No Peru pré-hispânico, uma adolescente de 16 anos desafia tradições e sonha em se juntar a um seleto grupo de homens mensageiros de seu povo. Com ajuda de seu porquinho-da-índia e dos espíritos das montanhas, Kayara luta contra expectativas, vence obstáculos e prova que merece um lugar no coração do Império Inca.

A animação 3D Kayara: a princesa Inca é uma amostra da qualidade de animações infanto-juvenis latino-americanas e referência para pais que buscam outros modelos de princesa, mais próximos dos Andes do que de terras nórdicas, segundo especialistas.
O longa infantil, que estreou no Brasil em 2025 é já está nas plataformas comerciais, concorre ao Prêmio Platino de Animação, o Oscar do cinema ibero-americano. Os vencedores serão anunciados em 9 de maio, no México.
Kayara é um filme de destaque por valorizar a paisagem latina e por trabalhar tradições e costumes das civilizações pré-colombianas com as infâncias, avalia o diretor-executivo do Midiativa, Daniel Carmona Leite. A associação dirigida por ele criou o selo comKids para valorizar o audiovisual infantil e infanto-juvenil ibero-americano.
“É importante criarmos nossas crianças assistindo a filmes que tenham como cenário e como ambientação a nossa região”, disse Daniel. “Isso faz com que elas valorizem a própria cultura e não somente idealizem a de outras regiões”, analisa.
Segundo Leite, faltam nas telas brasileiras paisagens latinas e, ainda, africanas, considerando a formação de metade da população brasileira, que descende da migração forçada vinda da África.
O especialista também destaca como positivo o filme Kayara ser uma produção entre Peru e Espanha, o que “desenvolve obras audiovisuais competitivas”, em um contexto de competição, como o da animação.
Ele também sugere ações de fomento para obras infantis e infanto-juvenis de forma sustentada, apesar de já existirem bons conteúdos. No Brasil, ele cita o filme Tarsilinha e produções ligadas à Turma da Mônica.
>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp
Quebra de padrões
Na animação que concorre ao Platino, Kayara tem uma grande habilidade: correr. Ela sonha em assumir uma posição de “chasqui”, que são os mensageiros do Império Inca, um grande Estado multiétnico, que ia do Peru até a atual Argentina, cortando os Andes.
Porém, o posto era reservado aos homens e a jovem precisava fazer a tradição ser revista.
A personagem rompe com papéis determinados às mulheres na civilização Inca, e a maneira resiliente como ela é construída também é positivo, avalia a professora de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marina Tedesco.
Especialista em cinema latino, ela revelou que, quando criança, gostaria de ter visto o longa. “A minha geração cresceu tendo como referência apenas animações estadunidenses”, protestou.
Apesar dos elogios, ela reconhece que, como um filme comercial, feito para um grande público internacional, Kayara tem “limitações estéticas”.
“Kayara encontra boa acolhida no público porque, por exemplo, o tamanho dos olhos, a proporção de cabeça e corpo, dialogam com algo (personagens) que são conhecidos”, explicou. “Não vejo nenhum problema nisso quando se pretende fazer um filme para o grande público, porque, se nós ignoramos o repertório visual e audiovisual das pessoas, não conseguimos nos comunicar”.
Outros indicados
Na premição ibero-americana, Kayara disputa o troféu com o primeio stop-motion mexicano de fantasia sombria Eu Sou Frankelda, um infanto-juvenil que acompanha as aventuras de uma criativa jovem escritora fantasma, que se originou de uma série de TV.
Os demais indicados ao Platino de Animação são filmes adultos. Entre eles está Olívia e as Nuvens, um drama poético da República Dominicana que discute a complexidade do amor. Outro concorrente é Decorado, filme espanhol, de humor ácido, no qual um rato de meia idade está em crise existencial. Os dois longas ganharam competições nacionais.

