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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Páscoa: além dos chocolates e do feriadão

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  • Artigo de Francisco Teloeken

Vivemos uma semana especial: para alguns cristãos, a semana santa, de reflexão e reverência pela paixão e morte de Jesus Cristo, culminando com a ressurreição, no domingo de Páscoa. Para outros, é apenas uma semana de feriadão, com muitas festas e viagens. Há quem ainda consegue conciliar interesses e obrigações religiosas com atividades mundanas. O comércio, por sua vez, talvez preenchendo o vazio existencial da humanidade, faz da data um motivo para grandes vendas.

A celebração da Páscoa é uma tradição mitológica e mística que precede o Judaísmo e o Cristianismo. Nesta mesma época do ano, povos antigos celebravam a passagem do inverno – estação de secas e privações – para a primavera – promessa de fartura com as colheitas. As religiões apropriaram-se da data com outros propósitos. Os judeus celebram a libertação, liderada por Moisés, do povo hebreu no Egito. Já para os cristãos, a data também celebra uma passagem: a da morte para a vida, com a ressurreição de Jesus Cristo.

A festa cristã associa a imagem do coelho e dos ovos pintados com cores brilhantes à Páscoa. Os ovos representam a luz solar e são dados a pessoas queridas como presentes – de preferência, feitos de chocolate! Já a origem do símbolo do coelho da Páscoa vem do fato de que esses animais são notáveis por sua capacidade de reprodução, e como a data significa renascimento, nada melhor do que o coelho para simbolizar a fertilidade.

Há muitos anos, a sexta-feira santa, em especial, era um dia de recolhimento, em que não se comia carne, fazia-se jejum, falava-se o estritamente necessário. Alguns pais evitavam repreender ou, até, castigar filhos por algum comportamento ou atitude inconveniente. Vivia-se, efetivamente, um dia de luto, lembrando a morte de Jesus Cristo. Hoje, a sexta-feira santa transformou-se num dia em que, para o almoço ou janta, prepara-se verdadeiros banquetes, à base de peixes e frutos do mar, tudo regado com um bom vinho. São novos tempos.

Durante o feriadão da semana santa – reforçado, neste ano, com o feriado de 21 de abril – milhões de pessoas aproveitam para viajar. Provavelmente, acontecerão gigantescos engarrafamentos, acidentes com carros, caminhões, ônibus, motos. Infelizmente, muitas mortes, também, enlutando familiares, amigos, colegas, cidades, numa rotina que está se tornando banal. Esses trágicos acontecimentos têm muito pouco ou nada mesmo de acidente: a maior parte deles é consequência de distrações, imprudências, prepotências e descumprimento de normas básicas de trânsito.

Em artigo de março de 2008, o brilhante cronista de Santa Cruz do Sul e região, Guido Kuhn, já falecido, dizia que a grande causa de todas essas mazelas que assolam a humanidade, hoje, é a ausência de Deus. Deus está sendo – quando ainda não foi de todo – dispensado das famílias, das escolas, das comunidades, enfim, da vida de cada um. Poderíamos acrescentar que não é só de Deus, tal qual o concebemos, no cristianismo, mas de outros seres superiores, seja que nome tenham, nos quais muitas pessoas acreditam.

Nossa sociedade parece estar em constante conflito, pois todos estão num processo de competição contínua, procurando derrotar o seu semelhante, com métodos, muitas vezes, condenáveis, pois existe a certeza da impunidade ou, então, em eventual discussão judicial, vai levar anos para ser resolvida. Infelizmente, o exemplo vem de cima, das pessoas que deveriam zelar pela ética. O relatório divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça, na última semana do mês de março deste ano, tornou público que o governo brasileiro (o Estado), representado por suas autoridades, pelas empresas privadas que controla direta e indiretamente, ao lado de instituições governamentais e dos poderosos bancos são os maiores réus das ações judiciais em trâmite no país – 89% –, o que os torna responsáveis, por conseguinte, pela existência dos milhões de processos que congestionam e prejudicam o trabalho dos tribunais. A tendência é piorar pois, como muitas obras previstas para os Jogos Olímpicos de 2014 e a Copa do Mundo de 2016 estão atrasadas, a saída é realizá-las a “toque de caixa”, sem licitação – “como o diabo gosta” –, o que, certamente, dará margem a tudo que é tipo de malversação de dinheiro público. Como diz Marcelo de Moura, “O Brasil não inventou a corrupção, mas tem a patente da impunidade”. Até pequenas autoridades não têm nenhum pudor em colocar familiares em peças publicitárias de eventos públicos, como se fossem atividades particulares. Já no antigo império romano, dizia-se que não bastava Cleópatra, a mulher de César, ser honesta; ela precisava parecer.

O grande momento da Páscoa, pelo menos para os cristãos, é, certamente, a ressurreição de Cristo, sem a qual a morte na cruz, depois de submetido, durante vários dias, a torturas físicas e psicológicas, não teria o mesmo sentido. Em sua dor, inimaginável para nós, tendo todos os motivos para estar revoltado, antes do último suspiro Cristo olha para o céu e diz: “Pai, perdoai a essas pessoas, elas não sabem o que fazem”. Peçamos ao Cristo ressuscitado que ilumine a todos nós, principalmente quem assumiu o compromisso de servir aos outros, que, se ainda não o faz, pautar sua conduta com base na ética. Independente da religião na qual acreditamos, recomeçar, hoje, com bom ânimo, com a mudança a partir de nós mesmos, confiantes em Deus, promovendo valores culturais e éticos, as atitudes e práticas da busca do bem comum, para quem sabe, no futuro, influenciar-nos, mutuamente, com bons exemplos, transformando para melhor este mundo.

Feliz recomeçar! Feliz libertar-se! Feliz Páscoa!

  • Francisco Teloeken é jornalista do site Gazeta do Sul

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