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sábado, 27 de junho de 2026

Discurso no Café com História – Por Hildebrando Campestrini

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Dentro da programação dos 111 anos de emancipação de Campo Grande, no evento Café com História, promovido pela prefeitura municipal, o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul pronunciou o seguinte discurso:

Preservar a alma das pessoas e das coisas Hildebrando Campestrini (Saudação no café com história, no dia 6 de agosto de 2010)

Exmo. Sr. Prefeito, dr. Nelson Trad Filho, Senhoras e senhores, especialmente os ex-prefeitos:

Convidado para dirigir-lhes a palavra, em nome dos associados do Instituto Histó-rico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (entre eles o dr. Wilson Barbosa Martins e o nosso prefeito, dr. Nelson Trad Filho), tenho o prazer de saudar a todos, dizendo-lhes que os campo-grandenses sempre foram competentes na escolha de seus dirigentes. Não é à toa que Campo Grande é esta bela, organizada e democrática cidade, que não tem favelas, com atendimento confortável na área da saúde, da educação, da infra-estrutura, da preservação de sua história. Acusam-na, alguns desavisados, que Campo Grande não tem identidade. De fato, embora tenhamos construído uma cidade-modelo, não conse-guimos definir sua identidade.

Não vou discorrer sobre a história da cidade, que os senhores conhecem melhor do que eu; não vou falar de seus avanços, que os senhores conhecem melhor do que eu; não vou comentar atuações, que os senhores conhecem melhor do que eu; não vou fazer declarações de amor à cidade e sua gente, porque fazemos todos os dias, com nosso trabalho, nosso empenho e, no caso dos associados do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, com nossa dedicação ao resgate e divulgação das personagens, dos eventos e dos entreveros que solidificaram nossa trajetória ao longo dos anos.

Permitam-me que volte ao assunto identidade para observar que a identidade cultural de uma cidade não se constrói em pouco tempo. É indispensável o correr da areia na ampulheta – séculos talvez; como são indispensáveis outros fatores, como o isolamento, o poder, a economia, influências de outras culturas (como é o caso, entre nós, da música paraguaia). Observe-se, ainda, que a cidade pode viver tranquilamente sem identidade própria. Aliás, não entendo por que tanta preocupação com esta tal de identidade para Campo Grande, uma cidade nova (há pouco centenária), mercantilista, prática, convergência de diversos povos (mineiros, gaúchos, paulistas, nordestinos, japoneses, árabes, libaneses e outros). Ela é bela, atrativa, aconchegante, exatamente por isso.

Parece-me mais importante do que o discutir esta tal de identidade (que podere-mos ou não definir ao longo do tempo) o preocupar-se com a memória, ou seja, com o registro sistemático de nossa caminhada. Cheira a culpa este proceder atabalhoado no resgate histórico, depois que documentos, personagens, fatos e fotos se diluíram na névoa do tempo. Mais: devemos perenizar, no meio físico (digital ou não), todas as manifestações e não tão só algumas, como este febre nacional de tombar imóveis e sítios, política que deve ser revista, porque acabamos por engessar prédios, não lhes agregando valor, ficando desocupados (ou subutilizados), frios, sem dizer nada – enfim, sem alma.

Porque as coisas devem ter alma, devem manifestar a alegria das gerações, a sua garra, a coragem, a determinação, a busca do seu destino. Como escreveu Virgílio: Até suas lágrimas, porquanto as coisas também derramam lágrimas – lacrimae rerum. Quem visita a casa de Cora Coralina, na cidade de Goiás, percebe, entrando pelos poros, todas estas sensações: como se Cora estivesse ainda ali preparando café, varrendo o quintal, conversando com os passarinhos, colhendo manga sabina, observando o rio escorrendo pelo muro, declamando seus versos.

Declare-se alto, sr. prefeito e atentos ouvintes, que Campo Grande tem uma história invejável, construída com amor e dedicação de tantos imigrantes e nativos. E todos os senhores têm tido participação ativa nesta construção, como prefeitos e como cidadãos. Não é dado, a quem quer que seja, que esta história se perca. Reconheça-se também, sr. prefeito e atentos ouvintes, que, de algumas décadas a nosso tempo, tem havido esforço do poder público no sentido de preservar nossa memória, que, em verdade, deve ser tarefa de todos.

Daí a insistência, até cansativa, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul: vamos registrar nossa história, para acumular experiência e articular a hereditariedade cultural. Porque memória é “o espaço da existência humana já vivida. São passos feitos, mas não desfeitos”. Neste sentido, o homem é memória.

