27/09/2013 10h25 – Atualizado em 27/09/2013 10h25
Fonte: Da Redação
Em 28 de setembro de 1948, o município de Amambai foi emancipado política-administrativamente e, em 2013, completa seus 65 anos. Grandes histórias circundam esse acontecimento, entre elas, a de participantes que acompanharam a trajetória da cidade desde sua fundação, como Ilza Serejo e Nicanor Alves do Amaral.
Os nomes dos rios e córregos do sul de Mato Grosso, onde se encontra Amambai, são nomes de língua guarani, o que comprova a ocupação da região por índios guaranis desde a era pré-colombiana.
A povoação da região de Amambai, antiga Patrimônio União, intensificou-se com o fim da Guerra da Tríplice Aliança. Durante a demarcação de fronteiras entre Brasil e Paraguai, os grandes ervais nativos nas bacias dos rios Iguatemi e Amambai chamaram a atenção por sua cor deslumbrante e porte exuberante, começando em 1878 a exploração da erva mate nesta região.
Foi criada a Companhia Mate Laranjeira, que, para melhorar o escoamento de seus produtos, modernizou seus meios de transporte, abrindo estradas nas matas e nos campos.
Sabendo que os campos e coxilhas do sul de Mato Grosso eram semelhantes aos da fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, sobretudo das regiões das Missões, os gaúchos fizeram rodar suas carretas para a região de Amambai, onde havia tranquilidade e área bastante para a lavoura e criação de gado.
Instalaram-se na região diversas caravanas formadas por gaúchos e estrangeiros. Naquela época, Amambai era simplesmente uma parada de carretas. Suas vertentes, suas sombras e seu posto foram motivo de descanso para os viajantes. A antiga paragem de carretas pouco a pouco foi formando um núcleo de vivendas.
Os moradores do lugar formaram uma comissão para pedir ao Estado a legalização do Patrimônio União. A região foi inicialmente batizada de Paz Nhú Vera e depois, pela unidade reinante no lugar, Patrimônio União. Mais tarde os serviços geográficos opinaram que fosse trocado o nome do lugar. Entre as ideias apresentadas surgiu Ervanópolis, Valenciópolis e Amambai. Considerando-se a originalidade e eufonia linguística os serviços geográficos optaram por Amambai.
A vila Amambai foi distrito de Ponta Porã até o dia 28 de setembro de 1948, quando, através do decreto Lei número 131, foi criado o município de Amambai, sendo instalado a 1º de janeiro de 1949.
Amambai iniciava uma nova vida administrativa, sendo Sidney Batista seu primeiro prefeito. Fez-se dona de todo sul de Mato Grosso de Sul e passaram a depender de Amambai os distritos de Iguatemi, Tacuru, Coronel Sapucaia e Paranhos.
A emancipação do Município foi uma grande vitória para o povo da região. Sua cooperação a favor da região motivou a criação do município de Iguatemi, que mais tarde desmembrou-se de Amambai, bem como o de Sete Quedas, Paranhos, Tacuru e Coronel Sapucaia.
Ilza Serejo
E no meio de tantas histórias deste município, tem a de Ilza Serejo, moradora de Amambai desde 1938, quando se mudou aos 26 anos com seus irmãos para a cidade que era apenas um distrito nesse tempo.
Quando questionada sobre sua idade, Ilza conta aos risos “Até 1996 eu contei”, mas, segundo a família, a matriarca tem hoje 101 anos, tendo nascida em 1912.
Ela conta que quando chegou em Amambai, o município era apenas um distrito de Ponta Porã e só o que era visto por aqui eram indígenas. “Eu pensava que os índios eram como nas novelas, um povo diferente, e sempre perguntava ao meu irmão onde estavam aqueles indígenas; logo depois descobri que eles eram como a gente e estavam em todo lugar”, conta Ilza.
Ilza trabalhou a vida toda no posto central e conta que um dos motivos de ter vivido até aqui é a caminhada que fazia todos os dias de sua casa até seu local de trabalho. Ela explica que considera o fato de ter sido solteira a vida toda algo que influenciou em sua longevidade.
Seu irmão, Francisco Serejo Neto, foi o prefeito escolhido na época em que Amambai ainda era Patrimônio da União. Naquela oportunidade, houve a votação em que os moradores puderam opinar sobre qual seria o nome do agora município.
“Como era pouca gente, aquele que tivesse mais votos seria o escolhido; Coronel Zita, Ervanópolis e Amambai eram algumas das opções”, explica ela. E continua: “Apenas existiam por aqui alguns taperões, a avenida era simplesmente uma estrada e algumas carreiras cortavam a grande quantidade de grama que permanecia”.
