, Lauriene e eu organizamos este livro a partir das contribuições de Aline, Priscila, Lúcia, Janete, Clara, Leila, Rosicleide e Flávia, entre outras e outros. A proposta foi fazer um material com característica bastante visual nas cores, fonte e imagens, no formato de cartilha, fugindo um pouco dos cânones acadêmicos. As falas das mulheres kaiowá e guarani, com exceção da dona Roseli, foram transcritas dos vídeos feitos por Ruy Sposati e Rodrigo Marcondes na Kunhangue Aty Guasu. Estes vídeos, editados, compõem o documentário Kuña Reko: mulheres kaiowá e guarani, que constituem um acervo disponibilizado para a Kunhangue Aty Guasu”, diz Célia Foster.
Sobre as organizadoras
Célia Maria Foster Silvestre
Cientista social, professora da UEMS – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, atuando nos cursos de Ciências Sociais, Mestrado Profissional em Ensino de História – PROFHISTÓRIA e Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e de Sistemas Produtivos. Coordenadora do Programa de Extensão (PROEXT/MEC/UEMS/2015) Ojapo Tape Oguata Hina: se faz caminho ao andar (2015-2019). Atualmente em estágio pós-doutoral no Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal.
Veronice Lovato Rossato
Professora de Ensino Fundamental e Médio, alfabetizadora, bacharel em Comunicação Social/ jornalismo; especialista em jornalismo; licenciatura plena em Redação e Expressão/Língua Portuguesa; mestrado em Educação; indigenista há mais de 30 anos. Atua na docência da Educação Básica e, principalmente, com formação de professores indígenas. Também assessorou organizações indígenas, particularmente, o Movimento de Professores Guarani
e Kaiowá de Mato Grosso do Sul. Tem assessorado a elaboração e edição de materiais indígenas em língua guarani, produzidos por professores destas etnias.
Lauriene Seraguza
Antropóloga, doutoranda em Antropologia (USP). É pesquisadora vinculada ao Grupo de Pesquisa Etnologia e História Indígena (UFGD), Centro de Estudos Ameríndios (USP) e bolsista FAPESP.





