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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Doença muda discurso de Chávez e antecipa sua campanha pela reeleição

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05/08/2011 10h12 – Atualizado em 05/08/2011 10h12

Instituto Humanistas Unisinos

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deu o pontapé inicial em sua campanha para se reeleger em 2012 utilizando o anúncio de um misterioso câncer detectado por médicos cubanos no mês passado. Essa é a avaliação de analistas ouvidos pelo Valor.

A pouco menos de um ano e meio do pleito, marcado para novembro do ano que vem, Chávez vive um momento de baixa em sua popularidade e vê seus principais adversários se aproximarem dele nas pesquisas de intenção de voto.

Segundo uma pesquisa do instituto Datanálisis, divulgada no final de junho, Chávez tem 35,4% das intenções de voto, contra 34,7% do ex-governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles Radonski. A vantagem contra outros possíveis oponentes é de no máximo 10 pontos percentuais.

Outro levantamento da Datanálisis mostra que a aprovação do presidente caiu de 70% para 50% nos últimos dois anos.

O câncer, dizem os especialistas, abre uma oportunidade de aproximação entre o presidente e a classe média venezuelana, insatisfeita com as dificuldades econômicas enfrentadas pelo país e com o estilo considerado centralizador e autoritário do presidente.

“A doença se presta para aprofundar uma postura de mais tolerância, para projetar uma imagem mais democrática, de conciliação”, diz José Antonio Gil Yepes, presidente do Datanálisis. “Ele precisa ganhar votos, porque as pessoas não estão de acordo com o seu modelo.”

Desde que fez o anúncio, durante uma viagem a Cuba em junho, Chávez renovou o seu discurso. O tradicional slogan “Pátria, socialismo ou morte” simplesmente desapareceu. Em seu lugar, adotou o “Viveremos e venceremos”, mais otimista.

Outro sinal de mudança surgiu no dia 28 de julho, aniversário do presidente. Na ocasião, ele saiu à sacada do palácio Miraflores vestido de amarelo, abrindo mão da tradicional camisa vermelha.

“Chávez não quer oferecer a morte [aos eleitores]. Sua camisa não é mais vermelha, a cor da morte, mas amarela, que significa esperança. São elementos mitológicos que têm a ver com o milagre [da cura]”, diz Yepes.

Já doente, Chávez pediu medidas humanitárias para ajudar presos com câncer, dentre os quais estão três acusados de participar da tentativa frustrada de golpe contra ele, em 2002.

“Independentemente de quem sejam, das suas opiniões, ouso fazer um pedido humanitário para que eles recebam o tratamento médico de que precisam”, disse Chávez à TV venezuelana antes de embarcar para uma sessão de quimioterapia em Cuba, há pouco mais de duas semanas.

Depois disso, a Justiça decretou a libertação de Alejandro Pena, opositor que estava preso sob a acusação de terrorismo e que sofre de câncer de próstata. Lázaro Forero, delegado de polícia preso após o golpe de 2002, recebeu a visita de um médico na prisão momentos após a fala de Chávez, segundo sua mulher, Yajaira Castro. Ele também tem câncer de próstata. Esses episódios ajudaram a alimentar acusações de que o presidente controla o Judiciário.

Além de uma imagem mais conciliadora, Chávez busca associar seu drama pessoal aos desafios enfrentados pela Venezuela, afirma Ricardo Gualda, professor da Universidade Federal de Alagoas e que estuda a estratégia de comunicação do governo chavista.

“Chávez não se desvincula da nação, ele se vê como a encarnação política da Venezuela. O que está propondo é um paralelo entre as dificuldades sociais e políticas que o país atravessa e a sua doença.”

O câncer, continua Gualda, só tende a reforçar a tendência de Chávez de “transformar tudo o que se passa com ele em discurso político e tudo o que se passa com a Venezuela em uma questão pessoal”.

“A vitória dele contra o câncer representa a vitória do país. Chávez quer que o povo o acompanhe nesse processo, culminando em uma grande vitória eleitoral.”

O sucesso dessa estratégia dependerá de vários fatores, mas o principal deles é o real estado de saúde do presidente, diz Natalia Brandler, professora do curso de Ciências políticas da Universidade Simón Bolívar. “Se a doença for tão grave quanto dizem, isso pode ser negativo”, diz Natalia. “Os venezuelanos têm uma relação muito afetiva com Chávez, mas isso não necessariamente se traduz em intenção de voto.”

Os especialistas são unânimes em dizer que, apesar da simpatia de grande parte da população pelo presidente, ninguém quer um líder debilitado à frente do país.

Chávez parece ter percebido isso desde cedo e, depois de ter anunciado de maneira mais soturna do que o habitual que estava doente, tem feito declarações sempre bem humoradas sobre o tema.

Na última segunda-feira, ele apareceu com a cabeça raspada pela primeira vez. Disse que “este é o meu novo look” e afirmou ter chamado o barbeiro após ter notado a queda de alguns cachos, como fruto da quimioterapia. Chávez mostrou, então, uma fotografia de quando era bebê e quase não tinha cabelos, antes de soltar: “Estou voltando à minha juventude”.

Em meio a tudo isso, os jornais venezuelanos começam a replicar rumores surgidos na internet de que a doença do presidente pode ser uma fraude. E o fato de ele não ter esclarecido exatamente qual câncer o atinge só alimenta essas especulações.

O jornalista Alexander Cambero, do jornal “El Universal”, publicou na última quarta-feira uma coluna com o título “E se for tudo mentira?”. No texto, ele afirma ter recebido muitas mensagens via Twitter e no Facebook dando conta da possível farsa. Por essas versões, Chávez teria na verdade sido vítima de uma infecção contraída após ter feito uma lipoaspiração em Cuba. A “batalha comunicacional”, conclui o jornalista, deve se arrastar por semanas.

Doença muda discurso de Chávez e antecipa sua campanha pela reeleição

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