29/07/2012 10h15 – Atualizado em 29/07/2012 10h15
Fonte: Planeta Sustentável
Chuvas torrenciais, vegetação densa, ataques de abelhas e problemas políticos foram alguns dos percalços encontrados durante os três anos de gravação de Chimpanzé, documentário da Disney Nature que será lançado apenas em DVD no Brasil, em setembro deste ano. “As pessoas me perguntam se é perigoso gravar com os chimpanzés, se eles nos atacaram. Mas não, chimpanzés não foram o problema. Como sempre, pessoas são o problema”, conta o diretor Mark Linfield ao site da National Geographic Brasil.
As gravações do documentário tiveram de ser interrompidas mais de uma vez devido a conflitos políticos na Costa do Marfim e à intervenção de forças pacificadoras da ONU na região. Outros problemas, que nada têm a ver com pessoas, estiveram relacionados às características do clima e da flora do Parque Nacional de Taï, onde o filme foi rodado. Patrimônio Mundial da Humanidade desde 1982, Taï é uma das últimas áreas com remanescentes originais da floresta tropical do oeste africano. E mais: é o lar de 2.000 a 2.800 chimpanzés, calcula a Unesco.
Entre eles, o grupo de Oscar, carismático personagem principal do documentário, tem sido estudado por 30 anos. Por isso, a equipe pôde conhecer o relacionamento entre os 35 integrantes da colônia de chimpanzés e entender detalhes da personalidade de cada um.
Saber, por exemplo, do jeito distante do macho alfa, Freddy, e da maneira carinhosa com que Isha cuida de seu filhote, Oscar, ajudou os diretores a antecipar o comportamento dos animais, o que facilitou as filmagens.
“Eles são tão acostumados aos humanos que nos ignoraram. É como se falassem: ‘Humanos são entediantes, ficam aí sentados com seus cadernos. Vamos ignorá-los depois de duas ou três semanas’. Se você tentasse filmar um grupo qualquer, eles ficariam constantemente fugindo ou olhando para a câmera”, explica Linfield.
Mas essas vantagens não superam o inesperado desenrolar da história. Oscar, com apenas 3 anos de idade, perdeu a mãe Isha após uma disputa territorial de seu grupo com um rival, o de Scar (sugestivo nome do vilão de Rei Leão). O órfão tenta ser adotado por outras fêmeas da “família” e é rejeitado; emagrece e não se alimenta bem o suficiente para sua idade e período de crescimento (este é um dos clímax sentimentais do filme). Por trás das câmeras também bateu a desesperança, e os diretores Linfield e Alastair Fothergill pensaram que o filme acabaria ali.
Eis que aconteceu a reviravolta inesperada da trama: Freddy, o macho alfa, adotou Oscar. O comportamento é extremamente incomum para um líder, que precisa manter a coesão entre os machos do grupo para garantir proteção territorial, explica Jane Goodall, primatóloga, etóloga e antropóloga britânica, uma das maiores autoridades do mundo em comportamento de chimpanzés. E Christophe Boesch, que estuda os primatas há mais de 30 anos no Parque Nacional de Taï, diz nunca ter visto um macho como o Freddy assumir papel de mãe com tamanha afeição.
“Quisemos contar uma história real que faça com que as pessoas amem chimpanzés. O filme não tem grande apelo ambiental, não faz discursos com fatos e números. Os problemas podem ser contados nas revistas, nos jornais e online”, diz Linfield, que também fez o documentário Terra (2009), da Disney Nature, ao lado de Fothergill.
“Se você quer fazer um filme que será visto e fará diferença, você quer fazer um filme como este.”
Nas profundezas da floresta
Mark Linfield sempre foi fascinado por chimpanzés, mas apenas recentemente conseguiu realizar uma produção como esta. “A qualidade das câmeras melhorou muito e agora as imagens ficam boas mesmo em um ambiente escuro, com alto contraste. Isso nos permitiu ter imagens que nunca conseguimos antes”, explica o diretor, que recebeu a proposta da Disney para fazer um filme sobre natureza no fim de 2006.
Mas, ainda que o obstáculo da luminosidade tenha sido superado, conseguir boas tomadas na selva não foi fácil. A floresta é extremamente úmida e as chuvas torrenciais não são o melhor ambiente para equipamentos de gravação.
Além dos problemas técnicos, foi um grande desafio para os câmeras acompanharem os chimpanzés: os animais percorrem grandes distâncias rapidamente, e o Parque Nacional de Taï tem vegetação espessa. “Colbat, nosso câmera principal, disse que ele se sentiria bem se conseguisse pelo menos uma boa imagem por dia. Em alguns dias pensamos que nunca completaríamos o filme.”
Muitas cenas de ação do longa são de embates entre os dois grupos rivais da região: o de Freddy e o de Scar. Nelas, os chimpanzés se movimentam rapidamente por entre galhos e troncos, por longas extensões, e batem nas árvores como se fossem tambores. Para compor o enredo, a edição juntou gravações de diversos conflitos para representar, “o mais fielmente possível”, um dos choques.
No fim, junto com os créditos, há o momento making-off: Mark Linfield, Alastair Fothergill e o resto da equipe são vistos tropeçando, caindo e sendo atacados por milhares de abelhas. “Os chimpanzés se alimentam de mel e atacam colmeias. Quando as abelhas vêm, eles saem correndo e quem é que está parado, atrás deles? Nós!”, conta, rindo, Linfield.
Curiosidades, hábitos e ameaças
Seres humanos e chimpanzés têm de 95% a 98% do DNA em comum. Eles são nossos parentes mais próximos: fabricam e usam ferramentas, desenvolvem laços familiares vitalícios, comunicam-se por chamados e por linguagem corporal (gestos e expressões faciais). De modo geral, o comportamento deles acaba sendo bastante parecido ao dos humanos.
E o filme tenta aproximá-los ainda mais: associa seus hábitos aos nossos, humaniza os primatas. A vida pulsante da selva é retratada com tomadas clássicas de cenários urbanos: centenas de milhares de formigas percorrem a terra como carros no asfalto.
Mas o longa não cita os dados preocupantes sobre a população de chimpanzés, que atualmente pode ser encontrada em 21 países da África. No início do século 20, havia entre 1 milhão e 2 milhões deles; hoje restam menos de 300 mil. O número diminui à medida que a ação humana em seus habitats aumenta com a derrubada de florestas para agricultura e a exploração de recursos naturais, como madeira e minérios.
Nos Estados Unidos, Chimpanzé foi lançado em 19 de abril, no Dia da Terra. Parte do valor arrecadado nas bilheterias nas duas primeiras semanas de estreia foi doada ao projeto “Veja Chimpanzés, Salve Chimpanzés”, do Jane Goodall Institute, destinado à conservação do habitat dos primatas e ao cuidado a chimpanzés órfãos.

