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sábado, 13 de junho de 2026

Etiópia, a alma cristã da África Negra

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17/01/2012 07h56 – Atualizado em 17/01/2012 07h56

Fonte: Brasil 247

Visitar a Etiópia é como sair à caça de tesouros antigos. Aos que lá vão, o país promete muita aventura e sacralidade. Sobretudo na sua região norte, visitar a Etiópia é fazer uma viagem no tempo que começa à beira do imenso lago Tana – a nascente do rio Nilo Azul, com trinta e sete ilhas e vinte mosteiros escondidos na floresta – e continua na direção das cidades sagradas de Axum e Lalibela. Tudo para se descobrir as raízes do cristianismo mais antigo, que conseguiu sobreviver numa terra de deuses pagãos, entre igrejas escavadas nos rochedos, profusão de textos sagrados e um enorme repertório de mitos e lendas. Uma delas narra como foi que o filho do rei Salomão e da rainha de Sabá levou para a Etiópia a Arca perdida: a caixa que continha as tábuas que Deus deu a Moisés.

O filme “Caçadores da Arca Perdida”, da série Indiana Jones, fala exatamente disso: do famoso tesouro bem guardado pelos sacerdotes ortodoxos numa capela da cidade sagrada de Axum, quase na fronteira com a Eritreia. Ninguém pode entrar na capela, apenas o seu guardião. Dentro dela vive, quase recluso, um monge que beira hoje os 60 anos. Ele dedicou sua vida inteira, dia após dia, à vigilância da arca, fazendo apenas uma pequena pausa para comer. Foi escolhido entre muitos pretendentes, e depois dele será escolhido outro: como o anterior, terá de ser virgem e permanecer como tal, e estar disposto a queimar incenso diante da arca dia e noite, até o seu último dia de vida. O que é realmente a arca permanece um mistério. Dizem que é apenas um pedaço de madeira com inscrições antigas. Ninguém sabe ao certo. Inútil perguntar ao guia etíope que acompanha os visitantes: “É preciso ter fé”, ele responde.

Visitada Axum com os seus grandes mistérios, começa a tortuosa viagem para a segunda cidade sagrada do país, a famosa Lalibela. Ela possui nada menos de doze igrejas escavadas na rocha vermelha, sem muros, sem tijolos, sem pedras nem madeira. Dizem os fiéis que foram esculpidas com a ajuda dos anjos. Pouco se sabe a respeito da sua construção, a não ser que foram realizadas por vontade do rei Lalibela (1185-1225) que, depois da queda de Jerusalém em mãos não cristãs, quis construir uma nova cidade santa no planalto etíope. A viagem para Lalibela é longa, através do Tigrai, uma das regiões mais áridas da Etiópia.

No Tigrai existem cerca de 250 igrejas rupestres, feitas de rocha vermelha. Muitas só podem ser alcançadas com perigosas escaladas, ou fazendo-se alçar pendurado em uma corda, seguindo os sulcos deixados no rochedo pelos pés de milhares de monges e devotos. Caminha-se por muitas horas, antes de chegar-se à meta: quanto mais distante ela esteja, mais será sagrada a alma do mosteiro, informam os peregrinos. Até mesmo os mais idosos conseguem vencer os caminhos de pedra como se fossem gazelas. Levam consigo uma longa echarpe branca – que lhes servirá de coberta durante a noite – e um tipo de jarra de metal amarelo, para conter a água sacra que lhes será servida no interior do templo. Ela servirá para a purificação do corpo e do espírito depois do batismo, a imposição da cruz e as orações dos sacerdotes. A purificação com abluções de água sagrada (que deve também ser bebida) é costumeira entre os ortodoxos e destina-se a curar quem está doente ou liberar os pecadores do seu fardo de culpa.

Uma vez alcançada Mekele, a capital da região do Tigrai, começa a tortuosa subida para Lalibela (situada a 2700 metros). Lalibela era praticamente inacessível no passado recente. São dez horas de caminhada ascendente, subindo e descendo os sendeiros de uma das cadeias de montanha entre as mais imponentes da África. É preciso atravessar enormes extensões de terras altas, pontilhadas aqui e ali por campos de trigo. Lalibela é um museu a céu aberto. A cidade é protegida pela Unesco, fazendo parte da lista do Patrimônio da Humanidade. Nas últimas décadas foi construída uma cidadezinha para as famílias que vivem na área onde estão as igrejas.

Igreja de Bet Amanuel, em Lalibela. Como todas as centenas de templos cristãos da região, foi esculpida num único bloco de rochedo

A viagem é cansativa, mas cheia de surpresas. Ao longo da estrada crianças maltrapilhas oferecem caldo de cana de açúcar e punhados de ervilhas frescas recém tiradas das vagens. Cobertos pela poeira vermelha que o vento leva, os locais acolhem os turistas com largos sorrisos. Gritam, agitando as mãos, e acenam do alto das montanhas onde cuidam das suas vacas e ovelhas. Outros, jovens, caminham horas e horas para chegar às escolas, carregando os cadernos sob os braços. A educação parece ser uma das maiores preocupações do atual governo etíope, que criou diversas instituições de ensino inclusive nas áreas rurais mais distantes. Mães, filhas e avós caminham curvadas sob o peso de grandes feixes de lenha que carregam nas costas. Também aqui a vida das mulheres não é fácil.

Igreja de São Jorge, em Lalibela. Escavada na rocha viva

Como em tudo na África, o movimento está sempre presente. A não ser no território das dozes catedrais de pedra de Lalibela, a Jerusalém da Etiópia. Ali, o tempo para. Antes de entrar, os fiéis tiram os sapatos, beijam repetidamente os batentes da porta de entrada, fazem o sinal da cruz e rezam, alguns apoiados num bastão, outros ajoelhados, todos seguindo os ritmos marcados pelos tambores sagrados. Pequenos gestos acompanham rituais antigos, que se repetem sem alteração de geração em geração. Na Etiópia os tempos bíblicos chegaram até os nossos dias.

Etiópia, a alma cristã da África Negra

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