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sexta-feira, 19 de junho de 2026

“Nós pega o peixe”

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Do Grupo de Pesquisa FALE – Formação de professores, Alfabetização, Linguagem e Ensino UFJF

A sociedade brasileira tem participado, nos últimos dias,
de um debate incomum: Será mesmo escandaloso tratar os
fatos da língua a partir de metodologia científica? Dizer que
“os livro” e “nós pega o peixe” são estruturas existentes no
português do Brasil é proibido? E ainda: Deve ser também
proibido que a escola reconheça essa variedade linguística
utilizada pelos alunos como legítima e os leve a aprender a
correspondente da variedade culta, prestigiada?

O mais estarrecedor de toda essa questão é que,
enquanto se condena o dialeto de milhões de brasileiros a ponto
de se recomendar que ele continue excluído da reflexão na
escola, o que está sendo dito é que essa significativa porção da
sociedade brasileira não tem linguagem, porque ela,
simplesmente, não existe. Claro! Se nem pode ser reconhecida
na escola! Mas o homem não se constitui pela linguagem? Se
sua linguagem não é reconhecida, a que fica ele reduzido? Não
será isso uma violência? Por que o preconceito linguístico, de
efeito tão avassalador da autoestima dos alunos de nossas
escolas e mesmo dos que estão fora dela, não é condenado pela
Constituição Brasileira?

Repetimos o que, felizmente, já tem sido dito
amplamente, nesse debate: essa variedade linguística não
reconhecida tradicionalmente pela escola tem uma gramática,
com estruturas regulares. São variações que acontecem em toda
língua. O nosso português culto, todos sabemos, veio do latim
vulgar, assim como as demais línguas românicas. E esse
português culto, todos também percebemos, continua mudando.
No fundo, o que a atual polêmica revela é o incômodo
causado pelo reconhecimento desta verdade: a variedade culta
da língua sempre esteve ligada à dimensão de poder. Tentar
aproximá-la da variedade popular, mesmo que para uma
análise comparativa, como propõem as autoras do livro
didático em questão, constitui uma audácia imperdoável!

Felizmente, temos constituída, no Brasil, uma
competente comunidade científica para tratar das prementes
questões relativas ao tratamento adequado da linguagem na
escola. Esse debate em pauta mostra que estamos avançando
em direção à implementação de uma visão sociolinguística no
trabalho escolar com a linguagem. Pensamos que essa proposta
não tem mais volta…

Como participante deste importante debate nacional, o
Grupo de Pesquisa FALE, do NUPEL/Faculdade de Educação
da UFJF, manifesta seu apoio a todas as instituições brasileiras
– entre elas a ABRALIN e a ALAB – e colegas de trabalho que
têm se manifestado a favor do ponto de vista adotado pelas
autoras do livro didático “Por uma vida melhor”.

Profa. Dra Lucia Furtado de Mendonça Cyranka
Coordenadora do Grupo de Pesquisa FALE – Formação de
professores, Alfabetização, Linguagem e Ensino
NUPEL – FACED – UFJF
www.ufjf.br/fale

Colaboração: Jocimar Lomba

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