Ilza conheceu quase toda a população que povoou Amambai no inicio dos tempos e conheceu cada personalidade que foi falecendo e dando nome as escolas, como Maria Bataglim e Antônio Pinto da Silva.
“Quando o primeiro prefeito assumiu o cargo, trouxe com ele pessoas de outras cidades maiores e estas formaram uma vila e a lotearam. Cristina era o nome da filha do cidadão que comprou o local, Alcir Manvailler Serejo, que deu nome a vila”, conta ela.
Quando questionada sobre o que mudou, Ilza fala que agora a cidade está muito mais tranquila. Antigamente, diz ela, os roubos e tráfico eram muito grandes e frequentes, o que deixava o lugar ainda mais inabitável. A senhora acompanhou pessoas desde a infância e que até hoje moram aqui, como o médico José Luiz Saldanha Moreira, que andava a cavalo quando criança pelo meio da quiçaça. Ela cita também um dos prefeitos de Amambai, Nestor Tagliari, que sofreu com a revolta da população que não aceitou seu segundo mandato e o tirou a força.
Ilza conta hoje com uma amiga, que cuida dela todos os dias e a ajuda em algumas tarefas que não pode mais realizar. A idosa consegue se alimentar, andar e inclusive tomar banho sozinha. Ela afirma aos risos que seu único problema é a idade vencida.
Nicanor Alves do Amaral
Nicanor Alves do Amaral é outro destes moradores que conhece desde o início de cor e salteado a história deste município. No dia 15 de setembro, ele comemorou 100 anos.
Quando Nicanor nasceu, em 1913, iniciara a exploração da erva-mate na região de Amambai. Nesta época, chegaram às primeiras caravanas, algumas lideradas pelo gaúcho José Alves Cavalheiro.
Amambai nem existia ainda, nem mesmo como Nhu-Verá, como outrora era conhecida – depois Patrimônio da União, mais tarde Vila União e, então, Amambai.
Foi por conta do cultivo da erva-mate e da riqueza de suas terras que a região de Amambai foi tornando-se local de parada para as primeiras famílias que chegavam aqui para trabalhar, seja na Companhia Mate Laranjeira, que tinha permissão para explorar a indústria de erva-mate da região de Bodoquena até as margens do Rio Paraná, divisa com a Argentina e o Paraguai, ou para explorar outros ramos da economia.
Neste período, quem não tinha receio do trabalho, não faltavam oportunidades. Foi nesta época, precisamente em 15 de setembro de 1913, que nascia Nicanor Alves do Amaral. Neste tempo, profissionais de diversas áreas eram inexistentes. Ele cresceu com sob a influência do espírito desbravador de seu avô, José Alves Cavalheiro.
Em 1938, Nicanor casou-se com Paulina Macena do Amaral, a dona Nena, juntos tiveram oito filhos, sendo que os primeiros cinco vieram a falecer antes dos cinco anos de idade por conta da falta de cuidados médicos adequados para tratar das enfermidades. “Na época não tinha antibiótico”, lembra ele. A meningite e a crupe matavam muita gente. “Bateu muita desgraça nessa época”, fala Nicanor. Os três filhos deram a eles 14 netos, 21 bisnetos e um tataraneto. Paulina faleceu em abril de 2011.
Foi fundador do Rotary Club de Amambai e da Sociedade Amigos de Amambai; foi também Juiz de Paz. Na política, foi vereador, tendo sido por duas vezes presidente da câmara em Amambai. Foi também da Congregação Mariana, fundador do Apostolado da Oração, palestrista dos cursilhos de formação para casais, pais e padrinhos.
Nicanor teve uma vida profissional de diversidade de ocupações. Foi professor, mecânico de máquinas leves e pesadas, chaveiro, armeiro, ferreiro, como seu avô, ourives e relojoeiro. “Essas profissões eram todas entrelaçadas”, fala ele com humildade. Mas foi como fotógrafo que o mesmo mais atuou e tornou-se conhecido e prestigiado em toda a região de Amambai.
Quando criança, ele nem pensava como seria sua vida. Depois, lembra ele, guri já grande, tinha essas ideias de chegar aos 100 anos, mas uma ideia vaga.
“O que significa fazer 100 anos?” “É uma fase da vida, é uma coisa normal”, fala ele modestamente. E pondera: “Eu estou contente, achava que a vida não ia até lá, o tempo era meio contrário a durabilidade da pessoa, mas o pensamento foi vago e eu fui indo”.
Despretensiosamente, Nicanor compartilha seu segredo da longevidade “Higiene em tudo na vida, tem que tomar banho, fazer a comida perfeita, não comer porcaria, não beber, não fumar (…) qualquer vício desses leva a gente para a ruína”, reflete. E prossegue: “Eu mesmo bebi, deixei quando eu vi que estava me fazendo mal, eu fumava também, deixei também”.







