23/08/2020 09h30
Especialistas reforçam que, quanto mais cedo, melhor para explicar aos pequenos o que é consentimento e a importância de dizer ‘não’!
Fonte: Alice Arnoldi / Bebê
Junto com os cuidados essenciais à saúde da criança, construir um diálogo honesto com ela continua a ser o recurso mais poderoso para protegê-la e é isto que ganha força quando o abuso sexual infantil volta a ser discutido.
Em maio de 2020, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) divulgou o balanço das denúncias feitas no disque 100. Dos 159 mil casos contabilizados, 86,8 mil tinham crianças e adolescentes como vítimas. E entre eles, 17 mil tinham cunho de violência sexual.
Com dados tão preocupantes, a discussão caminha para o reforço de que políticas públicas precisam existir para que crianças e jovens sejam protegidos efetivamente. Mas há também a parte que fica mais próxima de conseguirmos colocar em prática: a de desconstruir o tabu que ainda existe sobre educação sexual, e iniciar a conversa a respeito do assunto o mais cedo possível.
1. Não é só sobre órgãos sexuais
Para que este diálogo seja saudável, o que explica Fernanda Teles, psicóloga e educadora parental, é a importância de pais entenderem que educação sexual não é apenas sobre os órgãos genitais ou o ato sexual em si. Com o passar do tempo, eles também serão abordados. Mas na primeira infância, o foco é ensinar as crianças sobre consentimento.
Mesmo que elas ainda sejam pequenas ou até mesmo bebês, Fernanda orienta que os pais avisem – e até peçam licença – quando tocarem as partes genitais dos filhos para limpar e aproveitem o momento para explicarem o que estão fazendo. Estas atitudes carregadas de respeito não têm idade específica para começarem a acontecer.
“Desde o momento que a criança nasceu, os pais podem ensinar os pilares da prevenção contra o abuso que é o respeitar o próprio corpo e o consentimento da criança para tocá-lo”, enfatiza a especialista.
2. Ensine quem pode tocar
Para que fique claro para a criança quem pode ou não tocar as suas partes íntimas, é essencial que os pais citem exemplos concretos para ela. A psicóloga pontua que é importante dizer, por exemplo, que pais e avós podem cuidar das suas partes íntimas para higienizá-las.
Mas se um amigo ou adulto pedir para que o pequeno abaixe a calcinha ou a cueca para ver sua parte íntima, ainda que não a toque, isso também não está certo e ele deve contar o que aconteceu para alguém de sua confiança.
3. Não duvide da criança
E para criar este ambiente em que a criança se sente confortável em dizer o que está acontecendo ou solucionar alguma dúvida que a está incomodando, é preciso que ela se sinta validada ao falar.
“Não duvide dela. Acolha a criança quando ela relatar alguma coisa, tenha uma escuta atenta, aberta. Caso contrário, você corre o risco de fechar qualquer espaço de diálogo no futuro”, reforça Roberta Rivellino, presidente da Childhood Brasil.
O mesmo cuidado é salientado por Fernanda. Caso os pais suspeitem que o filho possa ter sofrido uma situação de abuso, colocá-lo contra a parede pode piorar o caso. “Temos que ter muito cuidado quando começamos a invadir a intimidade dessa criança, porque se ela está sofrendo abuso de alguém que a está ameaçando, ela não vai querer contar”, exemplifica a psicóloga.
Em casos como este ou que a criança sinalizou diretamente para os pais que algo aconteceu, a psicóloga frisa que adultos repitam para os filhos que, independente do que tenha ocorrido, eles são amados e que a culpa não é deles. Informe que a família procurará por ajuda profissional e os sentimentos de confusão e medo serão tratados com carinho.
4. “Não” é não!
Ainda na infância, é importante que a criança cresça com a consciência de que o seu “não” tem poder. Isso significa que, em um ato de respeito a ela, é imprescindível que os pais não a obriguem a trocar nenhum tipo de carinho com um adulto que ela não queira.
“Se a criança é obrigada a dar um abraço ou um beijo, ela vai entender que isso é normal. Inclusive se ela tiver contato com um abusador que fizer o mesmo”, explica Fernanda.
Já quando acontece o contrário e ela é escutada quando diz “não”, esse acaba sendo o primeiro passo para entender que não é preciso anular as próprias vontades pelo outro e aprende, aos poucos, a impor limites. “Sempre que alguém ultrapassar a linha de respeito da criança, ela tem que ser encorajada a dizer ‘não'”, completa a especialista.
Dar esta autonomia ao pequeno pode fazer com que os pais fiquem receosos do filho parecer chato aos olhos dos familiares e amigos próximos. Mas o conselho de Fernanda é que eles amparem as crianças diante de adultos que querem obrigá-las a fazerem algo, para que eles entendam que os menores também têm desejos próprios e são seres humanos em formação.
5. O que pode ajudar?
Tanto para a prevenção quanto para ajudar a criança a criar vocabulário para explicar, a presidente da Childhood aconselha pais a usarem materiais de apoio sobre o assunto.
Roberta cita livros como “Não me toca, seu boboca!” e “Pipo e Fifi”, que trazem histórias lúdicas para explicar a importância da criança dizer ‘não!’ e como reagir em uma situação de perigo (listamos mais alguns títulos aqui!).
Além da literatura, vídeos educativos também podem ajudar. A série “Que Corpo é Esse?”, produzida pelo Canal Futura em parceria com a Childhood Brasil, Unicef Brasil e a Fundação Vale, é uma das opções. Ela traz episódios pensados e separados pela faixa etária das crianças, respeitando os limites de entendimento dos pequenos.
Incluir esses tipos de conteúdo na rotina da criança auxilia os pais a repetirem a conversa mais de uma vez e trazerem a cada diálogo mais naturalidade para o assunto. Assim, os pequenos vão aprendendo que, caso algo aconteça com eles, o silêncio não deve ser uma opção!

