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terça-feira, 12 de maio de 2026

Leopardo, um felino na zona do crepúsculo

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27/11/2011 07h15 – Atualizado em 27/11/2011 07h15

Fonte: Brasil 247

Leopardos (Panthera pardus) são caçadores furtivos solitários. Camuflados por sua pelagem ocre cheia de pontos escuros, eles parecem sombras móveis quando se movem na penumbra da noite, por entre as árvores e os montes de pedras. Rastejam, quase imperceptíveis, até poucos metros de suas presas e, quando sentem que a distância é correta, pulam sobre elas com um único salto mortal. Quando estão sobre a vítima, e se ela for pequena, suas mandíbulas poderosas rompem a medula espinhal da mesma na região de trás do pescoço. Se a presa é grande, comprimem a garganta e a traqueia dela, até sufocá-la.

Estudos muito recentes identificaram uma nova e insidiosa ameaça para a vida dos leopardos: o crescente desaparecimento do seu principal alimento, gazelas, antílopes e porcos selvagens, vitimados pela caça comercial destinada a abastecer os mercados de “carne de caça”, instalados não apenas em vários lugares da África, mas também em outros pontos do mundo. O abate com finalidades comerciais da fauna silvestre africana acontece principalmente nas florestas tropicais ao longo da bacia do rio Congo. Em muitas áreas dessa região os leopardos desapareceram, por falta de comida, sem deixar vestígios.

As pessoas que vivem na bacia do Congo baseiam sua dieta principalmente na carne de caça, por causa das proteínas que ela contem; isso, para os leopardos, implica em graves consequências. Tendo dificuldade cada vez maior para encontrar suas presas tradicionais, eles são forçados a mudar suas dietas para espécies menores e, desse modo, não conseguem mais alcançar sua densidade populacional normal.

Embora os leopardos sejam reverenciados como totens, e assim sendo protegidos da caça direta, o desaparecimento das suas presas pode levá-los à extinção. “É o fenômeno conhecido como ‘floresta vazia”, diz Hunter. “Você pode ter uma floresta intacta, aparentemente intocada, mas onde a caça é tão intensa que poucos mamíferos carnívoros de grande porte são capazes de viver lá”.

Leopardos podem se adaptar a vários tipos de ambiente, mas em todos eles procuram viver escondidos, de modo secreto. Isso faz deles animais difíceis de estudar. É complicado para os biólogos fazer estimativas do número de suas populações, até mesmo em áreas mais controladas como o Parque Serengueti.

Uma das razões pelas quais esses felinos são tão evasivos é o seu hábito de viver em cavernas. Em 1983 o paleontólogo Charles K. Brain, ex-diretor do Museu Transvaal de História Natural, em Pretória, África do Sul, chamou a atenção para a conexão dos leopardos com cavernas em seu livro “The Hunters or The Hunted?” (Caçadores ou caçados?). O livro tem como subtítulo “Uma Introdução à tafonomia das cavernas africanas” (tafonomia é o estudo de como restos de plantas e animais se acumulam e podem ou não serem preservados). “Os leopardos são particularmente relevantes para esse estudo (da presença de animais em cavernas)”, diz Brain, porque “eles são predadores secretos, fazendo uso de cavernas como refúgios, lugares de alimentação, e tocas de reprodução”.

Leopardos viviam na Europa, como mostra esta pintura da caverna de Chauvet, na França

Apesar das frequentes referências na literatura científica quanto ao uso de cavernas por leopardos, há poucas descrições específicas de cavernas que são tocas de leopardo. Algumas das melhores evidências vêm do Monte Quênia, ou do Nyokie Oldoinyo (Montanha Vermelha), um vulcão adormecido situado a cerca de trinta quilômetros a noroeste de Nairobi. Na encosta nordeste do Oldoinyo Nyokie existe uma série de cerca 45 cavidades resultantes do colapso de túneis de lava formados quando o vulcão ainda estava ativo. Essas passagens onde nenhuma luz penetra escondem restos de refeições de leopardo. O piso de vários corredores escuros estão cobertos de ossos de babuínos e antílopes de pequeno porte, mortos e levados para lá pelos felinos.

