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domingo, 26 de julho de 2026

A Falácia de Redovino

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Artigo de Vitor Guidotti *

Normalmente não vemos em uma cidade pequena algo e ser falado sobre o assunto, geralmente pessoas que compartilham da mesma opinião que a minha tendem e não expor o seu modo de pensar. Porém, por mais que sejamos recatados em escrever para demais pessoas, chego ao ponto em que o preconceito e o desrespeito me fez tomar uma atitude simples, mas que pode aos poucos, extinguir esse conceito formado por um grupo de pessoas.

Enquanto escrevia esse texto, fiquei pesando se deveria ou não colocar o nome do autor, pois tenho consciência que a maioria da população sofre em quebrar conceitos formados, vale lembrar a luta dos escravos, passando pela batalha das mulheres por direitos iguais, e hoje aos poucos, a sociedade começa a entender e respeitar os homossexuais como pessoas normais.

O meu caso não se enquadra em nenhum mencionado acima, trata-se de um ponto de vista que cerca de apenas 2% da população mundial tem em comum.

Chegando ao ponto, estive lendo um artigo relacionado a um conflito religioso, sobre atritos entre facções do cristianismo (entende-se facção por parte divergente de um grupo, nada relacionado às populares facções criminosas). Nele pude analisar todo o pensamento equivocado de um membro importante de uma das partes. No artigo publicado neste site, Dom Redovino Rizzardo descreve o seguinte:

“O caminho mais fácil e rápido para se chegar ao ateísmo passa por uma religião sustentada e buscada por interesses humanos. Deus deixa de ser a realização plena da pessoa humana para se tornar um quebra-galho, cuja única tarefa é impedir que seus filhos passem por males e sofrimentos. Mas, à medida que a ciência avança e resolve os problemas que antigamente cabia a Deus solucionar, avança também o materialismo.” (Dom Redovino Rizzardo)

Ao me deparar com tal opinião, tive a certeza que deveria escrever algo a respeito, defendendo uma parte da população que foi brutalmente desrespeitada. Não vou fazer como Karl Marx, em que simplesmente ignorou os opiniões dos religiosos sobre os seus idéias, quando o mesmo disse “As acusações contra o comunismo feitas de pontos de vista religiosos, filosóficos e ideológicos em geral, não merecem uma discussão pormenorizada”. Prefiro dizer algo que possa combater opiniões mal formuladas.

Logo no inicio dos dizeres sobre chegar ao ateísmo que Dom Redovino descreve, já percebi o total equivoco sobre a sua conclusão. Ateus não necessitam buscar interesses humanos para adquirir tal entendimento sobre religiosidade, ainda mais por meio de alguma religião, haja vista que quando alguém busca uma religião, justamente é para reforçar a sua crença em Deus ou em demais deuses, partindo do principio que não é apenas a religião cristã existente no mundo.

Os ateus, primeiramente, procuram entender as divindades e as religiões existentes, partindo de um estudo sobre as mesmas, analisando os fatos, comparando evidências, até chegar a um consenso sobre o assunto. Uma prova de que ateus entendem sobre religiões até mais que os teístas podem ser comprovados neste link: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/09/ateus-e-agnosticos-sao-os-que-mais-sabem-sobre-religiao-nos-eua-estudo.html/ (vale lembrar que a pesquisa foi realizada nos EUA).

O Bispo também cita que existe um caminho rápido para se chegar ao ateísmo. Ele escreve isso num tom bem amargo, como se o fim da estrada deste caminho é algo diabólico, imoral, defeituoso. Algumas pessoas tendem e ver as coisas apenas com o seu ponto de vista inexorável, como conservadores religiosos existentes por todo o mundo, aqueles que ainda pensam que as mulheres devem andar cobertas de tecido, pois mostrar o seu corpo é um atentando contra as leis de Deus. O equivocado pensamento do Bispo pode ser descrito por Friedrich W. Nietzsche:

“Ao pathos(1) que se desenvolve dessa condição denomina-se fé: em outras palavras, fechar os olhos ante si mesmo de uma vez por todas para evitar o sofrimento causado pela visão de uma falsidade incurável. As pessoas constroem um conceito de moral, de virtude, de santidade a partir dessa falsa perspectiva das coisas; fundamentam a boa consciência sobre uma visão falseada; após terem-na tornado sacrossanta com os nomes “Deus”, “salvação” e “eternidade” não aceitam mais que qualquer outro tipo de visão possa ter valor”. (Trecho do livro O Anticristo, escrito por Friedrich W. Nietzsche)

O ateísmo nunca foi uma ideologia que tem como base qualquer atrocidade que alguns religiosos não cansam de proclamar em suas casas de Deus. Utilizam de mentiras para fortalecer a falácia, até já ouvi crentes (entende-se crente por todas as pessoas que acreditam em Deus, limitarei apenas o Deus cristão) dizendo que Adolf Hitler era ateu, e que por isso os ateus devem ser considerados pessoas do mal. Ora, não foi bem isso que deu a entender quando li as próprias palavras do fabuloso orador alemão, em seu livro, Mein Kampf:

“Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.”

“O verdadeiro sentido da democracia germânica reside, justamente, graças a Deus, no fato de não ser possível ao primeiro ambicioso, indigno ou impostor, chegar, por caminhos escusos, ao governo de seu povo. A extensão da responsabilidade assumida afasta os incompetentes e os fracos.”

