17/08/2011 09h22 – Atualizado em 17/08/2011 09h22
Sul 21
“A corrupção prejudica o governo em todos os sentidos, faz com que a máquina pública se torne ineficiente”. A frase, dita pela senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), pode parecer óbvia fora de contexto, mas ganha força na medida em que aumenta o tom de críticas à presidenta Dilma Rousseff por estar justamente agindo contra os supostos focos de corrupção no governo federal. Segundo os críticos, está faltando habilidade política a Dilma, de forma que a “faxina” pode provocar sérias rachaduras na base governista.
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A limpeza em ministérios como Transportes e Turismo provoca insatisfação em alguns partidos, como PR e PMDB, que estariam se sentindo perseguidos. Somado a outros desconfortos, o esforço de Dilma em mostrar austeridade pode dificultar o trâmite de projetos no Congresso – algo que pode começar a se consolidar com a decisão do PR de se manter “independente” em relação ao governo. Prova da inexperiência de Dilma, segundo os críticos – que lembram nomeações polêmicas, como a das atuais ministras Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti para dizer que negociar não é exatamente o forte da presidenta.
“A presidenta não ter disputado cargos eletivos (antes de 2010) não significa, de forma alguma, que ela não tenha capacidade de articulação”, diz o presidente nacional do PT, Rui Falcão.“As dificuldades atuais são naturais ao próprio funcionamento do parlamento. Há momentos de sístole e de diástole”. Para ele, algumas circunstâncias ampliam essa dificuldade, como uma “contenção momentânea” na liberação de emendas parlamentares.
Muitas conversas em Brasília
Na semana passada, Dilma convocou seu conselho político para discutir o andar da carruagem em Brasília. Estiveram presentes representantes de todos os partidos da base, além dos ministros Guido Mantega, Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann. Na segunda-feira seguinte, uma reunião com lideranças do PT e PMDB tentou aparar as arestas entre as duas principais bancadas do Congresso.
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), líder do PT na Câmara, garante que uma das principais questões junto à bancada peemedebista – as emendas parlamentares – está superada. Segundo ele, o governo apresentou um cronograma da liberação das emendas, que teria acalmado a base e diminuído o tom das críticas. Paulo Teixeira conta que Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB na Câmara, estava na reunião com Dilma e concordou com boa parte dos argumentos do Planalto. “A participação dele foi muito positiva”, diz Teixeira, que classifica a relação de Alves com Dilma na reunião como “afetuosa”.
O petista garante que a insatisfação do PMDB não guarda relação com o combate à corrupção dentro dos ministérios, nem mesmo com a atuação da Polícia Federal na Operação Voucher. Peemedebistas detidos durante a operação apareceram nos jornais, em fotos vazadas de dentro da Polícia Federal, o que enfureceu o partido. “O PMDB sabe que (o abuso da PF) não é da responsabilidade do governo federal. O governo pediu para apurar os abusos nesta operação, sejam praticados pela Justiça ou pela polícia que permitiu aquela foto”.
Grupo no Senado apoia faxina
Liderado por Pedro Simon (PMDB-RS), senadores iniciaram nesta segunda uma espécie de frente em apoio às medidas contra a corrupção. Segundo Ana Amélia Lemos (PP-RS), o movimento pretende dar “respaldo político” à atuação de Dilma. “Não se pode aceitar que o governo fique refém do fisiologismo e do jogo de interesses”, acentua. “Tem que promover essa faxina, tanto no Ministério dos Transportes quanto no Turismo e na Agricultura também”, afirma a senadora.
“Temos que garantir que a presidenta faça tudo que está ao seu alcance para combater a corrupção, esteja ela dentro ou fora dos ministérios”, reforça o senador Paulo Paim (PT-RS).
A frente parlamentar de apoio ao combate à corrupção deve promover, durante a semana, uma reunião com integrantes da comissão de Direitos Humanos do Senado. O encontro vai contar com a presença de representantes da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e União Nacional dos Estudantes (UNE). Em breve, o grupo no Senado deve receber apoio também entre os deputados federais, como revela Paulo Teixeira. “Aqui (Câmara) é igual ao Senado. A pauta do combate à corrupção é uma pauta nossa”.
Presidente do PT critica “argumentos de ocasião”
Rui Falcão acredita que grupos políticos, com o apoio de parte da imprensa, tentam “criar cizânia” a partir de comparações do governo Dilma com o de Luiz Inácio Lula da Silva. “Estão usando a postura dela contra a corrupção em duas frentes: ora positiva, dizendo que a presidenta está limpando a corrupção que o Lula deixou, ora negativa, dizendo que isso prejudicará a governabilidade. São argumentos de conveniências, de ocasião”, critica. “Se você tem uma denúncia de mau uso de recursos públicos ou de cobrança de propina, você tem que tomar uma atitude, independente dos partidos envolvidos. Isso nem é uma bandeira de governo: é uma obrigação e dever de qualquer agente público”.
O presidente nacional do PT admite que existem tensões, mas garante que elas estão se reduzindo. “Isso não configura crise”, acentua. “Mesmo porque não é do modelo político brasileiro dissolver alianças nas proximidades de uma campanha eleitoral”.
Paulo Paim é outro a garantir que as ações contra determinados ministérios não prejudicam a governabilidade. Ou, ao menos, que não deveriam. “Nenhuma base sólida de governo pode compactuar com o desvio de verbas públicas. Trata-se de um argumento absurdo”, ataca.
Para Ana Amélia, os problemas com a base podem ser solucionados se o governo adotar uma postura de “negociação respeitosa e altiva” – o que passaria, inclusive, por engolir a realização de CPIs. “O governo Lula encarou uma CPI duríssima como a dos Correios e seguiu governando. CPI não afeta a governabilidade, pelo contrário. Um combate efetivo à corrupção passa também por isso”, diz a progressista.
“Não existe a possibilidade de haver um racha na base, está fora de cogitação”, garante Paulo Teixeira. “A presidenta está conversando com todos os partidos. Já conversou com PMDB e PT. Vai ter um papo com PCdoB, PSB, PDT, e vai conversar com todos os partidos da base”.