Memória é o registro, passo a passo, de nossa caminhada. A caminhada do grupo, de cada família, de cada um de nós. Porque cada um de nós, mesmo que não admita-mos, tem importância nesta história, na realização de seu projeto, que é único no percurso da humanidade, com o dever de deixar eternizado o seu significado, porquanto, como escreveu Juvenal Arduíni, “viver é significar; não se morre quando se perde a vida, mas quando se perde o significado”. Significado que é, em outras palavras, a minha, a sua, a nossa história – a história de todo cidadão. Acrescente-se o que Paulo Coelho Machado repetia: As cidades são construídas pelos humildes e têm o seu rosto; cabe aos líderes, aos heróis, defendê-las; aos governantes, melhorá-las, como tão bem souberam e sabem fazer nossos prefeitos.

Assim, deixo, a todos os senhores, um convite muito especial: escrevam a própria história. Não é preciso publicá-la em livro; importa que fique a informação para os pósteros. Escrevam a genealogia da família: não uma genealogia de lápides de cemitério, em que está lançado o nome do falecido com a data de nascimento e de morte – informação fria, sem significado, como um rol de objetos que guardamos. Genealogia é registrar a história de nossos antepassados, por mais simples que tenha sido. Simples e heróica como a dos meus pais, por exemplo. Como a dos pais dos senhores, que não mediram sacrifícios e renúncias para que os senhoras e senhores estivessem aqui, hoje, competentes pelo conhecimento e sábios pela experiência. Histórias surpreendentes e ricas, como, por exemplo, a de Petronilha, que criou sozinha seus filhos, recolhendo material reciclável, percorrendo feliz e esperançosa, há mais de duas décadas, as ruas fervilhantes de Campo Grande, empurrando um carrinho de feira; como da baiana Ana Maria, que trilha as ruas da cidade, observando as árvores, vendo nelas figuras que não vemos, depreendendo delas histórias que não alcançamos.

Nesta empreita, contem com o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul.

Antes de finalizar, outro convite: precisamos valorizar mais nossa gente. Ao visitar Olinda, o guia estacionou numa rua estreita e, mostrando-me uma casa geminada, informou: Aqui mora Alceu Valença. Senti, na notícia, o orgulho daquele olindense, o orgulho de todos os olindenses, por terem, entre eles, um músico consagrado. Belo exemplo para nós, que precisamos valorizar nossos artistas, nossos intelectuais, nossos próceres. Quantos dos senhores são, para Campo Grande, mais importantes que o cantor para Olinda. No entanto, não é isso que nós sentimos, que testemunhamos. Não se constata, em Campo Grande, alguém parando na rua para mostrar com entusiasmo, a um visitante, a casa de algum artista, de alguém importante de nossa história. Hélio Serejo, o mais significativo de nossos escritores, morreu quase anônimo. Não há, nos city tour, uma visita sequer a entidades culturais, como Academias, Institutos Históricos, Colé-gios tradicionais, museus. Quando muito os turistas são levados a observar, na cidade, o paisagismo e a arquitetura. Elogiável a iniciativa. Não podemos, todavia, olvidar que são os seres humanos os insuperáveis artistas que constroem prédios, abrem ruas, edificam, que deixam em suas obras, como o escultor grego Fídias, a sua marca.

Não podemos, por fim, permitir que esses “passos feitos” de todo aquele que comunga (ou comungou) da construção de nossa sociedade, sejam desfeitos, apagados pelo esquecimento. Não podemos, porque esquecer “é perder-se, é cancelar parte da vida”. Ao reverso, escrever é ato de sobrevivência, de permanência, de imortalidade. Afinal, somos imortais pela palavra.

Cada um dos senhores tem o dever, o compromisso de escrever a própria caminhada (como fez em obra ímpar nosso associado Wilson Barbosa Martins), não por vaidade e, sim, para deixar na cálida palavra a própria experiência, certamente pedagógica para outras gerações. Temos que escrever. É compromisso ético.

Assim, em nome dos associados do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, ao cumprimentar cada campo-grandense na data do aniversário da cida-de, ao reconhecer a importância de cada um dos senhores na história de Campo Grande, conclamo-os a escrever: temos que tecer, juntos, temos que registrar, com sadia vaidade, a nossa história, como quem, irmanando todos os cidadãos, levanta um monumento eterno, de grandeza, de heroísmo, de beleza, de ética e de solidariedade. Aí cada um de nós poderá exclamar, exultante, como Horácio, numa de suas odes: Non omnis moriar – não morrerei de todo – porque boa parte de mim ficará, porque construí um monumento mais perene que o bronze.

Porque estaremos preservando a alma palpitante das pessoas e das coisas; preser-vando a sua memória – tão bela, rica e eterna, que, sem ela, não existiriam as artes, que dela fazem seu alimento.

Ao agradecer-lhe a honrosa atenção, não posso deixar de afirmar: é a memória escrita que nos enraíza no solo e no tempo, que nos liberta das trevas da escuridão e do esquecimento.

Hildebrando Campestrini (foto: Talitha Moya)

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