28/08/2012 16h00 – Atualizado em 28/08/2012 16h00
Fonte: Acrissul
Instituições como a Embrapa Agropecuária Oeste, com sede em Dourados, e a Canavialis, braço de pesquisas no setor sucroenergético da Monsanto, estão desenvolvendo em Mato Grosso do Sul estudos sobre o uso do sorgo sacarino como matéria-prima para a produção de etanol. No estado, o chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agropecuária Oeste, Guilherme Lafourcade Asmus, disse ao Agrodebate que as pesquisas com o sorgo sacarino começaram na safra passada, avaliando a cultura na reforma de canaviais em Sonora e Dourados.
Ele diz que o objetivo é que a cultura não seja uma competidora ou uma substituta da cana, mas uma matéria-prima complementar para a produção de etanol. “Em comparação com a cana, o sorgo tem ciclo curto [100 a 120 dias da semeadura a colheita], o que possibilita sua produção em áreas de reforma de canaviais, com colheita em fevereiro ou março, quando não existe disponibilidade de cana madura, ou mesmo em abril, permitindo que a cana seja colhida em maio, com maior quantidade de açúcar acumulado.
Dessa forma se pode diminuir a ociosidade industrial e aumentar a produção total de etanol sem a necessidade de expansão da fronteira agrícola”, explica ele. Entretanto, Asmus, lembra que ainda não existe um sistema de produção definido para o sorgo sacarino em diversas regiões do país, incluindo Mato Grosso do Sul. “Os resultados das observações feitas nos campos experimentais não permitem que se façam recomendações generalizadas de plantio. Pelo contrário, essas experiências serviram para alertar e direcionar a pesquisa para alguns entraves agronômicos. Além disso, o sorgo sacarino ainda não faz parte do zoneamento agrícola de risco climático para o estado, o que torna seu plantio uma atividade sujeita a riscos”.
O chefe adjunto da Embrapa Agropecuária Oeste lembra que o sorgo sacarino tem ainda outras desvantagens em relação a cana. Por exemplo, tem uma produtividade menor. De acordo com ele, cultivares de sorgo, em boas condições de solo e clima, podem atingir a produção de até 40 toneladas por hectare, contendo açúcares suficientes para o processamento de 3 mil litros de etanol.
Já a produtividade da cana é o dobro, cerca de 70 a 80 toneladas por hectare, que podem resultar em até 7 mil litros do biocombustível. Outro aspecto destacado por Asmus é a diferente composição do caldo do sorgo sacarino. “O sorgo é ótima matéria-prima para a fermentação alcoólica, mas ao contrário do caldo da cana, não serve para a produção de açúcar. Por essas e outras razão é que nas regiões produtoras de cana não se pretende que o sorgo sacarino a substitua”, afirma. Asmus diz que outra unidade da Embrapa, a Milho e Sorgo, sediada em Sete Lagoas (MG), trabalha há algum tempo em um programa de desenvolvimento de variedades de sorgo sacarino com alta produtividade de açúcares totais recuperáveis e já desenvolveu duas variedades que estão sendo testadas. “Atualmente já estão disponíveis duas variedades, que estão sendo avaliadas em condições de campo, em parceria com algumas usinas.
Outras duas variedades estão em fase de lançamento”, revela. Quem também investe nas pesquisas sobre o sorgo sacarino além das instituições públicas é a iniciativa privada. A Monsanto, por exemplo, desenvolve projeto relacionado a cultura desde 2004 e reforçou as pesquisas com a aquisição da Canavialis, em 2008. Em Mato Grosso do Sul, segundo o líder de negócios da Canavialis, José Carlos Carramate, foram cultivadas com híbridos de sorgo da companhia áreas de três usinas sucroenergéticas, nos municípios de Nova Andradina, Caarapó e Ivinhema. “Ainda existem campos de experimentação também em usinas de Sonora e Dourados e dois campos experimentais propriedades de Dourados”, explica. Carramate diz que a área cultivada comercialmente com sorgo no estado com híbridos da empresa chegou a 800 hectares, que atingiram uma produtividade média de 35 toneladas por hectare, resultado em uma produção estimada de 1,2 milhão de litros de etanol. “Os resultados experimentais mostraram significativo ganho de produtividade.
Assim dois novos híbridos de sorgo sacarino estão sendo lançados comercialmente nesta safra visando melhorar o potencial de produção e a interação dos mesmos com os diferentes ambientes de produção. O CV 568, apresenta ganho de produção de açúcar 9% superior aos padrões e é voltado para ambientes desfavoráveis. Já o CV 198 tem ganho de produção de açúcar de 15% e está posicionado para ambientes favoráveis”, aponta. Carramate diz que a companhia trabalha agora em duas frentes em relação ao sorgo.
A primeira é focada em melhorias agrícolas para aumentar a produtividade. Nesta vertente as ações são direcionadas para aprimorar o manejo agrícola da cultura, pesquisar e desenvolver híbridos mais produtivos, além de melhorar os processos de colheita. A segunda está relacionada a melhorias industriais do processo, como por exemplo, o uso de enzimas que possibilitam a colheita da planta inteira e geram um rendimento industrial adicional. As melhorias industrias, conforme ele, também se estendem ao processo de moagem e ao uso do bagaço gerado. O líder de negócios da Canavialis diz que a empresa acredita que as usinas ainda estão em fase de aprendizado sobre a cultura. “Quando estas dúvidas sobre os processos agrícola e industrial forem sanadas o mercado do sorgo sacarino como complemento a cana crescerá exponencialmente”, prevê.
O diretor da Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), Isaías Bernardini, também acredita no potencial do sorgo como complemento a cana. “É uma boa opção para iniciarmos a safra mais cedo e para fazermos a rotação de cultura no processo de renovação dos canaviais, mas ainda precisa de mais pesquisas na área agrícola, principalmente para desenvolver variedades mais produtivas e aprimorar o manejo agrícola”, analisa. Incentivo O Plano Agrícola e Pecuário 2012/2013 anunciado pelo governo federal no fim de junho abriu pela primeira vez uma linha de financiamento voltada especificamente para o cultivo do sorgo sacarino. Com recursos de R$ 270 milhões, o objetivo é incentivar o cultivo de até 100 mil hectares da cultura, principalmente na região Centro-Sul do país, o que garantiria uma oferta adicional de etanol no período de entressafra de aproximadamente 300 milhões de litros.
Na época do lançamento do plano, o secretário de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Geraldo Fontelles, disse que para o país é estratégico que fontes potenciais de geração de agroenergia sejam fortalecidas e estimuladas, o que contribuirá para a diminuição da volatilidade de oferta e de preços do etanol no período de pós-colheita da cana.

