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sábado, 27 de junho de 2026

Cacique e vice da Aldeia Amambai pedem proibição de atendimento de psicóloga

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10/12/2020 08h09

Cacique e vice da Aldeia Amambai proibem, em documento ao Dsei, que psicóloga preste atendimento na reserva

Moradores da reserva indígena uniram-se em manifestações em prol da psicóloga Paula Rodrigues, que desde julho deste ano não pode entrar na aldeia para atender pacientes.

Fonte: Redação

Amambai (MS)- Injustiça. É assim que moradores da Aldeia Amambai, reserva indígena com mais de 9 mil pessoas, descrevem uma ação do atual capitão da aldeia, Adair Sanches, que através de um documento enviado ao Distrito Sanitário Especial da Saúde Indígena (DSEI-MS), pede a exoneração da psicóloga da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Paula Rodrigues.

O documento, assinado pelo cacique e pelo seu vice, Orivaldo Bario, foi encaminhado ao DSEI no final do mês de julho deste ano e desde então, de acordo com moradores da reserva, a profissional está proibida de adentrar na aldeia e os indígenas estão sem atendimento psicológico.

Diante do fato, conhecedores do trabalho de Paula que moram na reserva uniram-se em manifestos em favor da profissional e de sua permanência na Sesai e na Aldeia Amambai. Neste movimento, uma faixa foi feita com os dizeres “Vidas Indígenas Importam – Fica Psicóloga Paula – A Aldeia Amambai precisa e a comunidade quer!” e colocada no polo da Sesai, no centro da cidade, na segunda-feira (7). O grupo reclama que o material foi arrancado em menos de 10 minutos.

“Desde julho estamos sem o atendimento da profissional e o trabalho dela é muito importante aqui na aldeia. Com a pandemia, perdemos entes queridos e o trabalho e o acolhimento dela estão fazendo muita falta”, disse um dos membros do grupo, que prefere não se identificar com medo de represálias.

Motivação

O grupo aponta que o que pode ter motivado o capitão da aldeia a mandar o ofício ao DSEI é o fato de que Paula, em seus atendimentos, mostrava aos pacientes formas de lutar por seus direitos. Por exemplo, se chegava uma mulher vítima de violência doméstica para ter seu psicológico tratado, a profissional acolhia e explicava a esta mulher que o correto a se fazer nesses casos era denunciar. “Como a cada denúncia que a Polícia recebe, eles procuram as lideranças, isso foi irritando o capitão e ele sentiu que ela estava passando por cima de sua autoridade, mas não, ela só estava orientando as pessoas a buscarem seus direitos”, explicou um dos integrantes do grupo.

Apoios

O Coletivo Indígena Tape Porã, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) de Amambai – formado por rezadores, rezadoras, parteiras e jovens, além de acadêmicos da universidade – saiu em defesa da psicóloga e inclusive enviou ao DSEI, no dia 26 de novembro, uma carta de apoio à profissional, salientando que o atendimento psicológico é um direito da comunidade, que a proibição da entrada de Paula na aldeia fere esse direito, ressaltando ainda que ela sempre desenvolveu seu trabalho com excelência.

“Sabemos que neste mês de dezembro acontece o recesso de fim de ano e queremos respostas, precisamos saber se ela vai ficar com a gente”, disse uma integrante do coletivo.

O Conselho Distrital de Saúde Indígena e o Conselho Local de Saúde Indígena, através de sua presidente, Crescência Martins, também enviaram um documento ao DSEI solicitando a permanência de Paula. No ofício, datado de 23 de novembro de 2020, os membros referem-se à psicóloga como “ótima profissional, apresentando postura ética e conduta exemplar, compromissada e dedicada ao trabalho, proativa, de ótimo relacionamento interpessoal e que valoriza a cultura tradicional”.

“O Conselho de Saúde apoia a permanência de Paula na aldeia porque ela realiza um ótimo trabalho, respeitando a cultura local e trabalhando a rede de cuidado”, disse Crescência.

Mais que banir da Aldeia, o capitão pede a exoneração da profissional

O vereador Ismael Kaiowá também conversou com a nossa reportagem. Ele é uma das pessoas que estão lutando pela permanência de Paula na Sesai. Segundo ele, essa é a primeira vez que a comunidade se une e passa a promover protestos e manifestações pedindo que o trabalho de uma pessoa permaneça.

Além disso, ele contou que uma de suas grandes preocupações é que o cacique Adair, alegando que Paula passou por cima de sua autoridade enquanto liderança, não se contentou apenas e impedir a sua entrada na aldeia, ele foi além e pediu a exoneração do seu cargo como psicóloga da Sesai, fato que prejudicaria muito a sua vida profissional.

“Ela pode ser despedida e não há motivo para isso. Além do mais, a Paula desenvolve muitos projetos com a comunidade indígena e a Aldeia Amambai nunca esteve tão bem assistida no campo dos cuidados psicológicos como foi com o trabalho dela, por isso a importância de se mobilizar pela sua permanência dela”, frisou Ismael.

Ismael também disse que por enquanto a Aldeia Amambai é a única que não está recebendo atendimentos psicológicos de Paula. Ela segue atendendo nas aldeias Jaguari e Limão Verde, além de comunidades indígenas de Aral Moreira, Coronel Sapucaia.

O coordenador da Casa de Saúde Indígena (Casai) de Amambai, Leonildo Acosta disse que é orientado por seus superiores a não dar nenhuma declaração oficial sobre o assunto e por isso, nossa reportagem entrou em contato com o coordenador do DSEI Joe Saccenti Junior, via e-mail, indagando sobre o que pode vir a acontecer com a profissional e qual seria a decisão do DSEI.

Recebemos a resposta no mesmo dia, através de um e-mail assinado pela secretária do gabinete, Gabriela Elly, que simplesmente diz: “Sobre o assunto, DSEI/MS está promovendo reestruturação administrativa, em todas as áreas para melhor prestar o serviço de atenção à saúde indígena.”

Por respeito à autonomia da comunidade indígena da Aldeia Amambai, Paula optou por não falar com a nossa reportagem e nem dar qualquer detalhe sobre o assunto.

A versão do cacique

A reportagem tentou contato com o capitão da aldeia, Adair Sanches e com o vice-capitão, Orivaldo Bario. O telefone do capitão estava desligado e o vice não quis falar sobre o assunto.

Abaixo estão os documentos enviados ao DSEI, aos quais o Amambai Notícias teve acesso:


Capitão da Aldeia, Adair Sancehes e a psicóloga, Paula Rodrigues durante uma das edições da Feira Tekoha Guapoy, em 2017 / Foto: Moreira Produções

Faixa em apoia à psicóloga foi colocada em frente ao polo da Sesai, no centro de Amambai / Foto: Divulgação

Crescência é presidente do Conselho Local de Saúde Indígena / Foto: Divulgação

Ao centro, o vereador Ismael Kaiowá / Foto: Divulgação

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