Confronto entre forças de segurança e manifestantes se intensificou nesta sexta-feira
DAMASCO – Pelo menos 88 pessoas morreram nesta sexta-feira, 22, o dia mais violento em um mês de confrontos entre manifestantes pró-democracia e forças de segurança na Síria. Uma lista com o nome das 88 vítimas foi obtida pela Reuters. A relação, enviada à agência pelos Comitês de Coordenação Local (CCL), tem informações sobre o local das mortes, e inclui a capital, Damasco, a cidade portuária de Latakia e localidades como Homs, Hama e Izraa, no sul do país.
A verificação de informações na Síria é complicada pelo fato de o governo do presidente Bashar al-Assad recusar pedidos de entrada no país de organizações internacionais e repórteres estrangeiros. A Reuters afirma que não pôde verificar a autenticidade da lista enviada pelo CCL, grupo de direitos humanos atuante no país. Os protestos pró-democracia na Síria começaram em 18 de março.
Pelo menos outras 20 pessoas estão desaparecidas, de acordo com o diretor da Organização Nacional para os Direitos Humanos da Síria, Ammar Qurabi. O ativista de direitos humanos Haizam Maleh, uma das figuras da oposição mais respeitadas do país, disse à Efe que tinha recebido informações segundo as quais mais de 50 pessoas teriam morrido em diferentes pontos do país.
Muitas das mortes teriam ocorrido quando soldados dispararam com armas de fogo e gás lacrimogêneo contra multidões que protestavam contra o regime em diversas cidades sírias. As manifestações começaram ao final das orações do meio-dia (8h da manhã em Brasília) da sexta-feira, a celebração religiosa mais importante para os muçulmanos.
A agência estatal síria de notícias Sana confirmou o uso de gás lacrimogêneo nos protestos, alegando que seriam “para impedir confrontos entre manifestantes e proteger a propriedade privada”. Disse ainda que usaram canhões d’água e que “algumas pessoas ficaram feridas”. A oposição convocou os protestos para um dia que chamou de “Grande Sexta-Feira”. Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas no país.
Segundo a Efe, desde o início da manhã desta sexta Damasco e outras cidades tinham um “impressionante dispositivo de segurança, como há muito tempo não se via no país”. Moradores de algumas cidades e fontes médicas consultadas por emissoras árabes denunciaram que a repressão teria se estendido a alguns hospitais, que teriam sido rodeados por policiais e soldados que impediram o acesso a feridos.
Testemunhas disseram ter visto pelo menos cinco corpos em um hospital nos arredores da capital. Outras dez pessoas, incluindo um garoto de 11 anos, foram mortas na província de Daraa, durante um protesto diante da prefeitura da cidade de Izraa, afirmaram as testemunhas, que não se identificaram por medo de represálias.
Reivindicações
Nesta sexta-feira, os ativistas que coordenam os protestos divulgaram, segundo a BBC, o primeiro comunicado conjunto desde o começo das manifestações. No documento, eles pedem o estabelecimento de um sistema político democrático, exigem o fim da tortura, assassinatos, prisões e violência contra os manifestantes.
Entre as reivindicações dos manifestantes estão ainda a declaração de três dias de luto oficial pelos mortos até agora; investigações oficiais sobre as mortes nos protestos; a libertação dos prisioneiros políticos e a reforma na constituição síria, incluindo um limite de dois mandatos consecutivos para um mesmo presidente.
Líbano e Chipre
As manifestações contra o regime de Assad se espalharam por outros países da região. Em Trípoli, cidade no norte do Líbano, um protesto convocado pelo partido Tahrir (Liberdade) ocorreu mesmo sem a aprovação do Ministério libanês do Interior. No ato, manifestantes seguravam cartazes em que chamavam Assad de “traidor” e com dizeres como “Os crimes cometidos na Síria são uma vergonha para todos os povos livres” e “Abaixo o regime”. Houve protestos também no Chipre.
O presidente Assad ratificou ontem a lei que encerrou o estado de emergência vigente há 48 anos, numa tentativa de acalmar os opositores. Outras medidas foram adotadas, como a soltura de manifestantes detidos durante os protestos das últimas semanas. As manifestações de hoje são um sinal de que as ações não surtiram efeito.
Mais de 200 pessoas morreram em choques com forças de segurança sírias desde meados de março, quando teve início a onda de protestos contra o governo. Os manifestantes pedem reformas no país. O fim da Lei de Emergência era uma das principais exigências da oposição.
Estadão.com.br
Com AP, BBC, Reuters e Efe
