18/04/2019 10h56

Culinária paraguaia é tradição na Semana Santa em Amambai


Fonte: Redação

 
Dona Bernarda assa a chipa e a sopa em forno de barro.
Foto: Moreira Produções Dona Bernarda assa a chipa e a sopa em forno de barro.
Foto: Moreira Produções

Amambai (MS)- Brasil e Paraguai, na região de fronteira, no sul de Mato Grosso do Sul, são povos irmanados pela história, famílias, religião e por diversas manifestações culturais. A culinária tem forte presença dentre essas manifestações.

Em Amambai, onde há um bom número de famílias ou de descendência paraguaia a influência do país vizinho é forte. Especialmente na Semana Santa, essas famílias mantêm as tradições de seus pais e avós. A Semana Santa é uma tradição religiosa católica que celebra a Paixão, a Morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Ela se inicia no Domingo de Ramos, que relembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e termina com a ressurreição de Jesus, que ocorre no domingo de Páscoa.

Bernarda Almada Pavão, nasceu em 1942, em Amambai. Na região da Fazenda Mirim. Filha de paraguaio e brasileira. Mãe de seis filhos, viúva, mora com a caçula, Iolanda.

Em sua casa, nesta quarta-feira (17), ela, seus netos e a amiga Lúcia preparavam a chipa, uma espécie de biscoito, que também pode lembrar um pão de queijo, e é tradicional na culinária Paraguaia. Com consistência e sabor próprio, em geral, o preparo de sua massa requer polvilho, gordura, queijo ralado, ovos e sal.

 
A chipa é assada em folhas de bananeira para não sujar dentro do forno de barro.
Foto: Moreira Produções A chipa é assada em folhas de bananeira para não sujar dentro do forno de barro.
Foto: Moreira Produções

Receita de chipa da dona Bernarda

Dona Bernarda dá sua receita de chipa: "No polvilho, tem que botar três / quatro dúzias de ovos, depois um quilo de gordura, dois quilos de queijo e dois litros de leite." As chipas, cortadas em pedaços, são assadas em forno de barro, envoltas em folhas de bananeira. "Para não sujar", diz ela.

Lucia Ajala explica que a tradição vem da mãe e da avó.

Junto estão os netos de dona Bernarda – os irmãos Rodrigo Rafael Almada Kaiser e Ísis Rafaelli Almada Kaiser e Kenyt Gustavo Almada Marquetti; este fala orgulhoso que já sabe fazer pão. Todos fazem questão de dizer que participam da tradição ‘desde pequenos’. Os três têm entre nove e 10 anos.

 
A tradição dos pais e avós é mantida e promovida ente os netos.
Foto: Moreira Produções A tradição dos pais e avós é mantida e promovida ente os netos.
Foto: Moreira Produções

Dona Bernarda fala que espera a neta que vem de Naviraí nesta quinta-feira, considerado dia santo nesta semana que antecede a Páscoa. E é no dia da chegada da neta que o grupo preparará a sopa paraguaia, outra iguaria da culinária paraguaia.

A chipa e sopa paraguaia são compartilhadas com os familiares e amigos.

 
Dona Joana explica que prepara a sopa paraguaia com milho cateto, com os grãos fervidos anteriormente e moídos.
Foto: Moreira Produções Dona Joana explica que prepara a sopa paraguaia com milho cateto, com os grãos fervidos anteriormente e moídos.
Foto: Moreira Produções

A sopa paraguaia

Sopa paraguaia é um bolo de milho salgado muito consumido no Paraguai e Mato Grosso do Sul. É considerado o prato tradicional do Paraguai. Além do milho ralado, ingredientes como o leite, óleo, queijo em abundância e cebola tornam este um prato delicioso, assado em forno comum ou de barro.

Tradicionalmente, este prato é preparado com o milho cateto, um milho duro, intensamente colorido de laranja.

"As minhas avós, o meu pai, a minha mãe seguiam esta tradição"

Também encontramos Euzébia Durand Delosanto e Gina Aguirre preparando a chipa. Elas, como dona Bernarda, moram na vila Limeira, em Amambai.

