25/10/2020 09h30
Vacina oral previne contra a paralisia infantil e é a principal da campanha de atualização de cadernetas promovida pelo Ministério da Saúde em 2020.
Fonte: Raquel Drehmer / Bebê
Da virada para o século 21 até o triênio 2013-2015, a vacina contra a poliomielite era presença garantida nas cadernetas de vacinação infantil no Brasil. Sua cobertura sempre chegava a 100% ou a algo muito próximo disso. De 2016 em diante, no entanto, essa porcentagem vem caindo, até chegar ao ponto de ficar na casa dos 70% na média nacional em 2019.
Em 2020, o Ministério da Saúde quer reverter esse quadro. Apesar do atraso causado pela pandemia de Covid-19, a campanha de vacinação nacional está focada, ao longo de todo o mês de outubro, em atualizar as cadernetas e chegar à meta de 95% de cobertura da vacina contra a poliomielite, doença que causa a paralisia infantil.
Mas por que a adesão às gotinhas contra a pólio caiu tanto? Conversamos com Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), e Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), para entender esse fenômeno e também para saber exatamente quais são os riscos que as crianças e a sociedade correm por causa da falta de vacinação.
Uma doença “do passado”
Cunha e Kfouri afirmam que o maior problema em relação à adesão à vacina contra a poliomielite é ela ser considerada, por muitos, uma doença do passado, algo que não existe mais (embora ainda exista – não no Brasil, mas em outros países).
Além disso, fatores como a dificuldade de levar as crianças às UBSs em horário comercial, a eventual falta de vacinas e as fake news dificultam. Mas, como bem coloca Kfouri, “nada disso teria importância se as pessoas tivessem medo da doença, soubessem os males que ela pode causar”.
“Existe a falsa segurança quanto às doenças que nunca foram vistas. O último caso de pólio no Brasil foi em 1989, e tem pais que nem eram nascidos naquele ano. Como a doença não acontece mais no nosso meio, muitos têm a impressão de que não precisam mais vacinar seus filhos”, observa Cunha.
Mas precisam. A poliomielite tipo 1 ainda ocorre no mundo e, mesmo com muitas fronteiras temporariamente fechadas devido à pandemia, há sempre o risco de ela “viajar”. Até setembro deste ano, os dois países em que a doença ainda é endêmica registraram 204 casos: 147 no Paquistão e 57 no Afeganistão, como conta o presidente da SBIm.
Vírus vacinal: perigoso, mas não no Brasil
Em alguns países que ainda usam na vacina contra a poliomielite o vírus tipo 2 vivo atenuado – na África e na América do Sul –, foram registrados nos últimos anos casos de poliomielite justamente do tipo 2.
O chamado “vírus vacinal” é tão perigoso quanto raro: 1 caso para cada milhão de habitantes. Mas no Brasil não há motivo para preocupação, já que a vacina produzida e distribuída por aqui usa vírus mortos.
Entenda melhor a poliomielite
A poliomielite é uma doença causada pelo poliovírus, que entra no organismo pelas vias aéreas e pela boca (em alimentos e água contaminados) e é eliminado pelas fezes (que causam a contaminação). A transmissão se dá especialmente em ambientes de baixa higiene e saneamento básico inadequado.
Seus sintomas são semelhantes aos de uma gripe ou infecção intestinal e suas consequências, devastadoras. Kfouri explica: “A poliomielite causa paralisia aguda e atinge especialmente os membros inferiores, podendo chegar aos braços e até aos músculos respiratórios e deixando sequelas para toda a vida”.
Isso porque as inflamações causadas pelo poliovírus são irreversíveis. Quem tem paralisia infantil costuma perder o domínio dos músculos de uma das pernas ou de um dos braços. Os casos mais graves são os respiratórios, em que a intubação se faz necessária.
Não existe tratamento ou remédio para o vírus da pólio. O que se faz é esperar ele sair do organismo naturalmente e, então, cuidar das sequelas.
Vacinação contra poliomielite no Brasil
Em nosso país, a imunização contra a poliomielite é aplicada em cinco doses: três injetáveis (aos 2, 4 e 6 meses de vida) e dois reforços com a famosa gotinha (aos 15 meses e aos 4 anos).
Na campanha de 2020, todos que não tiverem tomado as cinco doses poderão colocar a caderneta em dia, independentemente da idade. Também é possível receber doses de vacinas contra outras doenças que estejam faltando para completar o calendário de imunização recomendado no Brasil.
“A vacina é segura, eficaz e gratuita. Temos que estimular e valorizar a vacinação, lembrar que ela não é uma proteção apenas para o seu filho, mas para o coletivo – quanto mais pessoas vacinadas, menor o risco de o vírus voltar a circular no Brasil. É um ato de amor e de cidadania”, resume Cunha, da SBIm.
É seguro ir à UBS para tomar vacinas em plena pandemia?
Sim. Mesmo durante a pandemia de Covid-19, é absolutamente seguro ir à UBS mais próxima de sua casa para vacinar seus filhos nesta campanha e também fora dela. O protocolo de segurança e higiene colocado em prática pelo Ministério da Saúde considera medidas para garantir o distanciamento, evitar aglomerações e controlar infecções por meio do uso obrigatório de máscaras, luvas e demais equipamentos de proteção.
A coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Francieli Fantinato, esclarece que “as medidas visam a segurança dos trabalhadores da saúde e da comunidade”. Ela ressalta ainda que “as vacinas precisam estar em dia para reduzir a probabilidade de surtos de doenças como febre amarela e sarampo, assim como a mortalidade de grupos vulneráveis”.
Convenhamos: no meio de uma pandemia, a última coisa de que o Brasil precisa é um surto de doença evitável por vacina, não é mesmo? Saiba como manter a caderneta em dia mesmo em tempos de coronavírus.

