Cordel Encantado, novela que estreia na Globo amanhã, às 18h, une nobreza europeia e cangaço
Fora o deslumbramento visual, as primeiras imagens de Cordel Encantado, novela das 6 que a Globo estreia amanhã no lugar de Araguaia, dão a entender que se trata de uma trama pouco comum – quem sabe até uma tremenda ousadia. Contada numa época não claramente delimitada, mas que pode ser algo em torno do final do século 19 e começo do século 20, a nova trama de Duca Rachid e Thelma Guedes mistura, sem medo de ser feliz, cangaceiros que se movem em ritmo de cordel e nobres europeus que dançam conforme a valsa.
A história é inventiva, como um verdadeiro conto de fadas. E, muito adequadamente, é a primeira da emissora a ser gravada em 24 quadros por segundo, tipo de captação que confere textura muito próxima à da película de cinema – e que, consequentemente, demanda maior requinte de produção.
Após uma expedição para catalogar a flora dos trópicos, Zenóbio Alfredo (Guilherme Fontes) volta para Seráfia do Norte, para contar ao rei Augusto (Carmo Dalla Vecchia) que há no Brasil um tesouro escondido pelo fundador do reino, Dom Serafim. “Daí o nome do reino, Seráfia. O português Serafim justifica o fato de todos falarem português lá”, explica Duca ao Estado.
A notícia do tesouro leva o aventureiro rei Augusto ao Brasil, e junto com ele, boa parte da corte. A rainha Cristina (Alinne Moraes, em participação relâmpago), e a princesa Aurora (Bianca Bin), ainda bebê, vão viajar com a comitiva. Aurora, vale anotar, está destinada a se casar com o príncipe de Seráfia do Sul, Felipe (Jayme Matarazzo). É quando entram em cena os vilões: a Duquesa Úrsula (Débora Bloch), cunhada do rei Augusto, e seu mordomo, Nicolau (Luiz Fernando Guimarães). “Eles dão cabo da rainha e da princesa”, adianta Luiz Fernando (leia entrevista com o ator na página 6), sem deixar de rir. Ele é presença de destaque num elenco recheado de ilustres, como Matheus Nachtergaele e Zé Celso Martinez, que depois de décadas nas trincheiras do Teatro Oficina, faz sua estreia em novelas.
Em flor. E como princesa não é de morrer no começo da história, Aurora acaba sendo criada no sertão pelo casal Euzébio (Enrique Diaz) e Virtuosa (Ana Cecília Costa), numa cidadezinha chamada Brogodó, também fruto da imaginação das autoras. Seu nome é Açucena, flor delicada e carregada de simbolismos – como toda a novela, aliás. As cenas na corte de Seráfia foram gravadas no Vale do Loire, na França, e as de Brogodó, no sertão do Sergipe – duas locações tão lindas quanto distintas entre si.
Após um salto no tempo, encontramos a Açucena noiva do “bonito e bom” Jesuíno (Cauã Reymond), seu amigo de infância. Como ela, ele desconhece sua verdadeira origem: foi criado numa fazenda sem saber que é, na verdade, filho de um temido cangaceiro, Herculano (Domingos Montagner).
Do outro lado do oceano, em Seráfia, o rei Augusto ainda sofre com a morte da rainha Cristina e o desaparecimento de Aurora. Mas logo receberá a notícia de que ela está viva – e eis que uma nova comitiva se forma, rumo a Brogodó.
Contação. Está explicado, então, como Duca e Thelma vão unir nobreza europeia e reis do cangaço. Mas a afinidade entre esses dois mundos é muito maior do que pode parecer à primeira vista. “Acho que a história parece ousada justamente por propor um retorno, até mesmo a coisas que a própria Globo já fez”, diz Thelma ao lado de Duca, que cita novelas como Roque Santeiro (1985) e Saramandaia (1976). “Ela lembra também um conto de fadas, mas a nossa inspiração foi a literatura de cordel mesmo.”
As autoras contam que a história de Cordel Encantado vinha girando na imaginação delas há muito tempo, logo que acabaram de escrever o remake de O Profeta, em 2006. A sinopse chegou a ser apresentada, mas ficou para depois, porque a direção da Globo não estava querendo apostar em tramas de época. Foi quando as duas tiraram da cartola a ideia que se transformaria em Cama de Gato, novela das 6 de 2009, dirigida, não por acaso, pelos mesmos Ricardo Waddington e Amora Mautner que as acompanham mais uma vez agora.
Já o cordel entrou nessa história por, digamos assim, consequência. “A gente começou a pensar numa história fora da realidade. Fomos jogando os elementos, e depois pensamos ‘olha, que coisa nova, reis e rainhas vindo para o sertão e encontrando cangaceiros’”, detalha Thelma. “Mas logo nos tocamos de que isso já está nos cordéis há tempos. O próprio cordel não deixa de ser um conto de fadas. E a origem dele é europeia – o que aconteceu é que, chegando aqui, ele assumiu ares tropicais.”
Ao que parece, as autoras pretendem aproveitar a própria vocação da literatura de cordel que, como se sabe, trata de abarcar todo tipo de influência possível para contar histórias rimadas em versos, na hora de escrever a novela.
É por isso, por exemplo, que a heroína interpretada por Bianca Bin se chama Aurora, mesmo nome da princesa de A Bela Adormecida – que, lembre-se, foi criada distante do reino de seu pai, como plebeia, para fugir de uma maldição. Ainda dessa história vem o nome do Príncipe Felipe, herdeiro de Seráfia do Sul. A própria corte de Seráfia lembra os Romanov, da Rússia – Nicolau, o mordomo de Luiz Fernando Guimarães, leva o nome do czar deposto na revolução e a família Romanov, como se sabe, tem algumas lendas em torno de princesas desaparecidas que já renderam animações da Disney. Muitas vezes vamos ver a Duquesa Úrsula (Débora Bloch), linda demais em seus figurinos, e lembrar da madrasta da Branca de Neve.
“Trazemos também um pouco das histórias de capa e espada e dos folhetins de aventura. Bebemos na fonte da literatura universal, e teremos muitas histórias e personagens da literatura universal que vão aparecer e talvez sejam reconhecidos”, explica Duca. “Ou não… Se essas referências não forem reconhecidas, tudo bem, não faz mal”, diverte-se Thelma.
Patrícia Villalba/ RIO – O Estado de S.Paulo

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