31/05/2020 03h23
Por Cleber de Araujo Arantes
O BARBEIRO
Quando menino fui com meu pai numa barbearia,
guri assustado, só analisava o ambiente.
Mas me tranquilizou ao ver que meu pai era amigo do tal barbeiro.
O nome do lugar era salão da praça. Mandou logo eu sentar numa tábua sobre a cadeira, porque disse que eu era um nanico. Me colocou uma capa nos ombros, me senti um super herói. E entre piadas e risadas fui perdendo o medo do lugar e do tal barbeiro.
Terminou o corte e falou: vai arrumar um monte de namorada agora. E continuei indo naquele lugar com meu pai, programa normal de homens da minha época. Cresci, passei a ir solito, virei freguês e amigo. Três décadas se passaram e o barbeiro com o mesmo Corcel I, marrom metálico, capa nos bancos, “uma relíquia” dizia ele. Me admirava a simplicidade e percebi que nem sempre ter um carro novo é sinônimo de felicidade.
Nunca fui atendido por ele sem o sorriso e as piadas picantes e amistosas. Seo Anildo Dalastra é daquelas pessoas que dá gosto conversar. Mas a vida passa, as coisas mudam, e o ponto dele fechou. Fui embora da cidade e um dia, a passeio, perguntei dele a meu pai: anda meio adoentado, me disse. Mas está cortando cabelos em casa.
Fui lá e do portão já perguntei: corta fiado ainda? Ele sorriu e me atendeu com a mesma alegria de sempre. A vida lhe tirou a saúde e a juventude mas não a alegria.
Obrigado “senhor barbeiro”, não pelos cortes, mas pelo bate papo, pelas horas aprazíveis. Aí no céu continue divertindo os anjos e cobre os cortes deles, afinal não fazia fiado nem pra mim.
Só não conte piadas. Eles podem ruborizar com o teor.
Obrigado pelo exemplo, pelas dicas de como viver com simplicidade. Pendure a capa, guarde a tesoura, descanse seo Dalastra. O barbeiro mais divertido de todos…
“Faz fiado??!”

