04/11/2011 09h32 – Atualizado em 04/11/2011 09h32
O progresso
Indígenas da aldeia Te Yikue em Caarapó amargam a falta d’água há pelo menos 40 dias. Como forma de chamar a atenção do poder público eles trancaram ontem a MS 280. Durante o protesto nenhum veículo passou pela estrada, que dá acesso às cidades de Laguna Carapã e Ponta Porã. Há 15 dias O PROGRESSO acompanhou de perto o dilema dos indígenas. A falta de água atinge mais da metade da aldeia, com população de quase cinco mil indígenas. O problema é mais crônico nas regiões conhecidas como Bopeí, Saverá e Bocajá. Nesta última as aulas da escola tiveram que ser reduzidas para meio período. Sem água não há como fazer merenda e os alunos não podem usar sanitários e matar a sede.
Os açudes da aldeia têm sido a alternativa das famílias indígenas para realizar as tarefas domésticas, como lavar roupa e louças, bem como tomar banho e beber água. Isso provocou nos últimos dias um surto de diarréia, conforme relata a professora indígena Renata Castelão. “As crianças sempre são as mais prejudicadas. Elas estão adoecendo e faltando as aulas. Previdências têm que ser tomadas com urgência”, disse ela.
A indígena ainda questiona a falta de médico em um dos dois postos de saúde da aldeia. “Com tanta criança e idosos doentes só temos um médico para atender quase cinco mil pessoas. O pior disso tudo é que os principais remédios estão em falta na farmácia do posto de saúde”, relatou.
Durante o protesto de ontem, crianças e jovens das escolas da aldeia mostraram cartazes com anúncios de indignação. Eles cobravam também o recurso de R$ 1,3 milhões liberados no ano passado para a construção de laboratório de ciências na escola Ivy Poty. A verba foi liberada simultaneamente com o recurso destinado a uma escola municipal da cidade de Caarapó. No município o laboratório está em fase de conclusão e na aldeia nem começou.
Alécio Soares Martins também é professor indígena. Segundo ele, a bomba que leva água para as cisternas não dá conta. “Ela é muito fraca. Chega até a encher a cisterna, mas aí não tem força para distribuir às residências”, disse. Ele leciona na escola Bocajá, região mais populosa e prejudicada da aldeia Te Yikue.
Por conta da falta d’água os indígenas estão perfurando poço, medida condenada pela Sesai, unidade responsável pelo abastecimento de água nas aldeias de todo o Estado. “Não temos outra opção”, disse Marcos Palácios”, que perfurou poço em sua casa. Hoje o coordenador da Sesai, Nelson Olazar, garantiu aos índios que estará pessoalmente na aldeia para resolver o problema da água.
O vereador indígena de Caarapó, Otoniel Ricardo (PT), disse que os problemas da aldeia já foram levados para todos os órgãos que atuam na assistência aos índios, como a Funasa, Sesai e Funai. “Estamos com muita dificuldade para resolver os nossos impasses”, questionou. Por conta disso documento será encaminhado ao Ministério Público Estadual. “Já fizemos um dossiê com todos os problemas que acontecem aqui na aldeia e que não são resolvidos. Um deles é o recurso para a construção do laboratório que até agora não saiu do papel”, disse o vereador.
ALIMENTOS
A última vez que a reportagem esteve na aldeia a reclamação sobre a qualidade dos mantimentos que integram a cesta básica indígena foi bastante questionada. O feijão da cor marrom escura é velho e nem sempre cozinha. Já o arroz é quebradiço, do tipo quirera. Ambos tem na embalagem o selo ‘Tipo 1’, que na teoria e prática demostra que o produto é de qualidade.