 
Euzébia Durand Delosanto (D) e Gina Aguirre preparam a chipa
Foto: Moreira Produções Euzébia Durand Delosanto (D) e Gina Aguirre preparam a chipa
Foto: Moreira Produções

Euzébia fala dos ingredientes da chipa: polvilho doce, queijo, ovos, óleo, qualhada e nata de leite. Ela diz que seus pais também faziam chipa e sopa paraguaia na Semana Santa. "A gente já se criou neste ritual". (...) Esta chipa é para a gente convidar quem vem."

A tradição envolve todo o significado da Semana Santa. Prepara-se a chipa e a sopa paraguaia com antecedência para se preservar a quinta e a sexta-feira santas. Esses dias são de reflexão, silêncio e luto pela crucificação de Jesus Cristo. "E amanhã [quinta-feira] e sexta-feira não faz nem fogo; não pode acender nem fogo. As minhas avós, o meu pai, a minha mãe seguiam esta tradição."

85 anos e muita vivacidade

Dona Joana Villamaior nasceu em 1934. É mãe de 13 filhos, 10 vivos. Sua idade e estatura física miúda não revelam a mulher lúcida e ativa que é. Ela é moradora da vila Jardim Panorama, em Amambai.

Dona Joana também cultiva as tradições paraguaias da Semana Santa. Chipa e sopa paraguaia não faltam em sua casa nesta época do ano. Ela é mais criteriosa ainda, fabricou seu forno onde assou esses dois alimentos, que serão igualmente, a exemplo de dona Bernarda e dona Euzébia, compartilhados com filhos, netos e amigos.

 
Dona Joana Villamaior: 85 anos de tradição da cultura paraguaia na Semana Santa.
Foto: Moreira Produções Dona Joana Villamaior: 85 anos de tradição da cultura paraguaia na Semana Santa.
Foto: Moreira Produções

“Eu fiz o forno, para assar hoje [quarta-feira] a chipa e quinta-feira a sopa; para sexta-feira santa não fazer nada; apenas para comer a chipa."

— Joana Villamaior

Receita de sopa paraguaia da dona Joana

Joana Villamaior dá sua receita de sopa paraguaia. "Eu faço o bolo assim [milho cateto em grãos, pré-cozido, depois mói, mistura água, com a mão, faz bolos pequenos], e asso, depois eu vou tirando assim e vou cortando cada camada. Então faz o molho de cebola na banha e põe uma camada daquele bolo que cortei e em cima ponho uma camada do molho de cebola e outra camada o queijo. E vou pondo assim. Aí depois eu bato ovos, ponho um pouquinho de polvilho junto e ponho em cima destas camadas de massa, queijo e molho de cebola."

 
O forno foi feito por ela mesma com ajuda do filho José Domingos.
Foto: José Domingos Lima Filho O forno foi feito por ela mesma com ajuda do filho José Domingos.
Foto: José Domingos Lima Filho

Ela valoriza a tradição. "Espero que o dia que eu morrer meus filhos continuem a tradição. (...) A minha avó que me criou fazia isso. Os homens faziam o fogo no fundo, e ela preparava", fala ela. Dona Joana explica ainda que antigamente as crianças amassavam mandioca já cozida para acrescentar à massa de polvilho da chipa. E a gordura utilizada era a banha de vaca.

Dona Joana é viúva de Hermenegildo Lima, conhecido por seu Melé, funcionário da Prefeitura de Amambai por cerca de 35 anos, doador de terras onde hoje está, entre outras edificações, a vila dos Cabos do 17 RC Mec.

 
O bolo para o preparo da sopa paraguaia: milho cateto em grãos, pré-cozido, moído, misturado com água com a mão e moldado em bolos pequenos.
Foto: José Domingos Lima Filho O bolo para o preparo da sopa paraguaia: milho cateto em grãos, pré-cozido, moído, misturado com água com a mão e moldado em bolos pequenos.
Foto: José Domingos Lima Filho

O Paraguai

Com uma geografia privilegiada, de extensas planícies o Paraguai, país vizinho, é uma país de terras férteis e uma produção agrícola que abastece o mercado interno e externo. Dentre as principais culturas está o milho.

Com investimento em tecnologia, os produtores produzem o suficiente para alimentar 20 milhões de pessoas, muito além dos 7 milhões que habitam o Paraguai.

O milho e a mandioca estão para os paraguaios assim como o arroz e feijão, para os brasileiros. A chipa e a sopa paraguaia são dois dos alimentos produzidos a base de mandioca e de milho; muitos outros são consumidos pelos paraguaios.


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