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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Deixem-nas competir

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13/07/2012 07h59 – Atualizado em 13/07/2012 07h59

Fonte: Agência Brasil

O Comitê Olímpico da Arábia Saudita anunciou, através do site da embaixada saudita em Londres, que, pela primeira vez, vai permitir a participação de mulheres nas Olimpíadas. Apesar do ineditismo, a permissão tem pouco efeito prático. A mesma tradição fundamentalista islâmica que impede as mulheres sauditas de saírem sem uma companhia masculina, exibir em público mais do que seus olhos e mãos, dirigir ou votar, este último um direito que só poderão exercer a partir de 2015, e desde que tenham permissão de um homem da família, também torna a prática de esportes entre elas um verdadeiro tour de force.

O “sim, elas podem” do rei Abdullah, abrindo as portas de Londres às atletas sauditas, a apenas cinco semanas do início dos Jogos, foi recebido como um avanço para as mulheres que lutam contra o poder dos clérigos ultra-conservadores decididos a mantê-las longe da prática esportiva. Para elas, embora a autorização não possa ter consequências práticas imediatas, ela carrega uma forte carga simbólica, de esperança quanto ao futuro.

“Acho que é uma vitória para as atletas sauditas e espero que sirva para promover o esporte entre as mulheres na sociedade”, comentou, em entrevista à Reuters, Lina Al-Maeena, co-fundadora do Jeddah United Sports Company, um dos raros clubes de esportes que admite mulheres e que tem um time feminino de basquete. Para Al-Maeena, um dos grandes desafios é “combater o estereótipo de que a prática de esportes entre mulheres é anti-religiosa ou imoral”.

A permissão do monarca também foi uma conveniente resposta política às pressões de grupos de defesa dos direitos humanos e do próprio Comitê Olímpico Internacional (COI), que ameaçava banir a Arábia Saudita da competição por discriminação de gênero, o que vai contra os princípios fundamentais dos Jogos. A Human Rights Watch (HRW), que lidera a campanha “Let them Play” (Deixem-nas competir), recebeu a decisão como “um importante passo adiante, mas insuficiente para lidar com as barreiras sistemáticas impostas às desportistas no reino”.

A saudita mais cotada para ir a Londres, a jovem amazona Dalma Rushdi Malhas, não conseguiu se classificar para as competições de hipismo. Sem Dalma, são mínimas as chances de que haja uma representante feminina na delegação olímpica saudita. Não há educação física nas escolas públicas para as mulheres. Em 2009 e 2012, uma decisão do governo obrigou o fechamento de clubes e ginásios para mulheres. Aquelas que conseguem se dedicar a algum esporte fazem-no por conta própria, sem qualquer incentivo ou estrutura oficial, o que torna a qualificação para competições de alto nível simplesmente inviável.

Dalma foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2010, em Cingapura, mas é um caso à parte. Filha de um multimilionário e neta do escritor palestino Nabulsi Rushdie Malhas, Dalma nasceu em Ohio, nos Estados Unidos, e tem cidadania saudita. A jovem, de 20 anos, olhos azuis e longilíneas curvas, pouco tem a ver com a realidade da maioria das jovens sauditas amantes dos esportes. Quando ganhou seu bronze, Dalma disse não se importar em representar a Arábia Saudita, e que esperava que sua medalha servisse de incentivo às sauditas. Seria heróico, o feito, não fosse a grande ironia.

A autorização do Comitê Olímpico da Arábia Saudita veio com recomendações, entre elas a de que as atletas que eventualmente venham a se classificar para Londres usem roupas que “preservem sua dignidade” e um “hijab esportivo” para cobrir o cabelo durante as competições. Nada que as jogadoras de basquete do Jeddah United ou as meninas que jogam futebol no Kings United já não conheçam. Reema Abdullah, capitã do time, também luta pelo fim dos estereótipos. “Desde que não haja homens ao redor e usemos roupas adequadas, não deveria haver nenhum problema”, disse à Associated Press.

O que causa espanto são as razões alegadas pelas principais autoridades religiosas para manter as mulheres afastadas da prática esportiva. Os clérigos ocupam altos cargos no governo e seu poder sempre serviu de base de apoio à família real. A sharia, baseada no Corão, livro sagrado dos muçulmanos, é o código jurídico de Estado na Arábia Saudita. Segundo a HRW, a religião não é um impeditivo para a prática de esportes entre as mulheres, mas, sim, a política. Os clérigos, defende a organização, vêem “perigos” na permissão e incentivo oficiais, porque eles teriam repercussões nas tradições islâmicas sauditas.

“Abrir a prática esportiva para meninas e mulheres vai levar à imoralidade”, disse um estudioso da tradição islâmica saudita ao HRW, refletindo o pensamento ortodoxo que impera no reino. Outra noção bastante disseminada na sociedade saudita, segundo a HRW, é a de que “uma vez que as mulheres comecem a se exercitar, elas vão querer abrir mão de roupas modestas, vão querer passar tempo fora de casa sem necessidade e terão mais possibilidades de se misturar aos homens”.

Em 2009, um alto clérigo muçulmano saudita chegou a afirmar que era contra mulheres no esporte porque a prática as colocava sob risco de romper o hímen e perder a virgindade.

O que as sauditas esperam é que o “sim” de seu monarca venha acompanhado de mudanças na sociedade, que permitam à Arábia Saudita desenvolver o potencial de suas atletas. Só assim elas poderiam competir nacional e internacionalmente, com uma estrutura e uma agenda, como qualquer outro atleta, e ter condições para lutar pela classificação em competições de alto nível como as Olimpíadas.

Em março, quando autoridades sauditas se reuniram com representantes do COI para discutir Londres, Al-Maeena falou à CNN sobre estas expectativas: “Neste momento, o que a gente precisa é levar o esporte para as mulheres em nível nacional, integrar a prática nas escolas públicas e só, então, talvez, competir em nível regional antes de a gente sequer pensar em uma olimpíada.” E concluiu: “Temos um longo caminho a percorrer”.

Catar e Brunei, que também nunca enviaram mulheres às Olimpíadas, já anunciaram que terão representantes femininas entre seus competidores em Londres. Mas, ao contrário da Arábia Saudita, ambos têm atletas com índice olímpico.

Competirão em Londres, pelo Catar, a atiradora Bahiya Al-Hamad, de 19 anos, e as nadadoras Nada Mohammed Wafa Arakji e Noor Al-Malki, de 17 anos. O Brunei enviará apenas dois atletas aos Jogos, um homem e Maziah Mahusin, que compete na corrida de obstáculos, 400m.

“Vamos assistir às Olimpíadas de Londres e torcer pelos nossos homens competindo lá, esperando que, um dia, possamos torcer também pelas nossas mulheres”, disse Abdullah. “Quando as mulheres sauditas tiverem a chance de competir por seu país, elas erguerão a bandeira tão alto”, completou a técnica do Kings United. “As mulheres podem conquistar muito, somos muito talentosas e loucas por esportes”.


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