Um outro extenso sistema de cavernas usadas por leopardos fica no oeste da Namíbia, ao lado de um desfiladeiro com paredes de quartzo cristalino branco, um afloramento único de seu gênero em um vasto mar de xisto cinzento. Um pequeno riacho, alimentado por uma fonte perene, faz o seu caminho através do vale cintilante. Essa fonte de água em um lugar tão árido atrai muitos ungulados (antílopes, cervos, gazelas, etc) que se tornam vítimas dos leopardos.

A ideia de que o leopardo prefere viver na escuridão das cavernas contrasta com a imagem tantas vezes explorada nos filmes que mostram leopardos empoleirados nos galhos de árvores. Na verdade, permanecer no alto de árvores é um comportamento mais raro entre esses felinos. Eles preferem permanecer em seus esconderijos, no fundo de cavernas. Os especialistas revelam que cerca de 83% das carcaças de animais mortos por leopardos foram encontradas em cavernas, e apenas 17% penduradas em árvores. Na caverna esse felino se sente protegido contra seus inimigos e concorrentes, leões, hienas, abutres, não tão afeitos à escuridão como ele.

A antropologia sabe que há muito os caminhos dos leopardos com os dos humanos e os dos hominídeos se cruzam. Menos protegidos do que hoje, certamente éramos uma das presas dos leopardos quando vagávamos descalços pelas savanas e florestas da África. Na Drakensberg, cordilheira da África do Sul, existe uma caverna conhecida como Leopard Cave: uma das pinturas murais ali existentes mostra um leopardo correndo atrás de um homem.

É, no entanto, numa caverna da França, onde vamos encontrar a mais antiga representação pictórica conhecida de um leopardo. Essa caverna, a Chauvet Cave, faz parte de um vasto sistema de cavernas escuras interligadas ao longo do vale do rio Ardèche. Redescoberta em 1994 por espeleólogos contemporâneos, as pinturas feitas nas suas paredes internas representam pelo menos treze espécies, entre elas leopardos, leões, mamutes, rinocerontes, búfalos, ursos e raposas. A datação por radiocarbono indicam que foram feitas há mais de 30 mil anos.

A caverna também contém os restos fossilizados e as marcas de muitos animais que hoje estão extintos. Várias perguntas ainda não foram respondidas a respeito dos mistérios da caverna Chauvet. Uma delas: será que já naqueles tempos tão remotos os leopardos escondiam sua caça e protegiam seus filhotes nos antros dessa cavidade? Será que os seres humanos da época de alguma forma compartilhavam a caverna com os leopardos? A primeira evidência da presença humana antiga na Chauvet Cave é a pegada de uma criança. É ainda visível no barro petrificado, 27 mil anos depois.

Os leopardos representados na Chauvet Cave desapareceram há muito tempo. A região hoje não suportaria mais a sua espécie. E perguntam os naturalistas apaixonados por esse magnífico felino: Será que, algum dia, seremos forçados a dizer o mesmo da África e de outras partes do mundo onde a presença viva de um leopardo ainda se faz sentir, embora quase sempre escondida na atmosfera crepuscular das cavernas?

VÍDEO

Veja este impressionante video feito no interior de uma caverna situada na encosta do Monte Elgon, no Quênia. Foi feito por uma equipe da BBC inglesa com uma câmera capaz de gravar na escuridão. Mostra um leopardo reclamando os seus domínios frente a um outro, invasor.


Leopardo, um felino na zona do crepúsculo

Leopardo, um felino na zona do crepúsculo

Leopardo, um felino na zona do crepúsculo

Painel de desenhos pré-históricos na caverna Chauvet, na França

Leopardo, um felino na zona do crepúsculo

Rio Ardèche, na França. Na região fica a caverna Chauvet

Leopardo, um felino na zona do crepúsculo

Leopardo, um felino na zona do crepúsculo


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