06/11/2011 07h00 – Atualizado em 06/11/2011 07h00
Revista Oasis
Em 2 segundos, o tempo de ler o título desta reportagem, a população do planeta terá aumentado de mais quatro pessoas. A cada segundo, com efeito, na face da Terra são registrados 4,17 nascimentos e 1,80 mortes, com um crescimento líquido de 2,37 pessoas. A cada ano, a população mundial cresce de quase 75 milhões de indivíduos. Agora chegamos aos 7 bilhões, segundo os cálculos de várias instituições especializadas, entre elas o Usa Population Reference Bureau. Uma corrida que parece não ter parada, embora a taxa anual de crescimento global tenha na verdade diminuído: depois de ter atingido o pico de 2,19% na metade dos anos 60, entrou em queda constante e hoje o mundo aumenta cerca de 1,14% ao ano.
Quantos poderemos ser, assim sendo, dentro de 40 anos? Seremos demasiados? Como mudará a população do nosso planeta? Podemos aventar previsões, considerando que muitas variáveis estarão em jogo. Segundo dados da Onu, três distintos cenários são previstos. Na hipótese mais moderada, chegaremos ao patamar dos 8 bilhões ao redor de 2050, com a condição de que a taxa de fecundidade atual, que é de 2,56 filhos por cada mulher, desça para 1,54. Na hipótese “média” – considerada a mais provável – em 2050 seremos 9 bilhões e 150 milhões de indivíduos sobre a Terra.
Mas isso só poderá se verificar se a fertilidade nas regiões menos desenvolvidas, que hoje é de 2,73 filhos por mulher, descer a 2,05; para que isso aconteça é necessário que seja implantada também nos países subdesenvolvidos a planificação dos nascimentos. O terceiro cenário coloca a taxa de fertilidade em 2,51, quase a mesma dos dias de hoje: isso nos levará a cerca 10,5 bilhões de indivíduos em 2050.
Variáveis
Quais são os fatores que influenciam o crescimento da população? Substancialmente, são dois: a taxa de fertilidade e a taxa de mortalidade, que mede a frequência das mortes. Ambos são influenciados por muitas variáveis. A mortalidade, por exemplo, diminuiu muito nos últimos decênios, em todo o mundo e em todas as faixas etárias, por causa dos progressos da medicina. Mas podem intervir situações inesperadas capazes de modificá-las inclusive por períodos muito breves. Exemplo disso é o verão tórrido de 2003 que, só na França, provocou 15 mil mortos a mais em relação à média. Ou então, eventos sócio-políticos como o que aconteceu na Rússia e nos países outrora comunistas nos quais, depois da queda dos regimes, as condições de vida pioraram para faixas consideráveis da população, com uma queda da natalidade e um aumento da mortalidade (na Rússia, entre 1991 e 1994 perderam-se 5 anos de expectativa de vida).
Enfim, conta muitíssimo o grau de desenvolvimento de um país. Nas zonas do mundo com altos padrões de higiene, instrução e renda per capita, as famílias fazem menos filhos, apenas um ou dois, e as pessoas vivem muito mais. Em situação oposta estão os países onde predomina a pobreza, a escolarização escassa e a política sanitária insuficiente: neles ainda nascem muitos filhos por família e a vida é mais curta.
Este é o caso da maioria dos países da África, nos quais cada mulher gera em média quatro filhos, mas onde existem apenas seis idosos para cada 100 adultos. Pode-se pensar, portanto, que a difusão de um mais elevado padrão de bem-estar e de riqueza também nos países pobres conduzirá no futuro a uma estabilização da população em escala mundial. Essa é, a longo prazo, a expectativa dos estudiosos.
Desequilíbrios perigosos
Em 2050 seremos provavelmente mais de 9 bilhões, mas esse crescimento será desigual nas várias regiões do mundo. Segundo previsões da Onu, a Europa permanecerá estável, enquanto a África dobrará a sua população atual, chegando em 2050 a quase 2 bilhões de indivíduos (como efeito de um crescimento anual de 22 milhões de habitantes, freada apenas pela ocorrência de epidemias terríveis, como a Aids). Sempre em 2050, viverão na Ásia cerca de 5,3 bilhões de pessoas. O “peso” das zonas do mundo, as características das populações e a sua distribuição mudarão muito. Como frisou Jack Goldstone, da George Mason University (Usa), em uma análise da “nova bomba demográfica” publicada na revista Foreign Affairs, “a segurança internacional no século 20 dependerá menos de quanta gente habitará o planeta do que de como a população global será composta e distribuída”.
