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domingo, 10 de maio de 2026

Seis escritores opinam sobre as revoltas em curso no mundo árabe

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Seis escritores opinam sobre as revoltas em curso no mundo árabe

Nem todos estão otimistas sobre o futuro das revoluções em curso, mas os seis escritores que se pronunciam a seguir ressaltam em uníssono que o mundo árabe está vivendo acontecimentos históricos no norte da África.

A reportagem é do jornal El País e reproduzida pelo Portal Uol, 11-02-2011.

Boualem Sansal (escritor argelino)

Sou pessimista

De um confim ao outro, o mundo árabe se encontra em um estado de efervescência que chegou a níveis críticos ou os ultrapassou, como na Tunísia e no Egito, onde reina uma situação revolucionária patente.

Essa evolução, que muitos pressentiam, é o resultado da decadência extrema em que se encontram esses países há muito tempo, sob o olhar fascinado, indiferente ou cúmplice dos governos ocidentais. De um lado temos regimes desgastados pela idade, a doença e o vício, mas capazes de uma grande violência, e de outro populações pisoteadas que se debatem na miséria.

Entre os dois, um vazio espantoso que foi ocupado pouco a pouco pelos islâmicos e por organizações mafiosas (ligadas ao poder dos islâmicos) que prometem o paraíso. Os partidos de oposição democrática tolerados proporcionam a fachada democrática das ditaduras, e os rebeldes foram obrigados a exilar-se na Europa.

No que me diz respeito, sou pessimista: sem uma sociedade civil organizada e decidida, sem o apoio ativo dos democratas de todo o mundo, os poderes atuais e os islâmicos vão se aproveitar da ira da população e apoderar-se da aposta. O clã dos ditadores e a internacional islâmica vão se mobilizar para vencer e se impor à população, e dessa vez os islâmicos estarão no primeiro plano. É por isso que devemos absolutamente ganhar esta batalha. O assunto não é somente um assunto árabe, é mundial.

Mahi Binebine (escritor marroquino)

“Hogra”

A palavra “hogra” é intraduzível para as línguas românicas. É um sentimento que conjuga o desprezo e a arrogância do dominador com a impotência temerosa do dominado. Um sentimento ancestral herdado do feudalismo e que o período colonial não fez outra coisa além de reforçar.

Os colonos nos cravaram uma faca nas costas, e ao partir só levaram o punho, substituído em seguida por outro, o das presidências monárquicas, o dos clãs, o das máfias sanguinárias que continuaram chupando com deleite o sangue dos anêmicos sob o olhar cúmplice de um Ocidente que, ao mesmo tempo que cantava o hino da democracia e dos direitos humanos, continuava apoiando por interesse esses regimes que negavam as liberdades elementares.

No passado, a guerra denominada “fria” provocou a miopia complacente; hoje é o fantasma do perigo islâmico que domina e atormenta as boas consciências. “Hogra” é um sentimento que também inclui a sede de justiça. Os regimes de fachada já não podem toldar os olhares fixos sobre a sorte dos palestinos em Gaza e em outros lugares. A população tunisiana, a qual nós, magrebinos presunçosos, qualificamos de covarde e sem personalidade, nos mostrou o caminho. O Egito está prestes a seguir seus passos. E outros inevitavelmente seguirão esse caminho.

Um mundo globalizado não tem só inconvenientes. A rebelião popular da Tunísia já mudou o sentido da história! Quem entre nós teria imaginado ver em tão breve prazo o final do medo e a rejeição radical da injustiça e da humilhação? Porque estou convencido de que, mais que uma revolta socioeconômica, é uma sublevação a favor do respeito e pelo fim da injustiça, é uma aposta na dignidade, no respeito e na liberdade, contra a “hogra”.

Habib Selmi (escritor tunisiano)

Revolução da Dignidade

A Revolução dos Jasmins na Tunísia (eu prefiro chamá-la de Revolução da Dignidade) é um acontecimento sem precedentes. Surpreendeu todo mundo, incluindo os políticos da oposição e intelectuais, o que demonstra, se é que havia necessidade de demonstrá-lo, como a elite está afastada da população, sobretudo a dessas regiões distantes como Sidi Bouzid ou Kasserine, de onde partiu essa revolução. O que aconteceu na Tunísia e no Egito, e pode ser que aconteça muito em breve na Argélia, prova que os árabes, ao contrário de tudo o que se diz no Ocidente com uma certeza tingida de certa arrogância, sentem um profundo apego pela liberdade e a democracia.

Na minha opinião, três fatores contribuíram para que a revolução na Tunísia fosse possível. O mais importante é a juventude tunisiana, que desencadeou essa revolução e pagou um alto preço (a grande maioria dos assassinados pela polícia e as milícias armadas do antigo regime são jovens). A Tunísia é o país do Magreb com o índice de alfabetização mais alto. O segundo fator é a existência de uma classe média, em contraste com o que ocorre na maioria dos países árabes. O último fator reside no lugar tão importante – em comparação com os demais países árabes – que a mulher ocupa na Tunísia. Sei que o caminho ainda é longo até que a Tunísia se converta em um verdadeiro país democrático, mas sou bastante otimista, e como não ser, depois de tudo o que esse pequeno país nos demonstrou.

