10/10/2019 19h24
“Descartá-los é melhor do que remendá-los. Quanto mais remendos, mais miseráveis, quanto mais remendos, mais miseráveis … “, rezava uma das orientações ensinadas às classes altas no livro Admirável Mundo Novo, escrito pelo britânico Aldous Huxley, 87 anos atrás.
Fonte: Revista IHU ON-LINE
O conteúdo desta obra pode ser lido como uma premonição da sociedade atual. No mundo de Huxley, os remendos e os consertos eram atos socialmente desprezíveis, as pessoas tinham que comprar coisas novas para provar seu status. E hoje não é muito diferente.
É a religião do ‘compra e descarta’, impulsionada por um hábil marketing, os lançamentos constantes de todos os tipos de dispositivos ‘mais modernos’, o desejo de consumo, o esnobismo e a famosa frase ‘sai mais barato comprar um novo do que consertar este… e, além disso, novidade!
Como explica o economista da Universidade de Paris, Serge Latouche, em seu livro ‘Hecho para tirar’ (Editora: Octaedro): “Não se trata de crescer para satisfazer algumas necessidades reconhecidas (reais) – o que seria certo -, mas crescer por crescer”. O consumo, então, se torna uma necessidade do sistema e um vício para as pessoas.
Nossos avós eram especialistas em consertar todos os tipos de coisas. Em parte, porque a produção em massa não havia se expandido para a magnitude de hoje, mas também porque não tinham a mentalidade de “consumir e consumir”, mas, sim, “conservar, poupar e cuidar”.
Com base nessa ideia, a ONG Amigos da Terra lançou sua iniciativa Alargascencia (Alongamento), uma página web que reúne vários lugares especializados em consertar todos os tipos de objetos e maximizar sua vida útil. Dessa forma, pretendem enfrentar o sistema perverso da obsolescência programada e a poluição que causa descartar e se desfazer de tantos utensílios. Assim, os principais beneficiários – de acordo com a organização – “serão os próprios cidadãos”, pelo seu bolso e pelo bem do planeta em que todos vivemos.
Uma das coisas que trabalham na iniciativa “Alargascencia” é com o “Recicriativa”, um espaço em que existem ferramentas e instrutores para que as pessoas possam consertar seus utensílios. Foi criado por vários cidadãos sob o lema “Uma coisa a menos no lixo e na rua, uma compra a menos e uma satisfação compartilhada”.
De acordo com dados do relatório Global E-waste Monitor 2017, da Organização das Nações Unidas, em 2017, foram descartados 44,7 milhões de toneladas de resíduos tecnológicos. Em 2019, estima o relatório, o número aumentaria para 50 milhões. Isso significa que cada habitante do planeta joga cerca de 4,2 kg de lixo tecnológico por ano, algo como 21,2 telefones celulares iPhone 8 Plus ou 4 computadores portáteis com tela de 15 polegadas. Quem precisa de tanta tecnologia por ano?
Outro problema revelado pelo relatório é que a maioria dos resíduos eletrônicos vai parar em lixões em países pobres e provêm principalmente dos Estados Unidos e da Europa. Essa descoberta é consistente com outro indicador do estudo em que aparecem os países que mais produzem resíduos tecnológicos por pessoa: a Noruega produz 28,3 kg, a Suíça, 23,3, e a Islândia, 25,9.
Essa alarmante situação pode começar a mudar consertando os aparelhos tecnológicos antes de descartá-los. A Fundação Energia para a Inovação Sustentável sem Obsolescência Programada (Feniss), uma ONG espanhola dedicada a combater esse tipo de economia, afirma que “é possível acabar com a obsolescência programada aplicando os conhecimentos e tecnologias disponíveis atualmente”. Mas, para isso, “é necessária uma mudança no estilo de vida, menos orientada para padrões de consumo prejudiciais ao meio ambiente”.
De fato, a Feniss desenvolveu os selos Issop (Inovação Sustentável sem Obsolescência Programada), que são reconhecimentos para empresas que entregam produtos duradouros e facilmente consertáveis. Este foi entregue a empresas como a marca de tecnologia Casio e a empresa de lâmpadas ecológicas Prososphera.
Obsolescência: o mal
Quando alguém decide comprar um novo aparelho, geralmente ocorre por algum dano físico ou um sistema antigo. A questão é que, na maioria dos casos, isso se deve à obsolescência programada. Uma prática que começou no início do século XX, com as lâmpadas.
Segundo a Feniss, “a vida do produto é reduzida para fazer as pessoas comprarem mais e, assim, acelerar o crescimento da economia do fabricante”. Isso está de acordo com o que Latouche diz quando afirma que “o ponto de partida da obsolescência programada é o vício no crescimento do nosso sistema produtivo”. O que é absolutamente irracional em um planeta com recursos limitados.
Por isso, a França alterou sua legislação, em 2015, e criou uma norma que define a obsolescência programada como um crime.