Mega-tendências
Goldstone detectou quatro mega-tendências que de hoje ao ano 2050 irão revolucionar o mundo.
1) Uma primeira tendência será o menor peso dos países desenvolvidos, como os da Europa e os da América do Norte, tanto do ponto de vista demográfico quanto econômico. Em 2003, a população da Europa, Estados Unidos e Canadá já era apenas 17% da população global, porém em 2050 ela baixará para 12%. Essas mesmas zonas produzirão somente 30% da riqueza global.
2) A população dos países desenvolvidos se tornará mais velha, com um menor percentual de pessoas em idade de trabalho e um percentual mais alto de aposentados, com riscos de crise do sistema previdenciário, sem falar nos custos da assistência médica e social.
3) A população jovem crescerá sobretudo nos países pobres (segundo os cálculos do Population Reference Bureau, em 2050 cerca de 53% dos jovens entre 15 e 24 anos estarão na Ásia e no Pacífico, 29% na África e 7% na América Latina – exatamente nas regiões onde são menores as oportunidades para se obter uma boa educação e, sobretudo, encontrar um bom trabalho. O risco é que nelas sejam incrementadas as condições para a instabilidade e os conflitos. Em particular, Goldstone frisa como tais desenvolvimentos terão lugar em muitos países muçulmanos e como, assim sendo, seja vital melhorar as relações entre a sociedade islâmica (cheia de jovens que podem ser sensíveis aos movimentos radicais e anti-ocidentais) e a sociedade ocidental.
4) Uma última tendência será a grande concentração populacional nos aglomerados urbanos, que dirão respeito sobretudo aos mais pobres, reunidos em megalópoles com população entre 15 e 20 milhões de habitantes, como Mumbai, Cidade do México, São Paulo. Nova Delhi, Shangai ou Calcutá, nas quais já hoje se verificam graves problemas de higiene, degradação, violência e desordem.
Migrações
Um outro importante fator em jogo serão as possíveis migrações, por razões econômicas e também ambientais. Qual será o peso delas? Segundo o relatório da Onu sobre a população mundial, elaborado para o ano 2009, “prevê-se que as mudanças climáticas sejam um fator-chave para o deslocamento de populações nos próximos decênios”. Migrações, portanto, desencadeadas pelo aumento de eventos meteorológicos extremos (como os furacões), a seca e a degradação do solo, ou a elevação do nível do mar com consequente erosão e inundação da costa.
Uma real ameaça para quem vive nas áreas costeiras densamente povoadas (onde se encontra 60% das 39 maiores metrópoles do globo) e para as nações de atóis e ilhas sob a ameaça de submergir, como as Maldivas, Tuvalu, Vanuatu, etc. Quantos irão migrar? Para a Onu, de hoje a 2050 pelo menos 200 milhões de pessoas deverão se deslocar devido a fatores ambientais. Com estimativas que variam de 50 milhões a um bilhão.
Vovôs imigrantes
Haverão também migrações por motivos econômicos. Para a Comissão Global sobre Migrações Internacionais, da Onu, o fenômeno migratório em escala mundial envolve a cada ano 3% da população. Os países mais importantes de onde partem os fluxos migratórios são a China, a Índia e as Filipinas; os destinos migratórios principais são os Estados Unidos, a Rússia e a Alemanha. A passagem da África à Europa meridional, através do Mediterrâneo, é uma rota migratória secundária, apesar de ser a que mais aparece na mídia. Mas a tendência não irá parar. Para Hein de Haas, pesquisador da Universidade de Oxford, “a situação econômica nas regiões subsaarianas continuará a estimular o êxodo, na mesma medida que os países de destinação necessitam de mão-de-obra de baixo custo; a melhoria dos transportes e das rotas de conexão no Mediterrâneo irão facilitar ainda mais o fenômeno”.
As migrações, portanto, irão aumentar? Segundo os dados da Onu provavelmente sim, mas sem seguir necessariamente as rotas atuais. Em 1975, 34,5% de todos os migrantes do mundo partiam da Ásia; hoje, apenas 25%. O peso da África sobre os fluxos mundiais de pessoas também está caindo em termos percentuais (de 12% em 1970 para 9% hoje). Como ressalta Jack Goldstone, a carência de jovens por um lado, e a abundância de recursos por outro alimentará a migração em direção aos países desenvolvidos onde existe trabalho. Mas, curiosamente, esse pesquisador teoriza também um fluxo inverso: a mudança de pessoas idosas dos países desenvolvidos para países onde seria possível a criação de uma razoável rede de estruturas residenciais e de assistência social e de saúde a custos menores. Nesses países, com suas pensões, esses aposentados poderiam desfrutar de um padrão de vida muito superior ao dos seus países de origem.