Omar El Keddi (escritor líbio)

Emigrar para o mundo virtual

A grande semelhança das revoltas tunisiana e egípcia confirma que vamos contemplar outras mais nos países árabes, que às vezes terão perfis diferentes, conforme a natureza das populações e a estrutura de seus sistemas políticos.

Os elementos mais importantes para conseguir que qualquer revolta triunfe são os seguintes:

1 – Um número consistente de jovens ativistas nas redes sociais, como Facebook e Twitter, incluindo blogueiros como os que informaram sobre as torturas nas delegacias egípcias.

2 – Suficientes organizações da sociedade civil, porque constituem um requisito para poder negociar com o regime e fazer parte de um novo governo.

3 – Ter certeza de que o exército está senão a favor da população, como na Tunísia, pelo menos não a favor do regime, como no Egito.

Os jovens árabes tinham várias opções:

Emigrar legal ou ilegalmente para o Ocidente.

Emigrar para o Afeganistão, Iraque, Iêmen ou Somália e lutar ali.

Imigrar para a corrupção e pisar na população de seu próprio país.

Emigrar para um mundo virtual. Este último foi exatamente o que fizeram. Ali encontraram um mundo agradável, onde podem criar as coisas que acontecem e as notícias, onde se expressam com liberdade, mesmo que sejam ateus ou homossexuais.

Esse mundo lhes dá a coragem de que necessitam para mudar o mundo real. Como não têm experiência política, não são capazes de transformar sua revolta em uma revolução completa. No entanto, agora descobriram sua força e provavelmente entrarão na política, como os estudantes europeus de 1968.

Com certeza esses jovens transmitirão sua esperança a suas populações, o que quer dizer que não só acabarão com as ditaduras como também com o fundamentalismo islâmico. Entretanto, se lhes roubarem sua revolta haverá uma nova onda de terrorismo no estilo das Brigadas Vermelhas ou do Exército Vermelho alemão.

A democracia agita o mundo árabe, mas teremos de esperar pelo menos 15 anos para vê-las funcionar ativamente, como ocorreu na América Latina.

Na Líbia não existe suficiente sociedade civil, nem partidos políticos e não há Constituição desde 1969. Por outro lado, há suficiente ativismo na Internet e o exército é demasiado frágil para se comparar com as brigadas de segurança do regime. O Estado tem muito dinheiro para resolver qualquer problema e comprar as vontades das tribos. Creio que a menos que trabalhemos para resolver esses problemas veremos muitas revoltas, mas sem resultados positivos.

Gana Nouri (escritor tunisiano)

O terreno está fértil

Em 14 de janeiro, os protestos maciços na Tunísia obrigaram Ben Ali a fugir para a Arábia Saudita. Hoje o país é dirigido por um governo de coalizão e serão realizadas eleições dentro de seis meses. A revolução tunisiana iniciou um processo irreversível de democratização em todo o mundo árabe, exemplificado pelo que está acontecendo no Egito.

Todos os árabes têm tantos desejos de mudança quanto os tunisianos ou os egípcios, mas cada revolução tem seu momento, seu contexto e suas causas específicas. É difícil prever em que outro lugar do mundo árabe haverá uma próxima revolução, mas é fácil afirmar que o terreno está fértil para que ocorra em qualquer lugar e a qualquer momento. Para mim é um motivo de regozijo esse grande passo adiante, esse sentimento de esperança e a possibilidade, depois de décadas de decadência árabe; e esta é a última conquista da revolução tunisiana.

Mas o caminho a seguir ainda é árduo, como demonstra o caso tunisiano. Não serão só as eleições que garantirão a saúde da democracia, senão a prática cotidiana da democracia exercida pelo povo. Mais que nunca, a Tunísia necessitará de toda a assistência e ajuda da comunidade internacional e da ONU para superar o delicado período posterior a essa revolução popular.

Ahmad Jamani (poeta egípcio)

Os jovens querem uma mudança radical

O que está acontecendo hoje no Egito é, na minha opinião, algo totalmente novo; desde a revolta egípcia de 1919 contra a ocupação inglesa não houve qualquer outra revolução popular com a intensidade da atual. Alguns já a chamam de “maio de 68 árabe”. Jovens modernos chamados de “os do Facebook”, a maioria dos quais carece de filiação política, decidiram começar a revolta em 25 de janeiro, dia nacional da polícia egípcia, o que se transformou em um símbolo contra a violência e a tortura. Decidem e conseguem, levando a centelha tunisiana para um país que tem tanta dificuldade para se mover e de grande importância tanto geopolítica quanto demográfica.

Jovens que sentiram a necessidade de uma mudança radical em todos os níveis. Escutamos um legítimo grito comum de um povo depois de 30 anos de brutal ditadura contra um Estado policial no qual reinava a lei de emergência: “O povo quer derrubar o regime!” Aconteça o que acontecer, a mudança já está aqui.

Instituto Humanitas Unisinos

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