“Graças a Deus, a luta do ano de 1914 não foi, na realidade, imposta e sim desejada pelo povo inteiro. Todos queriam acabar de vez com uma insegurança generalizada. Só assim pode-se também compreender que mais de dois milhões de alemães, homens e rapazes, se pusessem voluntariamente sob a bandeira decididos a protegê-la com a última gota do seu sangue.” (Trechos do livro Mein Kampf, escrito por Adolf Hilter)

Não consegui compreender quais são os interesses humanos que por meio de uma religião pode se chegar ao ateísmo, segundo Dom Redovino. Provavelmente não deve ser nada bom, considerando que o mesmo critica até os interesses buscados por um mesmo grupo de pessoas que acreditam no mesmo deus. O que deveríamos pensar sobre o que ele considera interesse para um ateu?

Ateus consideram que a moral se constrói independentemente da religião, e alguns escritores e cientistas comprovam essa afirmação. Assim como Richard Dawkins, escritor, biólogo e professor da universidade de Oxford, em seu livro Deus, um Delírio:

“Vários livros, como Why good is good [Por que o bom é bom], de Robert Hinde, The science of good and evil [A ciência do bem e do mal], de Michael Shermer, Can we be good without God? [Podemos ser bons sem Deus?], de Robert Buckman, e Moral minds [Mentes morais], de Marc Hauser, argumentaram que nosso senso de certo e errado pode ser resultado de nosso passado darwiniano.”

Ainda insatisfeito Richard Dawkins diz a respeito de alguns religiosos que consideram que os ateus deveriam ser pessoas más. Em conseqüência, ele escreve a seguinte situação:

“Quando uma pessoa religiosa dirige-a desse jeito para mim (e muitas fazem isso), minha tentação imediata é lançar o seguinte desafio: “Você realmente quer me dizer que o único motivo para você tentar ser bom é para obter a aprovação e a recompensa de Deus, ou para evitar a desaprovação dele e a punição?”

Se considerar que apenas um autor é insuficiente para questionar a moralidade vinda apenas da religião, Albert Einstein ajuda a fortalecer o pensamento: “Se as pessoas são boas só porque temem a punição, e espera a recompensa, então nós somos mesmo uns pobres coitados”. Por fim, não pretendo dizer aqui que a moral proposta pela religião é equivocada, mas que devemos considerar que a total moralidade buscada pela humanidade não advém somente das religiões existentes. Mas creio que um estudo a respeito da moral e a religião pode ainda ser um bom argumento para o questionamento:

“Gregory S. Paul, no Journal of Religion and Society (2005), comparou dezessete nações economicamente desenvolvidas e chegou à devastadora conclusão de que “taxas mais altas de crença num criador e de culto a ele se correlacionam com taxas mais altas de homicídio, mortalidade juvenil e precoce, taxas de infecção por doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e aborto nas democracias prósperas”.” (Richard Dawkins, Deus, um Delírio).

Por fim, fiquei intrigado com as últimas palavras de Dom Redovino naquele parágrafo, onde diz que antigamente Deus resolvia os problemas, e hoje, com o avanço da ciência, ele deixa de ajudar a solucioná-los, haja vista que o homem já está se preparando para isso. Seria coincidência então que, antigamente, quando se tinha uma epidemia como a Peste Negra, Gripe espanhola, a taxa de mortalidade comparada com as demais epidemias da atualidade como a gripe suína (vírus H1N1) seria extremamente maior, e teríamos mais chances de sobreviver a uma epidemia recorrendo à ciência? Então, segundo os dizeres do Bispo, a ciência tem maiores probabilidades de salvar vidas do que o Deus cristão.

É triste vermos que todo o crédito da medicina e da ciência por combater e prevenir doenças, estudar meios para aprimorar as cirurgias das diversas complexidades do campo cirúrgico é derramado nas religiões. E não satisfeitos, quando um paciente está passando por uma cirurgia de risco e sobrevive, os religiosos dizem foi Deus quem fez isso acontecer, graças às preces realizadas, mas se o paciente vem a óbito, a culpa toda é empregada aos profissionais da saúde, ou ainda, que deus tem um plano em seu reino eterno para essa pessoa. Interessante é que de uma forma ou outra o Deus cristão sempre se sai bem. O pior de tudo isso é que religiosos ganham o mérito por apenas dizerem que Deus os ajudou, e todo o trabalho feito pelos cientistas são ignorados, anos e anos de pesquisa em saúde são perdidos quando se diz que Deus curou alguém do câncer, ou vez um cego voltar a enxergar. O último exemplo me lembrou de um fato bem curioso, por mais que pastores e padres digam que fizeram pessoas voltarem a andar, ouvir ou ver, eu nunca vi algum membro religioso fazer uma perna amputada crescer. Acho que eles ainda possuem apenas o poder de curar órgãos internos, que coincidentemente são mais difíceis de ver a olho nu a cura sendo realizada.

Por fim, por mais diversos assuntos que posso defender sobre o grupo que estou incluído, ficarei apenas na idéia de defender os ateus quanto aos dizeres do Bispo. Acredito que religião é algo que toca profundamente o sentimento das pessoas, e sei que questioná-la é algo bem difícil (experiência própria). O motivo central do texto é apenas dizer que ateus, agnósticos e pessoas que não compartilham da mesma religião que a maioria das pessoas são sim pessoas de bem, pessoas que estão por aí nas ruas, trabalhando, estudando, incluídos na sociedade, pessoas que querem apenas o mesmo respeito que tem com as pessoas religiosas, respeito de aceitar as diferenças. Mas por um preconceito que ainda está muito longe a ser quebrado, preferem ficar no anonimato.

  • Vitor Guidotti é acadêmico de Adminstração de Empresas

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