Impacto ambiental
Quanto ao planeta? Ele parece estar capacitado para suportar, em 2050, o peso de 9 ou 10 bilhões de pessoas. Como explica Massimo Livi Bacci, professor de demografia da Universidade de Florença, Itália, “o problema reside no fato de que o crescimento futuro se concentrará nos países pobres. Para os países ricos pode-se cogitar, a longo prazo, uma combinação entre uma população estacionária e uma atividade produtiva cada vez mais baseada em atividades que requerem um limitado consumo energético. Mas nos países pobres, que possuem populações em crescimento e desejam um desenvolvimento rápido, o consumo energético será muito rápido e elevado”.
No Ocidente, portanto, produziremos cada vez mais serviços e bens não materiais, que não requerem grande gasto de matérias primas e de energia, e as produções lançarão mão de tecnologias avançadas e mais ecológicas”.
Comida para todos
Os recursos, afinal, serão suficientes? Segundo estimativas da Fao, a Terra poderia nutrir 20 bilhões de pessoas. O problema está na pobreza e na distribuição do alimento. Num relatório de três pesquisadores da Onu, George Martine, José Miguel Guzman e Daniel Schensul, ressalta-se como nos últimos vinte anos a taxa de crescimento da população mundial diminuiu 1,14% ao ano, enquanto a produção de alimento aumentou constantemente em cerca de 2% ao ano. “O mundo não está exaurindo as reservas alimentares do planeta; o verdadeiro problema é o acesso desigual ao alimento para todos e uma distribuição errada”.
Fronteiras que não devem ser ultrapassadas
Mais sério é o problema energético: quanto a disponibilidade de petróleo, por exemplo, as estimativas são discordantes. Fala-se de uma autonomia de 40 anos nos atuais ritmos de consumo de cerca 90 milhões de barris ao dia. Segundo cálculos da Agência Internacional de Energia, esse requisito está destinado a aumentar com o crescimento da população e ao redor de 2030 deveria subir a 120 milhões de barris ao dia. São necessárias, portanto, novas tecnologias e muita economia.
Um cientista do Stockholm Environment Institute, da Suécia, Johan Rockström, aplicou-se com outros colegas a compreender quanto durarão os recursos naturais diante do crescimento demográfico. Rockström determinou algumas “fronteiras”, sistemas fundamentais para a vida que não podemos explorar para além de um certo limite. Uma delas é, por exemplo, o emprego da terra para fins agrícolas que, segundo seus cálculos, não poderá superar 15% das terras emersas e livres do gelo. Superar esse percentual significaria empobrecer outros recursos fundamentais, como as florestas, necessárias para o controle dos níveis de anidrido carbônico na atmosfera. Atualmente já estamos empregando para a agricultura 12% das terras livres dos gelos, equivalentes a 16 milhões de quilômetros quadrados; assim sendo, resta-nos apenas 3% de terra para serem convertidas à agricultura.
Água
Tudo isso significa que para fazer face às necessidades alimentares de uma população em crescimento não bastará encontrar novas terras cultiváveis mas, sobretudo, melhorar os métodos de cultivo. O mesmo discurso vale para outros limites, como o da poluição química, ou da fundamental disponibilidade de água doce. Para este recurso, explica Rockström, não poderemos ir além de um consumo de 4.000 quilômetros cúbicos ao ano. Nosso consumo atual é de cerca 2.600 quilômetros cúbicos ao ano.
A chegada de passageiros na estação ferroviária Churchgate, em Mumbai, Índia, onde a cada dia 9 milhões de pessoas (para uma população de 13,5 milhões) tomam os trens para ir ao trabalho. A Índia será um dos protagonistas do crescimento futuro: hoje com 1,17 bilhão de habitantes, ela é o segundo país mais populoso depois da China. Em 2050 a Índia assumirá o primeiro lugar, com 1,7 bilhão de pessoas.
A taxa de fecundidade indica o número médio de filhos por mulher. Se ela for menor que 2,1, isso é sinal de envelhecimento e de queda da população.
A nível mundial, a taxa de fecundidade é hoje de 2,56 filhos por mulher. Mas as diferenças entre as áreas mais ou menos desenvolvidas do mundo são muitas e enormes. Nos países pobres, o número de filhos é sempre muito maior. No mapa, que indica com cores diversas o número médio de filhos por mulher, essa disparidade é bem visível.