Um dos exemplos mais eloquentes dessa prática é descrito por Valery Serrano, que trabalhou em um centro de serviços de telefonia celular: “Muitas pessoas nos telefonavam porque seus celulares não podiam ser atualizados para o sistema operacional mais recente ou porque alguns aplicativos novos não funcionavam com o velho sistema. E para isso não há solução, sendo assim, recomendávamos, pela política da empresa, trocar o aparelho por um mais moderno”.
No entanto, muitas dessas atualizações não são vitais para que o telefone celular funcione. “A menos que você viva do telefone, não é necessário que conte com a última versão. A única coisa é que alguns aplicativos não podem mais ser baixados”, acrescenta Serrano, que possui o mesmo telefone celular há quatro anos e o consertou três vezes nesse período.
Tomar a decisão de consertar em vez de descartar não é uma utopia. Sergio Barrantes, ambientalista de Bogotá, tem o mesmo reprodutor de música há dez anos. Trata-se de um MP3 que foi consertado três vezes por conta própria, a partir de informações na Internet. “Não compro um novo porque não preciso, os consertos foram suficientes”, diz.
A duração dos aparelhos, além de depender da fabricação e dos materiais do produto, é consequência de uma manutenção adequada. “O usuário deve estar atento aos sinais. Deve cuidar da bateria sem sobrecarregá-la para que sua vida útil seja mais longa”, observa Juan Jaramillo, engenheiro de sistemas da Universidade dos Andes.
Contudo, o fato é que as pessoas estão cada vez mais informadas e é assim que milhões de computadores portáteis receberam uma “segunda vida” com a simples instalação de um disco rígido e uma ampliação da memória ram original.
Uma tarefa de todos
As pessoas são movidas por seus bolsos ou pela consciência ecológica, mas as instituições também começam a agir. Em 2017, o Parlamento Europeu aprovou a “resolução sobre uma vida útil mais longa para os produtos: vantagens para os consumidores e as empresas”, por meio da qual motiva as pessoas a consertarem seus próprios aparelhos e, além disso, incentiva as empresas a prestarem serviços para esse fim. Coisa que a Comissão Europeia acaba de elevar à norma interna desse bloco poderoso.
A União Europeia está consciente dos obstáculos para uma mudança de cultura, que vai desde a falta de informações sobre locais onde as pessoas podem consertar, até a fabricação de modelos projetados intencionalmente para que sejam muito difíceis de consertar e, portanto, resulte mais simples e barato comprar um novo. Portanto, iniciativas como “Alargascencia” são fundamentais para gerar consciência de que é possível consertar ao invés de descartar. Porque a principal mudança necessária é nas pessoas, que ainda preferem descartar e comprar algo novo, apesar dos custos que isso significa.
Segundo dados do Parlamento Europeu, “na Alemanha, 13% das oficinas para conserto de rádio e televisão fecharam em um ano, e nos Países Baixos desapareceram, neste setor, 2.000 empregos, em sete anos”.
A Colômbia não é exceção. De fato, Fredy, um técnico especializado em eletrônica que literalmente conserta tudo, confessou ao jornal El Tiempo que lhe restou se dedicar a telefones celulares, porque “quase ninguém quer consertar seus eletrodomésticos. Preferem jogá-los no lixo e comprar outros”.
O caminho para diminuir o impacto ecológico negativo que causa descartar sem tentar consertar não é outro que a educação: conscientizar dos danos que isso causa ao planeta e à nossa economia doméstica. E nisso os tutoriais da Internet estão desempenhando um papel central, assim como as ONGs que vestiram a camisa para explicar que podemos viver de outra forma e sem provocarmos tanto dano.
A União Europeia, pela ‘reparabilidade’
A Comissão Europeia aprovou, nesta terça-feira, um pacote de medidas para prolongar a vida de vários eletrodomésticos, como geladeiras, máquinas de lavar e até televisões, e torná-los mais sustentáveis em relação ao consumo de água e energia. A norma obriga as empresas a fornecer peças de reposição aos usuários e técnicos em no máximo 15 dias e por um período de até 10 anos, para que os produtos durem mais e gerem menos poluição.
A norma, que entrará em vigor em 2021, busca evitar que os usuários continuem jogando no lixo produtos que podem ser consertados. E gera novas exigências de durabilidade e economia de custos para dispositivos de iluminação. No total, com esta norma, a Comissão Europeia espera uma economia de 150 euros por ano, em média, por cidadão.
De acordo com uma pesquisa do Eurobarómetro, em 2017, 77% dos cidadãos da União Europeia prefeririam consertar seus bens, em vez de comprar outros novos. E mais de 90% estimam que os produtos devem ser claramente etiquetados para indicar sua durabilidade.
A reportagem é de Nicolás Hernández Gómez, publicada por El Tiempo, 06-10-2019. A tradução é do Cepat.

